quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um Poema para os Jovens

















Voa.
Voa para o mundo
Que a vida a ti concede amor.

Caminha.
Caminha sem o tempo
Que o medo nunca te abraçará.

Espera.
Espera por si mesmo
Que a aurora há de te habitar.

Divaga.
Divaga na beleza das formas e das cores do universo,
Infinito finito.


Com a graça do alvorecer e
Com a angústia da noite,
Vai
Segue
Sonha
Cria
Inventa.

Cá estaremos eternamente,
Sempre a seu alcance.


Para Luan


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Festival de Cinema Francês



O Festival de Cinema Francês 2018, online, prossegue até 19 de fevereiro. Basta se cadastrar no site para assistir aos filmes, legendados em diversos idiomas, incluindo o português. Para quem vai passar o feriado de carnaval em casa ou descansando, basta ter um computador e acessar. Fica a dica!

Site: https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/

Até o presente momento, os filmes que mais apreciei da atual seleção foram:
- AVA
- Os Últimos Parisienses
- Núpcias
- 1:54

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Vale a pena conhecê-los.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Arte: criação e sentido

Muitas são as formas através das quais podemos expressar nossa visão de mundo, nossa afetividade, nossa inteligência e nossos desejos, conscientes e inconscientes. A arte se constituti justamente como uma destas formas, contemplando diversas linguagens plenas de criação para todos nós, seres humanos. 

É um tanto empobrecedor, no entanto, conceber a arte de modo utilitário, ou seja, pensar e desenvolver o teatro, a música, a pintura e a literatura como atividades que devem ser realizadas tão somente para fins pedagógicos ou terapêuticos, por exemplo. O fazer artístico revela-se mais abrangente, completo e potente do que supõem os técnicos e especialistas das áreas de humanidades, saúde e treinamento pessoal.

Ideal seria, a meu ver, que os campos artísticos fizessem parte intrínseca de nossas vidas desde o berço, cultivando certa sensibilidade que nos inspirasse o amor e a paixão pela literatura, pela poesia, pela música, a pintura e a dança. Se assim fosse, naturalmente iríamos aos museus, lotaríamos com prazer os teatros e teríamos um outro conhecimento sobre nós mesmos e sobre a vida. 
Seríamos mais felizes ou mais críticos? Teríamos mais civilidade e menos barbárie? Não sei a resposta, há argumentos tanto para um sim quanto para um não. Na minha imaginação, contudo, a vida teria mais sentido, seria mais interessante e afetuosa. 

Como nunca é tarde para nos reinventarmos, deixo aqui a proposta que me foi feita pelo professor de artes visuais Guilherme Teixeira: escrever uma carta apaixonada para um artista muito querido, um escritor ou um compositor, um ator ou atriz, um poeta ou poetisa (outras ideias: criar um desenho ou uma pintura ouvindo música; fotografar coisas diferentes das quais normalmente se fotografa, experimentando novos objetos e ângulos; imaginar uma história e escrevê-la ou desenhá-la).

Aproveito ainda para compartilhar a minha própria carta, elaborada no final de 2017, para Franz Kafka.


"Caríssimo Kafka

Suas obras há muito me inspiram. Mesmo tendo-as contemplado na tradução para o português, creio que a universalidade e a contemporaneidade de sua escrita me cativaram, a tal ponto de não prejudicar a compreensão do sentido das suas palavras.

As palavras, posso afirmar, constituíram-me quem sou. Na ausência delas não posso imaginar quem seria. Desde muito pequena aprendi a amá-las e assim fui me tornando um ser humano. Aprendi a pronunciá-las, depois a desenhá-las e borrá-las com papel e tinta, graça e prazer. Por isso cada livro que tive acesso propiciou-me um gosto particular, um deleite especial.

Mas foi com você, caríssimo Kafka, que descobri a eternidade e a completude. Não encontrei nenhum outro escritor com tantas qualidades como as suas. Agradeço humildemente cada frase de sua obra O Processo, embora todos os contos e romances que você escreveu também habitam minha alma. O que seria da humanidade se o seu grande amigo Max Brod tivesse realmente queimado os papéis que você determinou? Seria muita tirania de sua parte privar a nós - meros mortais, cidadãos comuns de um mundo em declínio vertiginoso - de seus delírios fulgurantes, terríveis e aparentemente surreais.

