quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Distopia: o Conto da Aia e Nosso Futuro


Muito tem sido escrito sobre a série The Handmaid's Tale, baseada no romance O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Confesso que assisti apenas a primeira temporada e não li o livro. Fiquei encantada com a qualidade artística da obra, incluindo roteiro, interpretação, direção, fotografia, trilha sonora. Não sou fã de séries, mas The Handmaid's Tale me cativou, embora seja de difícil digestão.

A segunda temporada já foi contemplada por muitos fãs e telespectadores, porém eu não tive coragem de me aventurar ainda. Alguns afirmam que a série transformou-se numa espécie de "pornô de tortura misógina", posto que são muitas as cenas de flagelo para com as mulheres. Possivelmente o livro seja uma opção mais interessante, por isso integra a minha listinha interminável de leitura.




Refletir sobre esta obra é fundamental em um momento histórico como o nosso. No Conto da Aia, para quem não conhece, uma parte significativa dos EUA transformou-se em Gileade, sociedade governada por um Estado fundamentalista religioso totalitário, no qual parte das mulheres são escravas sexuais. A taxa de fertilidade encolheu demasiadamente e são pouquíssimas as mulheres férteis, estupradas por comandantes do país em rituais absurdos, com o objetivo de gerar filhos nas castas superiores. Trata-se de uma chocante distopia.

Não se pode ter relações sexuais a não ser para reprodução. Não se pode amar nem paquerar. O controle sobre o corpo e as ações de quase todas as mulheres, com exceção daquelas que fazem parte das classes dirigentes, é absoluto. Qualquer distração leva à morte, tendo em vista que a vigilância militarizada é permanente. 

Os homens que discordam do sistema também são mortos em rituais macabros. Não há qualquer chance de sobrevivência fora da ordem totalitária. As cenas de violência são inúmeras, mas consistentes e reveladoras, a meu ver. 

O que ocorreu no passado para que uma distopia de tamanha proporção se tornasse realidade? Em flashback, vamos sendo informados sobre isso. Tal sociedade fundamentalista totalitária já existiu? Podemos pensar em momentos históricos do Ocidente ou no atual funcionamento das sociedades islâmicas, nas quais as mulheres são legalmente mortas por estudarem ou por se apaixonarem.

E a pergunta mais importante: há condições de que algo parecido aconteça por aqui? A própria escritora e também a produtora/protagonista (Elisabeth Moss) da série afirmaram, em entrevistas, que uma das intenções da obra é denunciar esta possibilidade. Ou seja, assinalar e desvelar os riscos que estamos presenciando no sentido de que a sociedade em que vivemos se transforme em um sistema totalitário. Sinais desse autoritarismo exacerbado podem ser percebidos em inúmeras situações e pronunciamentos de autoridades. Pior: boa parte da população, no Brasil, nos EUA e na Europa, não sabemos se devido à ignorância ou a interesses, aprovam governos e instituições autoritárias.

Sinais de desespero, tristeza e terror, principalmente das mulheres, também crescem dia-a-dia frente à possibilidade da instauração de novas ordens totalitárias. Acompanho crianças e adolescentes muito críticos, quase em estado de pânico devido ao cenário político brasileiro, no qual um dos candidatos a presidente da república, com chances de ganhar a eleição, se pronuncia de forma preconceituosa, racista, misógina e homofóbica, sem qualquer pudor. Meninas de 7 anos de idade estão falando sobre o assunto, indignadas, preocupadas e aflitas.

Felizmente mulheres de diferentes ideologias, etnias, religiões, profissões e classes sociais começaram a reagir e a se organizar contra a barbárie de escolher democraticamente um representante da violência patriarcal machista, cujo romance de Margaret Atwood denuncia. Aguardemos, o futuro permanece aberto.



sábado, 8 de setembro de 2018

Campanha de Prevenção ao Suicídio




"Dados recentes apontam que, a cada ano, cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio e um número ainda maior de indivíduos atenta contra a própria vida. O suicídio foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo no ano de 2015. Pesquisas evidenciam que 78% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam o Brasil como oitavo país do mundo em suicídios. Também se constatam taxas elevadas de suicídio em grupos vulneráveis que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes, indígenas, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI), assim como entre pessoas privadas de liberdade."

Continue a leitura no site do Conselho Federal de Psicologia: 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Vamos falar de depressão?


Um dos temas mais importantes a serem discutidos, no campo da saúde mental, é o aumento do número de casos de depressão em todo o mundo. Segundo dados da Ooganização Mundial da Saúde (OMS 2017), a depressão é a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos e a cada 40 segundos alguém se suicida.


Do ponto de vista médico, a depressão está relacionada à falta de serotonina no cérebro e caracteriza-se como um problema fundamentalmente neuroquímico. Por isso necessita ser tratada com medicamentos que aumentem a serotonina (anti depressivos), especialmente nos casos graves. O psiquiatra é o médico responsável pela realização de um diagnóstico preciso e pela medicalização.

