quinta-feira, 5 de julho de 2018

A negação do homem trágico: extinção da espécie humana



Infelizmente a visão do homem como um ser trágico, proclamada pelos gregos, por Shakespeare, Nelson Rodrigues e tantos outros escritores, filósofos e artistas, não tem sido objeto de apreciação, de interesse e compreensão pela nossa cultura dominante. Esta visão foi se modificando ao longo dos séculos, assinalando diferenças extremamente importantes. Se nos gregos a tragédia relacionava-se aos desígnios dos deuses, em Nietzsche, um dos maiores e mais influentes pensadores do início do século XX, a tragédia é justamente o oposto, qual seja o fato do ser humano descobrir-se absolutamente órfão das divindades, sendo obrigado a lidar com o que ele anunciou justamente como a morte de Deus.

Em função da primeira e da segunda guerra mundiais, muitos foram os filósofos a declarar a morte do homem, fruto do extermínio de povos que, em última instância, poderia levar à destruição de todos os habitantes do planeta, o que por sorte não ocorreu, mas segue em curso. A extinção da espécie humana, no momento presente, é uma possibilidade constatada por inúmeros cientistas devido ao esgotamento das condições de manutenção da vida na Terra. De forma suicida, temos optado pelo aquecimento global, pela poluição de todos os meios saudáveis de existência e pelas armas de destruição em massa. Como será que chegamos a esta tão ampla tragédia?      
   
Sem pretender simplificar problemas tão complexos, arrisco a hipótese de que o capitalismo e, nas últimas décadas, o neoliberalismo, aliado à produção de tecnologias que buscam construir uma espécie de universo pós-humano, propiciaram a invenção do "homem não trágico", um ser inatingível pelos deuses e pela reatividade da natureza, um ser cuja finitude parece não existir.

Em uma de suas aulas, transformadas em livros maravilhosos, Michel Foucault, filósofo francês da segunda metade do século XX, estudioso da cultura grega, conta-nos como os gregos pensavam e se preparavam para a morte. Havia uma formação e educação para morrer, baseada em exercícios mentais e cotidianos que levavam em conta a finitude humana, algo absolutamente distante da nossa prática e do nosso pensamento. 


O sistema sócio cultural econômico atual impede que nos lembremos do nosso próprio fim, da nossa morte, esta sim a condição inexorável a determinar que somos trágicos. Se há algum deus inquestionável, este é tão somente a morte, circunstância trágica dos animais racionais e irracionais presentes no planeta Terra. Negá-la, seja na dimensão individual, coletiva ou planetária, implica uma tragédia ainda maior: não por acaso, esta que hoje vivemos. 

Talvez a nossa sobrevivência enquanto espécie humana no planeta esteja a depender, neste instante, de nos compreendermos como seres trágicos, mais uma vez. Seres finitos e necessariamente vinculados uns aos outros, bem como à terra, à água e ao sol.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Combate à homofobia: uma luta por novos conceitos

    


       Uma nova concepção sobre sexualidade e identidade de gênero vem se afirmando desde a segunda metade do século XX, provocando importantes revisões conceituais no campo da saúde e da educação.  A partir dos anos 70, mais especificamente, entidades como Organização Mundial da Saúde - OMS, Associação Americana de Psiquiatria – APA (responsável pela edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM ), Conselho Federal de Medicina e Conselho Federal de Psicologia brasileiros, pressionados por movimentos sociais de direitos humanos foram despatologizando a homossexualidade.

          Em 1973 a homossexualidade, que na ocasião era chamada de homossexualismo (o sufixo ismo indica doença), deixou de ser considerada uma patologia pela Associação Americana de Psiquiatria e foi excluída do DSM. A OMS, em 1990, fez o mesmo. O Conselho Federal de Medicina, já em 1985, também estabeleceu que a homossexualidade e a bissexualidade não são doenças, diferentemente da transexualidade, que até o presente momento ainda é considerada, por quase todas as instituições mundiais, um transtorno de identidade, denominado disforia ou incongruência de gênero. Neste último mês de junho/2018, no entanto, a OMS publicou oficialmente a decisão de retirar a transexualidade da lista de transtornos mentais do Manual Internacional de Classificação de Doenças (CID-11), reclassificando-a como uma “condição relativa à saúde sexual”.

