sábado, 19 de agosto de 2017

Holocausto Brasileiro: um documentário



Holocausto Brasileiro não é um documentário fácil de assistir. Muito pelo contrário, trata-se de uma película de difícil digestão, pois aborda a temática dos manicômios, nos quais as pessoas consideradas doentes mentais eram abandonadas, violentadas e assassinadas por maus tratos.

Baseado no livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro investiga e apresenta ao público o terror do Hospital Colônia em Barbacena, MG, uma realidade vivida por muitos outros hospitais de "saúde" mental.

A importância de assistir e divulgar esta obra prima documental reside na possibilidade de criarmos, cada vez mais, recursos críticos e políticos que nos permitam jamais retroceder à práticas bárbaras como essas no atendimento aos portadores de doenças mentais. A reforma psiquiátrica brasileira transformou o modelo de cuidados em saúde mental, mas muitos problemas continuam e outros vêm surgindo. 

Por isso, com a finalidade de manter viva a memória da barbárie para que ela não se repita, Holocausto Brasileiro merece apreciação.

sábado, 12 de agosto de 2017

Caríssimo pai



Sentindo a falta da sua presença, querido pai, fiquei a pensar se as palavras poderiam ter um caminho apaziguador dentro de mim, ainda que provisoriamente. Afinal, para que servem as palavras senão para isso, caríssimo pai?

As palavras do século XXI estão perdendo os sentidos, sabe, estão sendo abandonadas no limbo da história humana. Ninguém entende direito o que está a ocorrer neste mundo que nunca foi lúcido, mas que agora desandou a uma tal enfermidade sem nome. Faltam palavras para nomear quais são os sintomas que nós, habitantes do planeta Terra, estamos produzindo. Nem os psiquiatras dão conta do remédio!

Mesmo assim, mesmo com o nazismo renascendo e o ódio se encarnando novamente nas relações entre as pessoas e entre as nações, eu sei que você preferiria estar vivo, junto a nós, enfrentando a doença da humanidade – não é mesmo, pai?! Sim, porque a sua vitalidade sempre foi algo contagiante!

A morte não lhe seduzia, já a vida... sempre eterna no pensamento e no coração! Devagar, porém não tanto assim, a morte foi anunciando seu sequestro, sua partida mais do que dolorida há quase dez anos.

E nesse tempo que as vezes parece não termos percorrido sem você, as lembranças perseveram e se confortam em minha memória. Imagens de infância, receios de adolescente, sorrisos ternos, olhares meigos ou severos, doces frases inesquecíveis, valores como honestidade, sentimentos de tristeza e alegria.

Não há como esquecer muitos dos minutos compartilhados, do entusiasmo nas conquistas, das dores suportadas e, principalmente, da afetividade no olhar... com aquelas lágrimas à espreita, de todo modo sutilmente reveladas, conclamadas à existência. Eu realmente tenho muito a lhe agradecer, estimado pai, porque tamanha afetividade me fez gente, me fez existir e ser quem sou. É a você, em primeira instância, a quem atribuo um certo lugar nesse universo, um elo com a vida que a transforma em fonte de amor e riqueza.

Por isso tudo, admirado pai, não posso imaginar que você apoiaria qualquer uma dessas manifestações fascistas que hoje empolgam parte da sociedade em franca involução. Lamento sua ausência, por ela choro. Orgulho-me, ao mesmo tempo, em saber que se você estivesse aqui, estaria tecendo diálogos e conciliações.  

Todo meu afeto, minha consideração e dignidade, é a ti que concedo. Obrigada.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

FLIP: uma experiência

A 15ᵃ Edição da Festa Literária Internacional de Paraty ocorreu de 26 a 30 de julho deste ano, 2017. Mesmo com dificuldades financeiras, os amantes da literatura, estudantes e profissionais de ciências humanas e artes, os turistas, os autores e escritores puderam se enriquecer culturalmente e afetivamente neste magnífico Encontro.

