quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Ciclo de Debates Opressões


Prossegue em 2018, no SESC Piracicaba, o Ciclo de Debates Opressões - "É preciso transver o mundo." Contando com a presença de especialistas, esta série de debates promove indagações sobre as diversas formas de discriminação e preconceito vivenciadas por alguns grupos sociais no Brasil atual.

Na próxima quarta-feira, 15/08, as 19:30h, o tema em discussão será:

COMUNIDADE LGBT - Fobia, Violência e Sofrimento Psíquico.

A Mesa será composta por duas psicólogas:
Andrea Raquel Martins Corrêa e Pâmela Cristina Oliveira.

Mediação: Felipe Vecchini


O evento é aberto e gratuito.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Custódia: um filme necessário


O filme francês Custódia (2018), dirigido por Xavier Legrand, é um drama envolvente, intenso e eletrizante, narrado sob o ponto de vista de uma criança cujos pais estão se separando. 
Inicialmente não entendemos porque a ex esposa e mãe não deseja que o ex marido se aproxime dos filhos, reiterando tal posicionamento na presença da juíza. Na sequência, no entanto, o filme vai esclarecendo estas motivações, sempre pelo olhar do filho mais novo, que sofre demasiadamente cada vez que é obrigado a ir com seu pai.

O tema e a polêmica da alienação parental é uma das grandes questões tratadas pelo diretor. Por que o filho não deseja estar com o pai, revelando medo ao ter contato com ele? A interpretação deste ator mirim - Thomas Gioria -, inclusive, é magnífica! Sentimos calafrios na cadeira do cinema ao acompanhar os gestos e a expressão de seu olhar.

A tensão da película é crescente, tornando-se difícil de suportar na medida em que o final se aproxima. Quem é este pai, que tem alguns antecedentes de violência já registrados? Qual o seu perfil psicológico? Ele seria capaz de agredir e de matar, ou essas seriam alegações infundadas e perversas da mãe?

Pois bem, mais do que isso é spoiler, não é mesmo? De todo modo, saímos da sessão lembrando de muitas outras situações, algumas divulgadas pela mídia, outras não. Saímos pensando na fragilidade das crianças e das mulheres diante de certos homens e de quanto estes mesmos homens, tão "machos", precisam de ajuda e tratamento. 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Prevenção ao suicídio

A questão do suicídio vem se tornando tão grave e séria que de tempos em tempos faz-se necessário abordá-la. Em função do aumento de tentativas e do número efetivo de suicídios registrados - principalmente entre os jovens -, no último mês de julho o Ministério da Saúde, em parceria com o CVV (Centro de Valorização da Vida), ampliou o atendimento gratuito para todos os estados do país. 

Através do número 188 de telefone, qualquer cidadão pode solicitar ajuda ao CVV, que é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos, cujo objetivo consiste justamente em auxiliar as pessoas que se encontram em estado de sofrimento, considerando o suicídio como alternativa para acabar com a dor permanente. 
Há ainda outros canais de comunicação com o CVV, por email e chat. Vale a pena conhecer o site: https://www.cvv.org.br/





Em São Paulo, no mês de abril/2018, casos de suicídio entre adolescentes do segundo grau de Colégios reconhecidos da elite paulista, repercutiram na mídia e nos espaços de discussão sobre saúde e educação de jovens. Por que um adolescente da classe média alta ou alta tira a própria vida, sem estar envolvido em situações de bullying ou ciberbullying, de violências explícitas ou amores frustrados? O que leva uma pessoa com tantas perspectivas de vida a cometer uma violência contra si mesmo?

Para refletir sobre o tema, indico a todos os interessados o belíssimo e instigante texto da jornalista Eliane Brum, publicado recentemente no Jornal El País: O suicídio dos que não viram adultos nesse mundo corroído.
Link - https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/18/opinion/1529328111_109277.html

A abordagem de Eliane Brum é lúcida, ampliada, cativante e questionadora. Leitura recomendadíssima.