Foi neste contexto que o termo orientação sexual do indivíduo começou a ser utilizado, substituindo a ideia de opção por condição da sexualidade. Isto significa que a escolha do objeto de desejo sexual não é uma opção, é uma condição do ser humano, constituída por muitos fatores. Um marco considerável desta discussão foi a Resolução 01/99 do CFP – Conselho Federal de Psicologia, que estabeleceu normas de atuação para os psicólogos em relação à orientação sexual, no sentido de questionar a heteronormatividade e despatologizar a homossexualidade, deixando de considerá-la como doença ou perversão. 

  Em sua função ética, o CFP criou diretrizes para o atendimento psicológico dos indivíduos homossexuais, visando protegê-los do preconceito e da discriminação social. Fundamentado cientificamente, o Conselho proibiu as chamadas terapias de reversão da sexualidade (conhecidas como cura gay), ajuizando-as como manifestação religiosa cuja intervenção promove ainda mais o sofrimento, ao invés de tratá-lo. A normativa do CFP impõe aos psicólogos que a homossexualidade não pode ser abordada como uma doença, portanto não deve ser combatida, mas muito pelo contrário, necessita ser problematizada do ponto de vista do preconceito da sociedade, não da “escolha” do indivíduo. Abordar a orientação sexual de uma pessoa como um problema individual, não equacionando a discriminação social, contribui para ampliar o sofrimento, a violência e o índice de suicídio destes sujeitos.

            “A homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica” - eis a definição da OMS. Compreende-se, assim, que há uma diversidade de sexualidades e orientação sexual, sendo a homossexualidade apenas uma das possibilidades de expressão da sexualidade humana e de constituição do sujeito, não uma doença. A alternativa proposta a toda a sociedade, em todos os âmbitos e instituições, família, escola, ambientes públicos e privados, setores empresariais, educacionais e de saúde, é o da aceitação, buscando a desconstrução do preconceito e situando os sujeitos LGBTs como sujeitos de direitos, tanto quanto os outros cidadãos.

            Tal perspectiva inclui diversos grupos LGBTs, como os transexuais, por exemplo. Embora, conforme citado, a transexualidade seja ainda classificada enquanto transtorno mental, cresce a tendência à despatologização, tendo em vista a visibilidade e amplitude que as discussões sobre gênero e feminismo vêm alcançando na sociedade, especialmente desde o início do século XXI. É importante salientar que as cirurgias de redesignação sexual no Brasil foram regulamentadas nos anos 90 e para se submeter a elas exige-se uma série de procedimentos institucionais no âmbito médico, psiquiátrico e psicológico. Muitos indivíduos transexuais preferem não realizar a cirurgia, seja pela dificuldade que o sistema de saúde impõe, seja por uma opção pessoal.

            Com o intuito de tentar dar conta desse movimento incessante de criação de novas identidades e práticas na sexualidade e no gênero, diversas siglas foram criadas.  Há diferentes interpretações, dependendo do repertório teórico conceitual – sociologia e filosofia, psicologia e sexologia, psiquiatria. De maneira geral, partindo dos estudos de educação sexual mais recentes e progressistas, o termo transgênero seria o mais adequado para ser utilizado como uma espécie de guarda-chuva que abarca transexuais, travestis, não binários, crossdressers e drag queens. A chave de leitura localiza-se no prefixo trans, que preconiza a noção de transformação: transitar entre os gêneros, entre as identidades, as orientações e os desejos sexuais, os objetos de escolha e as formas de existir. 

       Pelo menos uma parcela das novas e velhas gerações (destaque para Laerte, cartunista reconhecida) encontra-se em trânsito, vivenciando identidades fluidas, com ou sem artifícios, terapias hormonais, cirurgias estéticas e de redesignação sexual.


       

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Foucault: para uma vida não-fascista, por Margareth Rago



Margareth Rago é historiadora e professora doutora universitária (Unicamp), pesquisadora da obra do filósofo Michel Foucault e autora de diversos livros. Nesta brilhante palestra, Margareth Rago apresenta alguns dos principais conceitos de Foucault, reforçando a contribuição do filósofo para a contemporaneidade.

Aos interessados no assunto, vale a pena assistir o vídeo.

Complementando, o texto Para entender Foucault, da Carta Educação, é também bastante didático. Por Marcos César Alvarez e Eduardo A. Camargo Santos.

http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/para-entender-foucault/

domingo, 27 de maio de 2018

Experimento de Milgram, banalidade do mal e consciência




Experimenter ou O Experimento de Milgram (2015), filme dirigido por Michael Almereyda, apresenta aos espectadores a biografia de um importante psicólogo e pesquisador norte americano. No Netflix é possível encontrar o título.