O autor homenageado desta FLIP foi Lima Barreto (1881-1922), assinalando o tema do racismo, presente em nossa sociedade desde sempre. Como escritor e jornalista negro do fim do século XIX, Lima Barreto sofreu muitos preconceitos, tornou-se alcoólatra e foi internado em hospícios, morrendo com apenas 41 anos. Suas obras mais conhecidas são O Triste Fim de Policarpo Quaresma e O Homem Que Sabia Javanês.



A questão do racismo foi abordada e debatida apropriadamente em diversas Mesas do Evento. Uma das mais interessantes contou com a presença do ator e apresentador Lázaro Ramos, possivelmente a maior estrela da FLIP.

Lázaro lançou o livro Na Minha Pele, autobiográfico, narrando parte de sua história de vida e abordando temas importantes da contemporaneidade, como diversidade, preconceito racial, empoderamento, redes sociais e empatia.


Muitos foram os escritores e escritoras, inclusive, a apresentar obras de cunho assumidamente autobiográficas, mesmo que em forma de ficção. O livro A Resistência, de Julián Fuks, é um exemplo. Belo e lírico, o texto de Fuks nos coloca em contato com sua família durante a ditadura militar argentina, especialmente com seu irmão adotivo. Fuks compartilhou com o público da FLIP e com seus leitores (nos quais eu me incluo) que escrever sobre o irmão era uma necessidade emocional que sentia, para poder lidar com sua própria angústia. Nem por isso A Resistência deixou de ser um livro de ficção primoroso.















Relatos tocantes envolvendo genocídios também foram objeto de discussão na grande festa da literatura de 2017. Gostaria de destacar a Mesa Em Nome da Mãe, na qual Scholastique Mukasonga dividiu o palco com Noemi Jaffe, ambas filhas de mães que sofreram genocídios.

Scholastique é a única sobrevivente, em sua família, do genocídio de Ruanda ocorrido em 1994. Seu livro A Mulher de Pés Descalços é uma triste homenagem à sua mãe. 

"É da necessidade de realizar o rito do sepultamento e de conferir um rosto àqueles que ficarão eternamente associados a simples dados estatísticos na História oficial que nasce o romance A Mulher de Pés Descalços, relato biográfico daquela que está na origem da própria voz autoral: a mãe." 
Leonardo Tonus, sobre o livro de Scholastique.

Não há como ficar indiferente à dor desta mulher tão sofrida. Já O que os Cegos estão Sonhando? narra a história de Lili Jaffe, sobrevivente de Auschwitz - campo de concentração nazista - e mãe da autora do livro. 


Como se pode perceber, todas estas obras e muitas outras não citadas incluem experiências pessoais dos autores e autoras, levando em conta a memória e a urgência do testemunho, bem como propiciando a criação de uma literatura viva, pulsante e reveladora, que tem algo a dizer para o mundo, para nós leitores e para as gerações futuras.

Evidentemente esse foi um pequenino recorte, bastante seletivo, da minha própria experiência na FLIP. Outros momentos mais descontraídos poderiam ser lembrados, tal como a presença marcante de Pilar del Rio, jornalista que foi esposa de José Saramago, de Natália Borges Polesso, que escreveu o livro de contos Amora e Carol Rodrigues com a obra Sem Vista para o Mar, também um livro de contos peculiar.


Agora, no entanto, só resta aguardar que tenhamos todos uma outra Festa Literária em 2018. A ver!

sábado, 15 de julho de 2017

Literatura e escrita: um exercício de afetividade

Uma mãe precisa contar algo importante, deveras importante, à sua querida filhinha, mas sente um medo paralisante. Um marido necessita revelar certa história para sua atual esposa, sob pena de ocultar um segredo que futuramente poderá encerrar a relação.
Um adolescente deseja se matar porque imagina que, ao expor um fato abominável aos seus pais, será odiado e colocado para fora de casa. Uma mulher não suporta o peso do próprio passado, sofre calada frente ao companheiro, refletindo diariamente sobre qual seria a melhor maneira de dizer-lhe a verdade.
Alguém muito jovem começa a escrever um diário, à moda antiga, com papel e caneta. Nele ficará registrado uma versão de si mesmo. Os temores, as angústias, o vazio, as aflições talvez.
Eis que outro alguém resolve escrever uma carta para contar o indizível necessário, aquele segredo de pai, aquela lembrança torturante de esposa/amante, um ato terrível ou desleal de filho.
São esses, tampouco e somente, alguns fragmentos de histórias, de dores e fragilidades humanas.
  
