sábado, 5 de maio de 2018

Arte, Reflexão e Encontro: considerações importantes

Bate-Papo entre José Miguel Wisnik e Siba
A Paixão na Arte Vanguardista - SESC Piracicaba/Maio 2018



Em tempos desalentadores como o nosso, compartilhar espaços poéticos e reflexivos possibilitam, de algum modo, certo sinal de vida, como se encontrássemos pequenas faíscas de encantamento que têm o poder de inventar, recriar e grassar uma emoção mais genuína entre todos aqueles que almejam respirar ares menos nefastos. Foi assim o diálogo entre estes dois poetas artistas brasileiros: música, poesia e sabedoria se intercalaram durante quase duas horas, com o seleto público presente.

Para abordar a arte, foi necessário proclamar a vida, sublinhando a existência de cada um de nós com a pergunta essencial, insinuada nas entrelinhas: por que estamos aqui, para que vivemos? Magistralmente, tanto Wisnik como Siba nos indicaram as pegadas de seus caminhos, com testemunhos de percalços e estranhamentos. Assim quem sabe pudéssemos, como anônimos mortais de um planeta tão esquisito, entender qualquer que fosse a substância desse mundo, caótico e irracional. Uma destas substâncias, sem dúvida, é a paixão.

Será que todos os humanos presentes nesse encontro são nutridos pela paixão? Uma das minhas convidadas, também artista, confidenciou-me logo depois que não poderia ter estado em outro local naquele dia, que se sentia plena por estar ali, agradecendo-me a lembrança do convite. Ambas partilhamos a mesma paixão, essa intensidade que apenas a arte oferece à existência.

No silêncio que nunca é silêncio ou quase é silêncio, Wisnik, lembrando Arnaldo Antunes, nos apresentou um pouco do seu repertório sobre a história musical do Ocidente. Haveria algum lugar ou algum corpo terrestre totalmente silencioso? Não, não haveria, impossível! Somos música, compreendi. Mas infelizmente, penso, estamos produzindo sons demasiados, ruídos estridentes e gritos pavorosos por todo o globo, selecionando aqueles que queremos ouvir e aqueles que fingimos nem saber. Falta-nos ética e compaixão.

Do outro lado do palco, Siba fez questão de registrar a alegria da música de Pernambuco, criada obstinadamente por um povo sofrido e abandonado que é o povo pobre deste nosso país. A resistência habita a arte, se desejarmos. Aquela resistência que impede o indivíduo de se matar e o agrupa com outros para construir uma biografia que valha a pena. Quantas pessoas não são massacradas diariamente na luta por uma sobrevivência ingrata e por vezes indigna?

Tanto o maracatu quanto o frevo e outros estilos musicais do Brasil são expressões culturais populares extremamente ricas, que dialogam, a bem da verdade, com a tradição. Por que temos que insistir no pensamento binário? Cultura popular x cultura erudita, vanguarda x tradição, progresso x atraso, bem x mal, amor x ódio, e claro, esquerda x direita, a grande e velha controvérsia recente!

Os artistas reiteram o mesmo posicionamento, de que entre um polo e outro há tensão, há trânsito e interpenetração criativa de práticas, linguagens, conceitos e afetos. Alguém poderia afirmar-se como um ser bom, puro, em detrimento de seu próprio lado mal? O que fazer com nossos pequenos fascismos diários, nossas micro relações perversas cultivadas mesmo sem perceber? E quanto ao papel político da arte, podemos pensar que ela contribui com a criação de “modos de vida não fascistas”? Siba e Wisnik parecem entender que sim, bem como o filósofo francês do século XX, Michel Foucault.

Fomos ensinados a raciocinar a partir de uma lógica linear, excludente e maniqueísta, que não mais se sustenta. A concepção de progresso e, junto a ela, de vanguarda e evolução humana ruiu, desmoronou, esfacelou-se. Encontramo-nos neste início de século desamparadíssimos, obrigados a olharmo-nos num espelho sem reflexo, numa imagem sem contorno, num céu sem promessas. Nietzsche já anunciou a morte de Deus faz mais de cem anos, mas talvez somente agora é que estejamos compreendendo o significado desta sentença. Cabe a cada um e a todos coletivamente, cabe à arte, à ciência e à filosofia confrontar-se com o destino que a História nos reservou.

Um brinde à criação e à possibilidade de reivenção contínua.



De Caetano Veloso, os versos de Cajuína:

            Existirmos a que será que se destina
            Pois quando tu me deste a rosa pequenina
            Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
            De um menino infeliz não se nos ilumina
           
            Tão pouco turva-se a lágrima nordestina
            E apenas a matéria vida era tão fina
            E éramos olharmo-nos intacta retina
            Da cajuína cristalina em Teresina.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Diálogo e Escuta



No canal do Youtube Casa do Saber, muitos são os vídeos interessantes a serem explorados.
Escolhi Como Aprender a Escutar o Outro, pelo psicanalista Christian Dunker.

O tema da escuta é muito relevante atualmente, devido à forma de vida egocêntrica que temos experimentado. É preciso ter coragem para criar novos recursos que promovam o questionamento deste padrão nada saudável de relações humanas, no qual não há espaço para o diálogo.