Na perspectiva psicossociológica, no entanto, a depressão é muito mais do que um conjunto de sintomas que pode comprometer a vida de uma pessoa, afastando-a das atividades cotidianas (tristeza, irritabilidade, raiva, baixa estima, sentimento de fracasso, culpa e impotência, falta de ânimo e de vitalidade, desesperança, apatia, ideações suicidas). O sofrimento intenso do quadro depressivo relaciona-se tanto com a história de vida do sujeito quanto com as condições em que o mundo se encontra neste exato momento.

Uma sociedade que estimula demasiadamenta competição, o egoísmo, o narcisismo, o individualismo e o ódio, ao mesmo tempo em que exerce níveis de exigência e excitação para além do suportável, só pode ser uma sociedade doente, produtora de seres humanos descontentes, esvaziados, vivendo em estados depressivos, maníacos ou mesmo psicóticos.

Não podemos esquecer que nossa subjetividade e nossas doenças mentais são sintomas do nosso tempo, esta era capitalista consumista que, a bem da verdade, nos esvazia, posto que nos constrói como seres desejantes impossibilitados de obter satisfação permanente. Não é difícil acompanhar pessoas que possuem muito materialmente, intelectualmente ou esteticamente, mas são infelizes e deprimidas porque há uma enorme pobreza afetiva/relacional.

Nós precisamos e nos nutrimos emocionalmente uns dos outros, a partir de trocas afetivas autênticas e singelas. A solidão, o isolamento e a economia excessiva de afetos possibilitam relações de pouca intimidade, que em geral não agregam sentidos para uma existência plena. Muitos adolescentes, por exemplo, compreendem ser melhor não sair do próprio quarto, conectando-se a internet permanentemente e perdendo o contato com pessoas reais. Quando enfim são obrigados a lidar com as dificuldades impostas pela vida, revelam-se frágeis e intolerantes à frustrações.

As crianças também sofrem, vitimadas por quadros de fobia ou depressão devido a exigências e cobranças por desempenhos espetaculares, principalmente na escola, cenário este que impede o desenvolvimento saudável, repleto de jogos e experimentações. 

Para maior conhecimento sobre o assunto, deixo aqui o registro de duas leituras interessantes:

O Tempo e o Cão - a atualidade das depressões
Livro da psicanalista Maria Rita Kehl




O Demônio do Meio Dia - uma anatomia da depressão
Livro autobiográfico de Andrew Solomon


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Ciclo de Debates Opressões


Prossegue em 2018, no SESC Piracicaba, o Ciclo de Debates Opressões - "É preciso transver o mundo." Contando com a presença de especialistas, esta série de debates promove indagações sobre as diversas formas de discriminação e preconceito vivenciadas por alguns grupos sociais no Brasil atual.

Na próxima quarta-feira, 15/08, as 19:30h, o tema em discussão será:

COMUNIDADE LGBT - Fobia, Violência e Sofrimento Psíquico.

A Mesa será composta por duas psicólogas:
Andrea Raquel Martins Corrêa e Pâmela Cristina Oliveira.

Mediação: Felipe Vecchini


O evento é aberto e gratuito.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Custódia: um filme necessário


O filme francês Custódia (2018), dirigido por Xavier Legrand, é um drama envolvente, intenso e eletrizante, narrado sob o ponto de vista de uma criança cujos pais estão se separando. 
Inicialmente não entendemos porque a ex esposa e mãe não deseja que o ex marido se aproxime dos filhos, reiterando tal posicionamento na presença da juíza. Na sequência, no entanto, o filme vai esclarecendo estas motivações, sempre pelo olhar do filho mais novo, que sofre demasiadamente cada vez que é obrigado a ir com seu pai.

O tema e a polêmica da alienação parental é uma das grandes questões tratadas pelo diretor. Por que o filho não deseja estar com o pai, revelando medo ao ter contato com ele? A interpretação deste ator mirim - Thomas Gioria -, inclusive, é magnífica! Sentimos calafrios na cadeira do cinema ao acompanhar os gestos e a expressão de seu olhar.

A tensão da película é crescente, tornando-se difícil de suportar na medida em que o final se aproxima. Quem é este pai, que tem alguns antecedentes de violência já registrados? Qual o seu perfil psicológico? Ele seria capaz de agredir e de matar, ou essas seriam alegações infundadas e perversas da mãe?

Pois bem, mais do que isso é spoiler, não é mesmo? De todo modo, saímos da sessão lembrando de muitas outras situações, algumas divulgadas pela mídia, outras não. Saímos pensando na fragilidade das crianças e das mulheres diante de certos homens e de quanto estes mesmos homens, tão "machos", precisam de ajuda e tratamento. 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Prevenção ao suicídio

A questão do suicídio vem se tornando tão grave e séria que de tempos em tempos faz-se necessário abordá-la. Em função do aumento de tentativas e do número efetivo de suicídios registrados - principalmente entre os jovens -, no último mês de julho o Ministério da Saúde, em parceria com o CVV (Centro de Valorização da Vida), ampliou o atendimento gratuito para todos os estados do país. 