Por vezes no entanto, nada de especial haveria para narrar ao outro, nenhum ato excepcional, nenhuma ocorrência em particular. Apenas sentimentos pouco amistosos, desejos incomunicáveis, palavras não pronunciadas no momento certo.  
Foi nessa lida que Kafka escreveu Carta ao Pai, uma obra literária e autobiográfica de valor inestimável, em que ele expressa todo seu sofrimento em relação à pessoa do pai. Opressão, terror, raiva, humilhação. Leitura obrigatória para quem trabalha com afetos, mesmo que não ame literatura.

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Em um tom absolutamente mais delicado, lírico e tocante, João Anzanello Carrascoza escreveu a Trilogia do Adeus, ou dos deuses, eu diria, porque tão belo e poético que solicita ser celebrado.
Três pequenos escritos desse autor brasileiro - Caderno de um Ausente, Menina escrevendo com o Pai e A Pele da Terra -, enriquecendo nosso repertório afetivo e imaginário.

No primeiro, um pai de 50 anos relata à sua filha, que acaba de nascer, toda a história do seu nascimento, sua genealogia familiar e, principalmente, de que matéria consiste a vida: de perdas, de desafetos, de poesia embaralhada a alguma alegria. "Eis que, embora viver seja coisa grande, é também a força que lhe contraria, e não há como vencê-la, senão aceitando que a dor desenha em nossa pele, com esmero, um itinerário de pequenos cortes, ora arde um, ora sangra outro, e, as vezes, todos, juntos, nos queimam, em uníssono."

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No segundo, a narradora é a filha, continuando a história anterior. A filha fala ao pai, apresentando-nos sua memória afetiva, doce e singela. É mais do que comovente acompanhar tal narrativa, as percepções e desejos da filha com este pai tão querido e importante.
Evidentemente, a esta altura do texto, já estamos inspirados a dizer ou escrever para os nossos também. O que eu não disse ao meu falecido pai? Ainda há tempo de dizer, escrever? Como eu contaria a nossa história?

No terceiro, volume final da trilogia, é o filho mais velho do pai em questão que se torna narrador, dialogando então com seu próprio filho em uma viagem encantadora.
E esta viagem, é claro, nós também a fazemos todos os dias, com grande dificuldade, vivendo as relações familiares que nos pertencem.
Será que poderíamos torná-las mais suaves e menos cruéis? O que não dizemos uns aos outros, o que nos recusamos a escutar?
Quem sabe possamos começar a escrever... e a ler os olhos do outro. Para aprender a sentir e partilhar o afeto que tanto nos faz falta.


Mais informações preciosas:

sábado, 8 de julho de 2017

Flores: inspiração da natureza

A cada ano, novas sementes brotam em nosso ninho, frutificando jardins e flores diferentes para que possamos aquecer os corações em dificuldade.
Não, não é uma floricultura, é uma clínica de saúde e psicologia.
Mas a beleza serve de inspiração para um trabalho que considera o ser humano em sua plenitude.
Confira!






domingo, 25 de junho de 2017

Fronteiras ArtePsicodramaFilosofia: ressonâncias

Conforme já divulgado aqui, o Evento Fronteiras ArtePsicodramaFilosofia ocorreu de 15 a 17 de Junho, em São José do Rio Preto/SP, através do Instituto Rio Pretense de Psicodrama, possibilitando vivências e reflexões importantes sobre a nossa relação com a sociedade e com o espaço urbano no qual circulamos cotidianamente.
O texto que segue foi lido na Abertura, escrito por um dos organizadores do Evento, DEVANIR MERENGUÉ, Psicólogo e Psicodramatista.