A película é rara, muito bem construída, com ótimas interpretações. Enfoca especialmente os polêmicos experimentos realizados por Stanley Milgram nos anos 60 e 70, na Universidade Yale dos EUA.

Milgram era judeu e se interessava em responder a seguinte pergunta: por que obedecemos ordens superiores mesmo sabendo que estamos fazendo algo errado? O genocídio judeu e muitos outros só foram possíveis na medida em que pessoas comuns se submeteram às ordens de líderes nazifascistas, estimulando e impondo a matança generalizada. Como ocorre esse processo de obediência a uma determinada autoridade? Este o tema, ainda atual, de Milgram.

Para realizar o experimento diretamente com as pessoas, em laboratório de psicologia social, o pesquisador selecionava voluntários dispostos a ocupar papéis distintos durante o teste, um como professor e outro como aluno, sendo que cada um ficava em uma sala separadamente, sem se ver. O professor era obrigado a dar um choque de baixa frequência no aluno, quando este errava a questão que estava sendo avaliada. A intensidade do choque ia aumentando, provocando grande incômodo na maioria dos voluntários que ocupavam o papel de professor. Apesar disso, eles não interrompiam a punição que imaginavam estar aplicando aos alunos, com raríssimas exceções.

Sem informar os detalhes acerca do filme - para que não haja spoiler -, importa refletir sobre os resultados da investigação, realizada inicialmente nos EUA e depois ampliada para países da Europa. Em todos os lugares, o comportamento dos voluntários que tinham como função aplicar uma punição aos supostos alunos, cujo sofrimento com os choques eram evidenciados, foi o mesmo: manter o regulamento acordado com o pesquisador, presente na sala do experimento e em posição de autoridade máxima. Isso significa que, embora constatasse o sofrimento humano do outro e sentisse aflição, quase todos os examinandos deram continuidade a aplicação dos choques.

Criticado por muitos de seus colegas acadêmicos, Milgram acabou se notabilizando com a publicação de seu livro Obediência à Autoridade: uma visão experimental, já traduzido para o português. Além de questões éticas sobre suas pesquisas, Milgram gerou perplexidade nos psicólogos e psiquiatras da época porque estes não esperavam as reações notificadas, ou seja, presumiam erroneamente que quando uma pessoa é instada por uma autoridade a fazer algo que causa dor ao outro, haveria desistência do ato, o que não se revelou verossímil na pesquisa.

É impossível não dialogar com a tese da banalidade do mal, de Hannah Arendt. Segundo seus argumentos no livro Eichmann em Jerusalém, a prática de atos violentos pode ocorrer a qualquer um de nós, sem que sejamos monstros psicopatas. Tais atos estariam relacionados com a dificuldade de distinguir o que é certo e o que é errado nas situações vivenciadas, levando-se em conta quais são as regras do momento. Eichmann, o motorista que levava os judeus para a morte, ao ser julgado pelo Tribunal de Jerusalém, afirmou que "apenas cumpria ordens", mesmo sabendo que o que estava fazendo era matar, sob o comando de Hitler e outros generais nazistas. Vale a pena ver o filme Hannah Arendt (2013) e ler o seu relato sobre o julgamento de Eichmann, no livro mencionado.



Sabemos que o drama da obediência à uma disciplina ou a leis de Estado perversas, genocidas, totalitárias e mantenedoras de sofrimento segue nos dias de hoje. Em nosso cotidiano provavelmente poderíamos elencar diversas cenas a esse respeito. Quantas seriam as circunstâncias em que percebemos estar fazendo algo doloroso para alguém e mesmo assim continuamos, em nome de alguma coisa que nem sempre sabemos... Pode ser o abstrato e controverso "bem", pode ser o "progresso da humanidade", pode ser Deus, pode ser a proteção e a segurança, pode ser a "moralização do mundo", pode ser simplesmente cumprir com regras ou demandas que parecem justas, pode ser tudo isso.

Stanley Milgram e Hannah Arendt acreditavam que havia uma saída: chamaram-na consciência e responsabilidade.






sábado, 5 de maio de 2018

Arte, Reflexão e Encontro: considerações importantes

Bate-Papo entre José Miguel Wisnik e Siba
A Paixão na Arte Vanguardista - SESC Piracicaba/Maio 2018



Em tempos desalentadores como o nosso, compartilhar espaços poéticos e reflexivos possibilitam, de algum modo, certo sinal de vida, como se encontrássemos pequenas faíscas de encantamento que têm o poder de inventar, recriar e grassar uma emoção mais genuína entre todos aqueles que almejam respirar ares menos nefastos. Foi assim o diálogo entre estes dois poetas artistas brasileiros: música, poesia e sabedoria se intercalaram durante quase duas horas, com o seleto público presente.