Sei que o grande tirano de sua vida foi seu próprio pai. A carta que a ele você escreveu é de rara beleza, grande aflição, sofrimento e comoção. Pena ele não ter lido, triste você ter morrido tão jovem com muito ressentimento e sem reencontrá-lo. Será que você não iria apreciar saber que esta carta e muitos outros livros, frutos da imaginação e da vivência que você teve, continuam a ser lidos, traduzidos e adaptados para o teatro e o cinema em pleno século XXI? Muitos dos seus aficionados leitores se perguntam se de fato você desejou a morte dos próprios textos que escreveu.

De minha parte, isso seria uma injustiça. Nossas vidas são tão pobres, sem a arte e a literatura seriam ainda mais! Se você tivesse conseguido nos privar do Processo, do Castelo, do Artista da Fome, da Metamorfose, da Colônia Penal e até dos seus diários, confesso que minha forma de sentir e ver o mundo seria mais infeliz.

Sim, porque foi você o gênio capaz de escrever, de configurar e de revelar magistralmente, magnificamente o que é o homem moderno trágico e contemporâneo. Sua vida, com certeza, foi a tragédia do Processo, a dor da Carta ao Pai, o desespero da Metamorfose e o desamparo e morte do Artista da Fome. Todavia você teve a honra, a dádiva e o talento - não sei nomear o que é - de transformar a própria história em arte, em beleza arrebatadora que emociona quem se deixa tocar.
Sinto-me privilegiada por ter partilhado desta experiência estética com outras pessoas, por ter tido a possibilidade de imaginar os personagens que você imaginou para si mesmo e para todos nós, as narrativas um tanto quanto estranhas de seres esquisitos, culpados, fracassados, perseguidos, que buscam a vida e acabam por sucumbir à morte.

Todas as suas narrativas são absolutamente comoventes, ao nos apresentar a fragilidade humana frente ao mundo desumano, claustrofóbico, aparelhado por instituições que nos destituem de humanidade, de força, de esperança e de poder. É impressionante sua descrição acerca da burocracia, dos prédios e das autoridades pelas quais seu alter ego Joseph K é massacrado, atormentado e incriminado, sem nunca saber o motivo. Trata-se de um homem culpado sem ter cometido crime algum, acossado por um sistema absurdo, injusto.

Meu encantamento por você se deve principalmente por esse clima ilógico imposto aos seus protagonistas, que à primeira vista nos parece irreal, mas com o tempo compreendemos que tal ficção é a realidade de nossas vidas cotidianas. Todos somos Joseph K, somos povoados pela culpa dos juízes que nos julgam cotidianamente. E esses juízes não estão apenas dentro de nós, não são somente representações internas, eles existem, são substância e matéria. 

Se você tivesse vivo ainda hoje, testemunharia a contemporaneidade de sua obra, a vitalidade de suas histórias e a tragédia inesgotável do ser humano. Você perceberia que seus romances foram criações de extrema lucidez, prováveis exercícios de sanidade mental. A vida é absurda e para sobreviver a ela com gana e resistência, resta-nos a arte, a literatura, a poesia, o teatro e algum sonho belo, lírico, doce e terrível ao mesmo tempo."

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Saúde Mental: uma reflexão necessária

Terminamos 2017 e iniciamos 2018 com muitos temas sendo debatidos nacionalmente. Um destes temas, de extrema importância, é o da saúde mental.
A primeira questão diz respeito às mudanças que o Ministério da Saúde e o Governo Federal estão impondo à sociedade brasileira, caracterizando amplo retrocesso na área, frente às conquistas que foram realizadas desde o início dos anos 2000, quando ocorreu a Reforma Psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica teve o grande mérito de modificar a visão sobre o doente mental e, a partir disso, privilegiar o tratamento anti-manicomial, investindo em ambulatórios de saúde mental que promovem a integração do sujeito na sociedade, com atividades e medicação apropriadas. A internação é o último recurso a ser utilizado, posto que favorece a segregação e o isolamento.
Este modelo de atendimento em saúde mental tornou-se referência mundial, é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e tem sido exportado para outros países. Por questões políticas, neste momento tal modelo encontra-se ameaçado e nós corremos o risco de retroceder décadas ou séculos na história, infelizmente.