"Desde muito cedo aprendemos que existem corpos, substâncias. Que existe algo chamado eu e algo chamado outro, que existe a rua e o vizinho, bairros e cidades. Aprendemos a respeitar e a transgredir: as cercas, as paredes, a linha amarela, a linha vermelha. Parar e ultrapassar marcas fortes e marcas fracas, sinais para se levar a sério e outros nem tanto.
Aprendemos desde muito cedo que na rua acima as pessoas são “boas” e as da rua abaixo, gente “pouco selecionada”. Que certas coisas podem ser feitas em público e outras, não. Que existem regras visíveis e regras invisíveis. Enfim, que existem fronteiras por todo lado... E todas essas linhas, todas essas demarcações nos constituem como sujeitos, como sujeitados. 




Logo aprendemos também que existem conhecimentos que a mãe diz, que o pai diz, que a mãe diz que a avó disse, que a professora diz que o historiador disse citando uma fonte que disse que disse. Que existem disciplinas que disciplinam com nomes como Geografia, Matemática, História e que quem fala delas são pessoas diferentes que sabem coisas diferentes: geografia é diferente de matemática e que uma coisa nada tem a ver com a outra. As fronteiras são claras, marcadas por horários, agendas, livros bem distintos.

Nos descobrimos meninos ou meninas. E que as fronteiras são claríssimas: quando alguém migra com uma cor dissonante, cor errada, sapato errado, cabelo errado... logo será punido severamente. As fronteiras são muito evidentes e elas estão em todos os lugares do mundo. 



E ficamos sabendo, sem ainda saber, um universo simbólico de gestos adequados e gestos inadequados, de olhares, modos de usar o corpo que serão premiados ou punidos.
Logo começaremos a entender que os pensamentos e os sentimentos também poderão ser certos e errados. E que devemos escondê-los, punir a nós mesmos, driblar a culpa, produzir sintomas sofridos o suficiente para equilibrar a economia psíquica. Compreendemos que existe um fora e um dentro. E mais uma fronteira.
E virão as medalhas, os prêmios que produzirão as vaidades. Serão escolhidos entre todos, os melhores, os mais bonitos, os mais inteligentes, os mais capazes. E descobriremos os pódios, as tribunas, os púlpitos. Os ganhadores e os perdedores. Descobriremos também alguém que nem ao menos entram nos concursos, os que não servem para nada, os do fundo da sala, os insignificantes, os invisíveis. Descobriremos que existe o fim do mundo, lá onde não vemos nenhuma fronteira. 




E que jamais, mas jamais mesmo, devemos ser um deles, nem jamais devemos pisar lá, a não ser muito eventualmente como turistas. Depois das fronteiras existem as putas, os bandidos, os desclassificados, as bichas loucas... com quem não devemos nunca nos misturar.
Os lugares proibidos, os lugares sagrados, as zonas cinzentas, os pátios iluminados, o clube dos pretos e o clube dos brancos, a zona do meretrício, as margens, as marcações simbólicas para raças ditas superiores e as ditas inferiores.... Tudo com seu tempo e seu lugar e funcionando conforme as engrenagens, com as devidas manutenções para que nenhum parafuso solte...


Desenhar mapas, escrever tratados, produzir teorias do que é certo e errado para que toda a gente veja. E deixar ameaças veladas no ar para os transgressores, punir vez ou outra um metido à besta que desafie os poderes tão claramente estabelecidos. Por que é preciso dar exemplo e para isso os transgressores são bem-vindos. Para mostrar quem manda...
E para quem servem as fronteiras, os limites, os limiares, as balizas, as marcas, as margens?


Com toda certeza para controlar, identificar, organizar, separar, ordenar, nomear, mas também para sabermos que cerca podemos pular, qual o ponto do muro que apresenta falhas, onde está o furo...
A necessidade de controlar o imaginário humano, de transformar qualquer espaço de liberdade em experiências identificáveis e com o máximo de controle sempre foi possível. E aí estão partidos, fundamentalismos, seitas, teorias, ensinamentos que não me deixam mentir.... Não estão a serviço da libertação humana, mas de mais e mais controles. 