Para abordar a arte, foi necessário proclamar a vida, sublinhando a existência de cada um de nós com a pergunta essencial, insinuada nas entrelinhas: por que estamos aqui, para que vivemos? Magistralmente, tanto Wisnik como Siba nos indicaram as pegadas de seus caminhos, com testemunhos de percalços e estranhamentos. Assim quem sabe pudéssemos, como anônimos mortais de um planeta tão esquisito, entender qualquer que fosse a substância desse mundo, caótico e irracional. Uma destas substâncias, sem dúvida, é a paixão.

Será que todos os humanos presentes nesse encontro são nutridos pela paixão? Uma das minhas convidadas, também artista, confidenciou-me logo depois que não poderia ter estado em outro local naquele dia, que se sentia plena por estar ali, agradecendo-me a lembrança do convite. Ambas partilhamos a mesma paixão, essa intensidade que apenas a arte oferece à existência.

No silêncio que nunca é silêncio ou quase é silêncio, Wisnik, lembrando Arnaldo Antunes, nos apresentou um pouco do seu repertório sobre a história musical do Ocidente. Haveria algum lugar ou algum corpo terrestre totalmente silencioso? Não, não haveria, impossível! Somos música, compreendi. Mas infelizmente, penso, estamos produzindo sons demasiados, ruídos estridentes e gritos pavorosos por todo o globo, selecionando aqueles que queremos ouvir e aqueles que fingimos nem saber. Falta-nos ética e compaixão.

Do outro lado do palco, Siba fez questão de registrar a alegria da música de Pernambuco, criada obstinadamente por um povo sofrido e abandonado que é o povo pobre deste nosso país. A resistência habita a arte, se desejarmos. Aquela resistência que impede o indivíduo de se matar e o agrupa com outros para construir uma biografia que valha a pena. Quantas pessoas não são massacradas diariamente na luta por uma sobrevivência ingrata e por vezes indigna?

Tanto o maracatu quanto o frevo e outros estilos musicais do Brasil são expressões culturais populares extremamente ricas, que dialogam, a bem da verdade, com a tradição. Por que temos que insistir no pensamento binário? Cultura popular x cultura erudita, vanguarda x tradição, progresso x atraso, bem x mal, amor x ódio, e claro, esquerda x direita, a grande e velha controvérsia recente!

Os artistas reiteram o mesmo posicionamento, de que entre um polo e outro há tensão, há trânsito e interpenetração criativa de práticas, linguagens, conceitos e afetos. Alguém poderia afirmar-se como um ser bom, puro, em detrimento de seu próprio lado mal? O que fazer com nossos pequenos fascismos diários, nossas micro relações perversas cultivadas mesmo sem perceber? E quanto ao papel político da arte, podemos pensar que ela contribui com a criação de “modos de vida não fascistas”? Siba e Wisnik parecem entender que sim, bem como o filósofo francês do século XX, Michel Foucault.

Fomos ensinados a raciocinar a partir de uma lógica linear, excludente e maniqueísta, que não mais se sustenta. A concepção de progresso e, junto a ela, de vanguarda e evolução humana ruiu, desmoronou, esfacelou-se. Encontramo-nos neste início de século desamparadíssimos, obrigados a olharmo-nos num espelho sem reflexo, numa imagem sem contorno, num céu sem promessas. Nietzsche já anunciou a morte de Deus faz mais de cem anos, mas talvez somente agora é que estejamos compreendendo o significado desta sentença. Cabe a cada um e a todos coletivamente, cabe à arte, à ciência e à filosofia confrontar-se com o destino que a História nos reservou.

Um brinde à criação e à possibilidade de reivenção contínua.



De Caetano Veloso, os versos de Cajuína:

            Existirmos a que será que se destina
            Pois quando tu me deste a rosa pequenina
            Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
            De um menino infeliz não se nos ilumina
           
            Tão pouco turva-se a lágrima nordestina
            E apenas a matéria vida era tão fina
            E éramos olharmo-nos intacta retina
            Da cajuína cristalina em Teresina.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Diálogo e Escuta



No canal do Youtube Casa do Saber, muitos são os vídeos interessantes a serem explorados.
Escolhi Como Aprender a Escutar o Outro, pelo psicanalista Christian Dunker.