O posicionamento do Conselho Federal de Psicologia pode ser visto através do link:


Com o intuito de ampliar a discussão sobre o assunto, gostaria de lembrar e recomendar a visita à Ocupação Nise da Silveira, que permanece até o dia 28/01 no Itaú Cultural de São Paulo. 
Nise da Silveira foi uma distinta e magnífica psiquiatra, investigadora da alma, precursora da abordagem junguiana no Brasil. Destacou-se no século XX pelo fato de ser mulher em ambiente masculino, como mostra a foto abaixo, registrando sua formatura em medicina no ano de 1926.


Felizmente o trabalho dela vem sendo cada vez mais reconhecido. Sua vasta obra orienta profissionais da saúde mental no caminho da liberdade e da arte, com a finalidade de cuidar dos pacientes que demandam atenção especializada, sem discriminá-los. Nise se insurgiu contra os absurdos da internação psiquiátrica e criou um método de atendimento focado no afeto, na expressão artística plástica e no contato com os animais.
Creio que se esta grande e admirável pessoa, mulher e profissional estivesse viva, teria a oportunidade, mais uma vez, de se rebelar contra retrocessos absurdos que estão ocorrendo no Brasil. Lutemos como ela lutou, criemos como ela criou!

Site da Ocupação:

Fotos da exposição, apresentando obras de arte dos pacientes de Nise da Silveira:




Para encerrar o texto, divulgo a belíssima Campanha Janeiro Branco, que estimula todos a refletirem sobre a própria saúde mental e priorizarem a qualidade das relações humanas, da afetividade e da alteridade. Vale a pena conhecer o site da Campanha:



sábado, 30 de dezembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Aos que estão nascendo, sejam bem-vindos!

Desejar Feliz Natal e um Novo Ano de Paz é tarefa árdua se optarmos pela sinceridade e pela honestidade. Não pela falta de desejo, mas pelo vazio do significado.

Ao terminar um ano tão difícil e doloroso como 2017, faltam-nos palavras e energias para expressar nossa fé no futuro. Estou errada?

Proponho-me então esse enorme desafio, que implica em dar uma chance a mim mesma e aos outros seres humanos, próximos e distantes, de viver numa sociedade mais solidária, compreensiva e acolhedora, já que somente nesta é que será possível realizar-se algo que temos denominado felicidade. Sim, parto desse pressuposto, de que a paz e a felicidade não são "estados de espírito" apenas individuais, são "modos de ser" coletivos.

Com esse propósito, escrevo uma pequena carta aos que nascerão em 2018, incluindo especialmente meu sobrinho ou sobrinha que se encontra a caminho.



Para você que está chegando
Não se espante: seja bem-vindo!

Por aqui há misérias de toda ordem,
Mas há também amor, coragem e perseverança.

Há cores de matizes infinitas
E pessoas de todos os jeitos, formas e expressões.

Há belíssimas árvores com flores magníficas
E fascinantes obras de arte criadas pelos humanos.

Tenho certeza, você vai se encantar!

Há tanta beleza para ser apreciada e descoberta,
Que nós, habitantes deste planeta água e terra, 
Muitas vezes nos esquecemos.


Precisamos de novos seres para nos lembrar que existimos!

Existir é cuidar, é estar presente no mundo em relação com o outro,
É acolher, escutar e dialogar.

Existir é criar, inventar o que for preciso
E desistir daquilo que não serve mais.

Tenho absoluta convicção,
A sua presença em nosso mundo é um ato de resistência:
resistência ao ódio desmedido, resistência ao fracasso humanitário.

Não quero cultivar expectativas sem limites,
Mas não posso deixar de comemorar sua vinda e sua vida.

Estarei aguardando, com carinho e alegria.


 Para Letícia e Guilherme.