Que fiquem nomeados os continentes, as raças, as pobrezas, as doenças, as culturas. Que fiquem bem claro o bem e o mal, o certo e o errado, quem manda e quem obedece, quem pode e quem não pode. Que sejam levantados muros para separar e que novos tiranos sejam eleitos para assumir estas bandeiras. Não podemos esquecer que, de um modo ou de outro, os tiranos são aprovados, consentidos, desejados. Explicitamente ou não, conscientemente ou não, fazemos pactos, contratos com o autoritarismo.
E isto pode ser naturalizado. Como se a vida fosse isso, como se viver fosse apenas isso.
Mas existe o acaso, assim como a diferença, o vazio, o indeterminado, o imprevisto. Existem os tons não catalogados, o inominado, o inapreensível fora da ordem unida, fora das certezas e dos clichês. 
Entre as fronteiras, híbridos encontrados solitária ou solidariamente, pontos de vida intensa para além dos discursos.



Usando uma metáfora: tentar olhar o mundo com olhos de ave e ver que para além do dia e da noite podemos encontrar manchas de sol e de lua para se inventar a vida.
E quando formos pássaros perseguiremos o nascer e o pôr do sol, o nascer da lua e as brisas do sul, voaremos para além das fronteiras que serão vistas de cima e não terão tanta importância. 
E caminharemos sobre elas, orgulhosos da mestiçagem, porque poderemos estar de qualquer lado, nos vendo transformados em aves com penas de todas as cores."

www.devanirmerengue.com.br

domingo, 11 de junho de 2017

A luz do cinema: memória, emoção e história


Como criar imagens que, intercaladas na montagem, acrescidas de palavras e sons, proporcionam aos cinéfilos/telespectadores uma outra qualidade de emoção, que faz sentir e pensar ao mesmo tempo?
Como narrar poeticamente o sofrimento histórico de um povo sem perder a beleza, articulando-o, sobretudo, às questões fundamentais do ser humano que são: quem somos nós, de onde viemos, para onde vamos? 
Como abordar a importância da memória no tempo e no espaço, a relação da astronomia com a arqueologia, da arte com a ciência, do céu com a terra e o mar, mantendo o fio condutor de toda a trama universal que é o homem?
Como ser o passado, o presente e o futuro, ao mesmo tempo, em uma obra de arte que se realiza como potência tanto da barbárie quanto da esperança?
"Os que têm memória são capazes de viver neste frágil tempo presente. Os que não a têm, não vivem em nenhuma parte."

Patrício Guzmán é um diretor de cinema chileno, com vasta obra de documentários. Estes dois filmes que aqui apresento, Nostalgia da Luz (2010) e O Botão de Pérola (2015) foram premiados e são reconhecidos pelas particularidades estéticas e líricas na narrativa de fatos históricos. 
O objetivo de Guzmán, em todas as suas películas, é discorrer sobre a história do Chile, sobre a barbárie da ditadura de Pinochet e a necessidade de resgatar a memória acerca dos fatos, das mortes cruéis e da dor interminável. A forma com a qual ele realiza tal intento cinematograficamente é magnífica, pois além de bela, revela-se inteligente ao propor argumentações que vinculam memória individual e coletiva, tragédia social e pessoal, conhecimento científico e metafísico, barbárie e humanidade, origem do homem e contemporaneidade.
Não há como não se comover, embora o ritmo do filme possa ser considerado lento pelo público acostumado ao gênero de ação. Não há como se furtar à reflexão, mesmo em épocas empobrecidas como a nossa.
Para que estamos aqui vivendo? O que fazemos de nossas vidas? "Haverá passado o mesmo em outros planetas? A atitude do mais forte terá sido idêntica em todos os lados?" Para muitas perguntas, algumas respostas que nunca se concluem e, muito pelo contrário, geram novas perguntas.

Eis um belíssimo tratado de filosofia que nos indaga a respeito de quem somos e porque nos constituímos uma espécie tirânica, deixando-nos, no entanto e simultaneamente, a possibilidade de uma vereda, uma trilha para a redenção, qual seja a memória e a lembrança que, como recusa do esquecimento, podem nos salvar do abismo.