Também a Unicamp, no intuito de promover com mais empenho a discussão sobre suicídio, está organizando e divulgando o Fórum Suicídios - Des/compassos da Vida: números, atos e demandas, que será realizado no dia 8/08.
Mais informações: https://www.foruns.unicamp.br/eventos/suicidio-descompassos-da-vida-numeros-atos-e-demandas




quinta-feira, 5 de julho de 2018

A negação do homem trágico: extinção da espécie humana



Infelizmente a visão do homem como um ser trágico, proclamada pelos gregos, por Shakespeare, Nelson Rodrigues e tantos outros escritores, filósofos e artistas, não tem sido objeto de apreciação, de interesse e compreensão pela nossa cultura dominante. Esta visão foi se modificando ao longo dos séculos, assinalando diferenças extremamente importantes. Se nos gregos a tragédia relacionava-se aos desígnios dos deuses, em Nietzsche, um dos maiores e mais influentes pensadores do início do século XX, a tragédia é justamente o oposto, qual seja o fato do ser humano descobrir-se absolutamente órfão das divindades, sendo obrigado a lidar com o que ele anunciou justamente como a morte de Deus.

Em função da primeira e da segunda guerra mundiais, muitos foram os filósofos a declarar a morte do homem, fruto do extermínio de povos que, em última instância, poderia levar à destruição de todos os habitantes do planeta, o que por sorte não ocorreu, mas segue em curso. A extinção da espécie humana, no momento presente, é uma possibilidade constatada por inúmeros cientistas devido ao esgotamento das condições de manutenção da vida na Terra. De forma suicida, temos optado pelo aquecimento global, pela poluição de todos os meios saudáveis de existência e pelas armas de destruição em massa. Como será que chegamos a esta tão ampla tragédia?      
   
Sem pretender simplificar problemas tão complexos, arrisco a hipótese de que o capitalismo e, nas últimas décadas, o neoliberalismo, aliado à produção de tecnologias que buscam construir uma espécie de universo pós-humano, propiciaram a invenção do "homem não trágico", um ser inatingível pelos deuses e pela reatividade da natureza, um ser cuja finitude parece não existir.

Em uma de suas aulas, transformadas em livros maravilhosos, Michel Foucault, filósofo francês da segunda metade do século XX, estudioso da cultura grega, conta-nos como os gregos pensavam e se preparavam para a morte. Havia uma formação e educação para morrer, baseada em exercícios mentais e cotidianos que levavam em conta a finitude humana, algo absolutamente distante da nossa prática e do nosso pensamento. 


O sistema sócio cultural econômico atual impede que nos lembremos do nosso próprio fim, da nossa morte, esta sim a condição inexorável a determinar que somos trágicos. Se há algum deus inquestionável, este é tão somente a morte, circunstância trágica dos animais racionais e irracionais presentes no planeta Terra. Negá-la, seja na dimensão individual, coletiva ou planetária, implica uma tragédia ainda maior: não por acaso, esta que hoje vivemos. 

Talvez a nossa sobrevivência enquanto espécie humana no planeta esteja a depender, neste instante, de nos compreendermos como seres trágicos, mais uma vez. Seres finitos e necessariamente vinculados uns aos outros, bem como à terra, à água e ao sol.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Combate à homofobia: uma luta por novos conceitos

    


       Uma nova concepção sobre sexualidade e identidade de gênero vem se afirmando desde a segunda metade do século XX, provocando importantes revisões conceituais no campo da saúde e da educação.  A partir dos anos 70, mais especificamente, entidades como Organização Mundial da Saúde - OMS, Associação Americana de Psiquiatria – APA (responsável pela edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM ), Conselho Federal de Medicina e Conselho Federal de Psicologia brasileiros, pressionados por movimentos sociais de direitos humanos foram despatologizando a homossexualidade.

          Em 1973 a homossexualidade, que na ocasião era chamada de homossexualismo (o sufixo ismo indica doença), deixou de ser considerada uma patologia pela Associação Americana de Psiquiatria e foi excluída do DSM. A OMS, em 1990, fez o mesmo. O Conselho Federal de Medicina, já em 1985, também estabeleceu que a homossexualidade e a bissexualidade não são doenças, diferentemente da transexualidade, que até o presente momento ainda é considerada, por quase todas as instituições mundiais, um transtorno de identidade, denominado disforia ou incongruência de gênero. Neste último mês de junho/2018, no entanto, a OMS publicou oficialmente a decisão de retirar a transexualidade da lista de transtornos mentais do Manual Internacional de Classificação de Doenças (CID-11), reclassificando-a como uma “condição relativa à saúde sexual”.