Através do número 188 de telefone, qualquer cidadão pode solicitar ajuda ao CVV, que é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos, cujo objetivo consiste justamente em auxiliar as pessoas que se encontram em estado de sofrimento, considerando o suicídio como alternativa para acabar com a dor permanente. 
Há ainda outros canais de comunicação com o CVV, por email e chat. Vale a pena conhecer o site: https://www.cvv.org.br/





Em São Paulo, no mês de abril/2018, casos de suicídio entre adolescentes do segundo grau de Colégios reconhecidos da elite paulista, repercutiram na mídia e nos espaços de discussão sobre saúde e educação de jovens. Por que um adolescente da classe média alta ou alta tira a própria vida, sem estar envolvido em situações de bullying ou ciberbullying, de violências explícitas ou amores frustrados? O que leva uma pessoa com tantas perspectivas de vida a cometer uma violência contra si mesmo?

Para refletir sobre o tema, indico a todos os interessados o belíssimo e instigante texto da jornalista Eliane Brum, publicado recentemente no Jornal El País: O suicídio dos que não viram adultos nesse mundo corroído.
Link - https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/18/opinion/1529328111_109277.html

A abordagem de Eliane Brum é lúcida, ampliada, cativante e questionadora. Leitura recomendadíssima.




Também a Unicamp, no intuito de promover com mais empenho a discussão sobre suicídio, está organizando e divulgando o Fórum Suicídios - Des/compassos da Vida: números, atos e demandas, que será realizado no dia 8/08.
Mais informações: https://www.foruns.unicamp.br/eventos/suicidio-descompassos-da-vida-numeros-atos-e-demandas




quinta-feira, 5 de julho de 2018

A negação do homem trágico: extinção da espécie humana



Infelizmente a visão do homem como um ser trágico, proclamada pelos gregos, por Shakespeare, Nelson Rodrigues e tantos outros escritores, filósofos e artistas, não tem sido objeto de apreciação, de interesse e compreensão pela nossa cultura dominante. Esta visão foi se modificando ao longo dos séculos, assinalando diferenças extremamente importantes. Se nos gregos a tragédia relacionava-se aos desígnios dos deuses, em Nietzsche, um dos maiores e mais influentes pensadores do início do século XX, a tragédia é justamente o oposto, qual seja o fato do ser humano descobrir-se absolutamente órfão das divindades, sendo obrigado a lidar com o que ele anunciou justamente como a morte de Deus.

Em função da primeira e da segunda guerra mundiais, muitos foram os filósofos a declarar a morte do homem, fruto do extermínio de povos que, em última instância, poderia levar à destruição de todos os habitantes do planeta, o que por sorte não ocorreu, mas segue em curso. A extinção da espécie humana, no momento presente, é uma possibilidade constatada por inúmeros cientistas devido ao esgotamento das condições de manutenção da vida na Terra. De forma suicida, temos optado pelo aquecimento global, pela poluição de todos os meios saudáveis de existência e pelas armas de destruição em massa. Como será que chegamos a esta tão ampla tragédia?      
   
Sem pretender simplificar problemas tão complexos, arrisco a hipótese de que o capitalismo e, nas últimas décadas, o neoliberalismo, aliado à produção de tecnologias que buscam construir uma espécie de universo pós-humano, propiciaram a invenção do "homem não trágico", um ser inatingível pelos deuses e pela reatividade da natureza, um ser cuja finitude parece não existir.

Em uma de suas aulas, transformadas em livros maravilhosos, Michel Foucault, filósofo francês da segunda metade do século XX, estudioso da cultura grega, conta-nos como os gregos pensavam e se preparavam para a morte. Havia uma formação e educação para morrer, baseada em exercícios mentais e cotidianos que levavam em conta a finitude humana, algo absolutamente distante da nossa prática e do nosso pensamento. 


O sistema sócio cultural econômico atual impede que nos lembremos do nosso próprio fim, da nossa morte, esta sim a condição inexorável a determinar que somos trágicos. Se há algum deus inquestionável, este é tão somente a morte, circunstância trágica dos animais racionais e irracionais presentes no planeta Terra. Negá-la, seja na dimensão individual, coletiva ou planetária, implica uma tragédia ainda maior: não por acaso, esta que hoje vivemos. 

Talvez a nossa sobrevivência enquanto espécie humana no planeta esteja a depender, neste instante, de nos compreendermos como seres trágicos, mais uma vez. Seres finitos e necessariamente vinculados uns aos outros, bem como à terra, à água e ao sol.