quinta-feira, 28 de julho de 2016

Biografias: escritas que nos tocam

            Infelizmente nossa capacidade de olhar o mundo pelos olhos de um Outro vem declinando, embora sejam muitas as conexões que partilhamos diariamente neste amplo espaço tecnológico da contemporaneidade. Uma das formas criativas de aprendermos (ou recuperarmos) essa alteridade que nos escapa, nos aparta da vida e nos torna desumanos, se dá pela leitura de obras biográficas, cuja história de pessoas desconhecidas ou admiradas são narradas.

            Acompanhar a vida de outros seres humanos pela literatura biográfica, descobrindo suas fragilidades, seus sofrimentos, ódios, alegrias e infelicidades é algo que educa nossa sensibilidade para a compreensão do existir como algo mais complexo e menos simplista. Somos instigados a perceber, por exemplo, que uma história de vida não é feita só de escolhas pessoais, como habitualmente se considera. Há condicionantes externos que compõem a vida de um indivíduo, transformando-a em tragédia ou em felicidade, se quisermos assim denominar.

            É o caso da autobiografia Quarto de Despejo – Diário de um Favelada, livro escrito por Carolina Maria de Jesus, moradora negra da periferia paulista nos anos 50 e 60. O diário desta escritora nos convida a entender o que é o sofrimento e a humilhação da fome, se nunca a tivermos sentido em nosso próprio corpo. Ao mesmo tempo situa historicamente o Brasil do período mencionado e pode nos ajudar a refletir sobre a questão da miséria no contexto atual, desfazendo muitos de nossos preconceitos.


             O Diário de Rywka é também uma experiência trágica, relatada pela própria protagonista, uma adolescente judia vítima dos campos de concentração nazista na segunda guerra mundial. Pode ser considerado um documento histórico, assim como Quarto de Despejo, evidentemente. Ademais, entre outras coisas, contribui para refletirmos sobre o fascismo e o nazismo que assombram nossas vidas mais uma vez.

            Na mesma perspectiva, o jornalista Flávio Tavares escreveu suas Mémórias do Esquecimento – Os Segredos dos Porões da Ditadura, relato belíssimo sobre sua prisão, tortura e libertação durante o regime militar brasileiro. Trata-se de um livro poético e educativo, a nos oferecer imagens tão trágicas quanto necessárias acerca da brutalidade de uma ditadura.

            E para finalizar esta breve escrita, eu não poderia deixar de citar, enquanto leitora apaixonada de Fernando Pessoa e Clarice Lispector, duas biografias magníficas escritas por excelentes biógrafos que conseguiram expressar a grandeza destes “poetas operários” da língua portuguesa: Fernando Pessoa - uma quase autobiografia, livro escrito por José Paulo Cavalcanti Filho e Clarice – uma biografia, de Benjamin Moser, historiador e escritor norte americano.

             Fica o convite para que mergulhemos na profundidade que a vida nos oferece, pela arte e pela literatura, junto aos olhos do Outro que, apesar de nos construir, desconhecemos.


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