Foi neste contexto que o termo orientação sexual do indivíduo começou a ser utilizado, substituindo a ideia de opção por condição da sexualidade. Isto significa que a escolha do objeto de desejo sexual não é uma opção, é uma condição do ser humano, constituída por muitos fatores. Um marco considerável desta discussão foi a Resolução 01/99 do CFP – Conselho Federal de Psicologia, que estabeleceu normas de atuação para os psicólogos em relação à orientação sexual, no sentido de questionar a heteronormatividade e despatologizar a homossexualidade, deixando de considerá-la como doença ou perversão. 

  Em sua função ética, o CFP criou diretrizes para o atendimento psicológico dos indivíduos homossexuais, visando protegê-los do preconceito e da discriminação social. Fundamentado cientificamente, o Conselho proibiu as chamadas terapias de reversão da sexualidade (conhecidas como cura gay), ajuizando-as como manifestação religiosa cuja intervenção promove ainda mais o sofrimento, ao invés de tratá-lo. A normativa do CFP impõe aos psicólogos que a homossexualidade não pode ser abordada como uma doença, portanto não deve ser combatida, mas muito pelo contrário, necessita ser problematizada do ponto de vista do preconceito da sociedade, não da “escolha” do indivíduo. Abordar a orientação sexual de uma pessoa como um problema individual, não equacionando a discriminação social, contribui para ampliar o sofrimento, a violência e o índice de suicídio destes sujeitos.

            “A homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica” - eis a definição da OMS. Compreende-se, assim, que há uma diversidade de sexualidades e orientação sexual, sendo a homossexualidade apenas uma das possibilidades de expressão da sexualidade humana e de constituição do sujeito, não uma doença. A alternativa proposta a toda a sociedade, em todos os âmbitos e instituições, família, escola, ambientes públicos e privados, setores empresariais, educacionais e de saúde, é o da aceitação, buscando a desconstrução do preconceito e situando os sujeitos LGBTs como sujeitos de direitos, tanto quanto os outros cidadãos.

            Tal perspectiva inclui diversos grupos LGBTs, como os transexuais, por exemplo. Embora, conforme citado, a transexualidade seja ainda classificada enquanto transtorno mental, cresce a tendência à despatologização, tendo em vista a visibilidade e amplitude que as discussões sobre gênero e feminismo vêm alcançando na sociedade, especialmente desde o início do século XXI. É importante salientar que as cirurgias de redesignação sexual no Brasil foram regulamentadas nos anos 90 e para se submeter a elas exige-se uma série de procedimentos institucionais no âmbito médico, psiquiátrico e psicológico. Muitos indivíduos transexuais preferem não realizar a cirurgia, seja pela dificuldade que o sistema de saúde impõe, seja por uma opção pessoal.

            Com o intuito de tentar dar conta desse movimento incessante de criação de novas identidades e práticas na sexualidade e no gênero, diversas siglas foram criadas.  Há diferentes interpretações, dependendo do repertório teórico conceitual – sociologia e filosofia, psicologia e sexologia, psiquiatria. De maneira geral, partindo dos estudos de educação sexual mais recentes e progressistas, o termo transgênero seria o mais adequado para ser utilizado como uma espécie de guarda-chuva que abarca transexuais, travestis, não binários, crossdressers e drag queens. A chave de leitura localiza-se no prefixo trans, que preconiza a noção de transformação: transitar entre os gêneros, entre as identidades, as orientações e os desejos sexuais, os objetos de escolha e as formas de existir. 

       Pelo menos uma parcela das novas e velhas gerações (destaque para Laerte, cartunista reconhecida) encontra-se em trânsito, vivenciando identidades fluidas, com ou sem artifícios, terapias hormonais, cirurgias estéticas e de redesignação sexual.


       

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Foucault: para uma vida não-fascista, por Margareth Rago



Margareth Rago é historiadora e professora doutora universitária (Unicamp), pesquisadora da obra do filósofo Michel Foucault e autora de diversos livros. Nesta brilhante palestra, Margareth Rago apresenta alguns dos principais conceitos de Foucault, reforçando a contribuição do filósofo para a contemporaneidade.

Aos interessados no assunto, vale a pena assistir o vídeo.