O tema da escuta é muito relevante atualmente, devido à forma de vida egocêntrica que temos experimentado. É preciso ter coragem para criar novos recursos que promovam o questionamento deste padrão nada saudável de relações humanas, no qual não há espaço para o diálogo.

Fica a dica!


Link do canal:
https://www.youtube.com/channel/UCtvvTFp0XANyllOdmzZr9VQ

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Seminário de Direitos Humanos - Psicologia e Democracia


A Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia promoverá, em Brasília, nos dias 27 e 28 de abril, o VIII Seminário Nacional de Direitos Humanos - Psicologia e Democracia: nenhum direito a menos. A programação já está fechada e as inscrições foram encerradas, mas o evento será transmitido ao vivo pelo site do CFP.

"As mesas de debate vão contemplar diferentes temas, como a guerra contra e entre os pobres, corpos em disputa, produção histórica de violação de direitos de mulheres, LGBTs e negros e negras, cidades e campos possíveis e o papel da mídia."


A importância de divulgar e acompanhar este Seminário reside no fato de estarmos vivendo um período histórico de grande retrocesso global, no que diz respeito às conquistas realizadas pela humanidade após a Segunda Guerra Mundial.
As atrocidades do nazismo proporcionaram o surgimento de novas instituições   - como a ONU -, cujo objetivo foi propor e desenvolver acordos internacionais, que promulgassem e garantissem os direitos da população, levando em conta a premissa da dignidade de todo ser humano que habita o planeta Terra. Foi assim, então, que surgiu a chamada Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948.




Ocorre, no entanto, que a história não é contínua e infelizmente, no momento atual, algumas instituições, governos e parte da população vem se mobilizando no sentido contrário a um dos fundamentos da civilização do século XX, ou seja, à concepção básica de seres humanos como sujeitos de direitos. Tal concepção faz parte do que chamamos Democracia.
É assim que testemunhamos, com muita indignação e tristeza, o ressurgimento de grupos nazistas e fascistas por todo o Ocidente, especialmente aqui no Brasil, onde o ódio pela política e seus signatários vem alcançando proporções muito preocupantes.

O que a Psicologia e os psicólogos têm a ver com isso tudo?
No final da década de 90 foi criada a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia brasileiro, sob pressão dos movimentos sociais. O propósito da Comissão sempre foi discutir, acolher, promover e orientar os psicólogos, bem como a população em geral, sobre os direitos que devem ser garantidos aos cidadãos, especialmente aos que sofrem violações pelo Estado e pela sociedade.
Os princípios da Declaração dos Direitos Humanos são universais, portanto valem para todos os habitantes dos países que assinaram a Declaração. Contudo, é fato que grupos LGBTs e de mulheres, grupos negros e brancos das periferias, grupos de pessoas refugiadas ou imigrantes pobres, grupos de moradores de rua, de doentes mentais e de encarcerados, encontram-se, ainda hoje, mais vulneráveis ao sofrimento que a violência e a negação de direitos básicos ocasionam. Por este motivo, não apenas a Comissão de Direitos Humanos do CFP como a temática dos direitos humanos ficou associada apenas a estes grupos, propiciando grande confusão no debate. Os tais direitos humanos são uma prerrogativa de todo ser humano vivente, ou pelo menos deveria ser.

Um psicólogo que honra a ética profissional não pode, em hipótese alguma, cuidar das pessoas sem considerá-las como sujeito de direito, esteja onde estiver. 
Psicólogos atuam em clínicas, em hospitais, em penitenciárias, em escolas, em zonas de guerra, em periferias, em instituições voluntárias, em áreas de desastres. Atuam com pobres, com ricos, com brancos, orientais, negros e indígenas. Atuam com crianças, jovens, adultos e velhos. Atuam com heterossexuais, homossexuais, transexuais, bissexuais, assexuais. Atuam com católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas, agnósticos e ateus. 
Seria possível atender e acolher o sofrimento destes sujeitos sem respeito à sua história, sem reconhecimento de seus direitos, muitas vezes negados e violados?
Para um profissional sério e ético, não seria. E quem regula e normatiza esse código de conduta é o próprio Conselho de Psicologia, buscando assegurar uma prática humana que se consolide digna e decente. 

Evidentemente não se trata de afirmar que não há limites para a atuação do psicólogo ou que não há preconceitos por parte deste. Mas é necessário, com frequência, retomar a ética e o cuidado de si - consoante o filósofo Michel Foucault - para se constituir em um ser humano que contribui na construção de uma sociedade íntegra e justa.