Complementando, o texto Para entender Foucault, da Carta Educação, é também bastante didático. Por Marcos César Alvarez e Eduardo A. Camargo Santos.

http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/para-entender-foucault/

domingo, 27 de maio de 2018

Experimento de Milgram, banalidade do mal e consciência




Experimenter ou O Experimento de Milgram (2015), filme dirigido por Michael Almereyda, apresenta aos espectadores a biografia de um importante psicólogo e pesquisador norte americano. No Netflix é possível encontrar o título.

A película é rara, muito bem construída, com ótimas interpretações. Enfoca especialmente os polêmicos experimentos realizados por Stanley Milgram nos anos 60 e 70, na Universidade Yale dos EUA.

Milgram era judeu e se interessava em responder a seguinte pergunta: por que obedecemos ordens superiores mesmo sabendo que estamos fazendo algo errado? O genocídio judeu e muitos outros só foram possíveis na medida em que pessoas comuns se submeteram às ordens de líderes nazifascistas, estimulando e impondo a matança generalizada. Como ocorre esse processo de obediência a uma determinada autoridade? Este o tema, ainda atual, de Milgram.

Para realizar o experimento diretamente com as pessoas, em laboratório de psicologia social, o pesquisador selecionava voluntários dispostos a ocupar papéis distintos durante o teste, um como professor e outro como aluno, sendo que cada um ficava em uma sala separadamente, sem se ver. O professor era obrigado a dar um choque de baixa frequência no aluno, quando este errava a questão que estava sendo avaliada. A intensidade do choque ia aumentando, provocando grande incômodo na maioria dos voluntários que ocupavam o papel de professor. Apesar disso, eles não interrompiam a punição que imaginavam estar aplicando aos alunos, com raríssimas exceções.

Sem informar os detalhes acerca do filme - para que não haja spoiler -, importa refletir sobre os resultados da investigação, realizada inicialmente nos EUA e depois ampliada para países da Europa. Em todos os lugares, o comportamento dos voluntários que tinham como função aplicar uma punição aos supostos alunos, cujo sofrimento com os choques eram evidenciados, foi o mesmo: manter o regulamento acordado com o pesquisador, presente na sala do experimento e em posição de autoridade máxima. Isso significa que, embora constatasse o sofrimento humano do outro e sentisse aflição, quase todos os examinandos deram continuidade a aplicação dos choques.

Criticado por muitos de seus colegas acadêmicos, Milgram acabou se notabilizando com a publicação de seu livro Obediência à Autoridade: uma visão experimental, já traduzido para o português. Além de questões éticas sobre suas pesquisas, Milgram gerou perplexidade nos psicólogos e psiquiatras da época porque estes não esperavam as reações notificadas, ou seja, presumiam erroneamente que quando uma pessoa é instada por uma autoridade a fazer algo que causa dor ao outro, haveria desistência do ato, o que não se revelou verossímil na pesquisa.

É impossível não dialogar com a tese da banalidade do mal, de Hannah Arendt. Segundo seus argumentos no livro Eichmann em Jerusalém, a prática de atos violentos pode ocorrer a qualquer um de nós, sem que sejamos monstros psicopatas. Tais atos estariam relacionados com a dificuldade de distinguir o que é certo e o que é errado nas situações vivenciadas, levando-se em conta quais são as regras do momento. Eichmann, o motorista que levava os judeus para a morte, ao ser julgado pelo Tribunal de Jerusalém, afirmou que "apenas cumpria ordens", mesmo sabendo que o que estava fazendo era matar, sob o comando de Hitler e outros generais nazistas. Vale a pena ver o filme Hannah Arendt (2013) e ler o seu relato sobre o julgamento de Eichmann, no livro mencionado.



Sabemos que o drama da obediência à uma disciplina ou a leis de Estado perversas, genocidas, totalitárias e mantenedoras de sofrimento segue nos dias de hoje. Em nosso cotidiano provavelmente poderíamos elencar diversas cenas a esse respeito. Quantas seriam as circunstâncias em que percebemos estar fazendo algo doloroso para alguém e mesmo assim continuamos, em nome de alguma coisa que nem sempre sabemos... Pode ser o abstrato e controverso "bem", pode ser o "progresso da humanidade", pode ser Deus, pode ser a proteção e a segurança, pode ser a "moralização do mundo", pode ser simplesmente cumprir com regras ou demandas que parecem justas, pode ser tudo isso.

Stanley Milgram e Hannah Arendt acreditavam que havia uma saída: chamaram-na consciência e responsabilidade.