Fica a dica!


Link do canal:
https://www.youtube.com/channel/UCtvvTFp0XANyllOdmzZr9VQ

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Seminário de Direitos Humanos - Psicologia e Democracia


A Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia promoverá, em Brasília, nos dias 27 e 28 de abril, o VIII Seminário Nacional de Direitos Humanos - Psicologia e Democracia: nenhum direito a menos. A programação já está fechada e as inscrições foram encerradas, mas o evento será transmitido ao vivo pelo site do CFP.

"As mesas de debate vão contemplar diferentes temas, como a guerra contra e entre os pobres, corpos em disputa, produção histórica de violação de direitos de mulheres, LGBTs e negros e negras, cidades e campos possíveis e o papel da mídia."


A importância de divulgar e acompanhar este Seminário reside no fato de estarmos vivendo um período histórico de grande retrocesso global, no que diz respeito às conquistas realizadas pela humanidade após a Segunda Guerra Mundial.
As atrocidades do nazismo proporcionaram o surgimento de novas instituições   - como a ONU -, cujo objetivo foi propor e desenvolver acordos internacionais, que promulgassem e garantissem os direitos da população, levando em conta a premissa da dignidade de todo ser humano que habita o planeta Terra. Foi assim, então, que surgiu a chamada Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948.




Ocorre, no entanto, que a história não é contínua e infelizmente, no momento atual, algumas instituições, governos e parte da população vem se mobilizando no sentido contrário a um dos fundamentos da civilização do século XX, ou seja, à concepção básica de seres humanos como sujeitos de direitos. Tal concepção faz parte do que chamamos Democracia.
É assim que testemunhamos, com muita indignação e tristeza, o ressurgimento de grupos nazistas e fascistas por todo o Ocidente, especialmente aqui no Brasil, onde o ódio pela política e seus signatários vem alcançando proporções muito preocupantes.

O que a Psicologia e os psicólogos têm a ver com isso tudo?
No final da década de 90 foi criada a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia brasileiro, sob pressão dos movimentos sociais. O propósito da Comissão sempre foi discutir, acolher, promover e orientar os psicólogos, bem como a população em geral, sobre os direitos que devem ser garantidos aos cidadãos, especialmente aos que sofrem violações pelo Estado e pela sociedade.
Os princípios da Declaração dos Direitos Humanos são universais, portanto valem para todos os habitantes dos países que assinaram a Declaração. Contudo, é fato que grupos LGBTs e de mulheres, grupos negros e brancos das periferias, grupos de pessoas refugiadas ou imigrantes pobres, grupos de moradores de rua, de doentes mentais e de encarcerados, encontram-se, ainda hoje, mais vulneráveis ao sofrimento que a violência e a negação de direitos básicos ocasionam. Por este motivo, não apenas a Comissão de Direitos Humanos do CFP como a temática dos direitos humanos ficou associada apenas a estes grupos, propiciando grande confusão no debate. Os tais direitos humanos são uma prerrogativa de todo ser humano vivente, ou pelo menos deveria ser.

Um psicólogo que honra a ética profissional não pode, em hipótese alguma, cuidar das pessoas sem considerá-las como sujeito de direito, esteja onde estiver. 
Psicólogos atuam em clínicas, em hospitais, em penitenciárias, em escolas, em zonas de guerra, em periferias, em instituições voluntárias, em áreas de desastres. Atuam com pobres, com ricos, com brancos, orientais, negros e indígenas. Atuam com crianças, jovens, adultos e velhos. Atuam com heterossexuais, homossexuais, transexuais, bissexuais, assexuais. Atuam com católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas, agnósticos e ateus. 
Seria possível atender e acolher o sofrimento destes sujeitos sem respeito à sua história, sem reconhecimento de seus direitos, muitas vezes negados e violados?
Para um profissional sério e ético, não seria. E quem regula e normatiza esse código de conduta é o próprio Conselho de Psicologia, buscando assegurar uma prática humana que se consolide digna e decente. 

Evidentemente não se trata de afirmar que não há limites para a atuação do psicólogo ou que não há preconceitos por parte deste. Mas é necessário, com frequência, retomar a ética e o cuidado de si - consoante o filósofo Michel Foucault - para se constituir em um ser humano que contribui na construção de uma sociedade íntegra e justa.  

quinta-feira, 22 de março de 2018

Relações pais e filhos em Arkangel: o controle que adoece



A quarta temporada (2017) da série de ficção científica produzida pelo Netflix, Black Mirror, apresenta ao público um episódio denominado Arkangel que, embora possa ser criticado do ponto de vista da estética e da inovação, suscita reflexões extremamente pertinentes a respeito da educação e do controle familiar.

O episódio foi dirigido por Jodie Foster, atriz e diretora americana, constantemente interessada na abordagem de temáticas que envolvem dramas familiares. Em Arkangel, uma mãe solteira decide fazer o implante de uma nova tecnologia no cérebro da filha, que permite a ela ter acesso, controle e visão sobre esta. A mãe acessa uma pequena câmera, sempre que deseja ou desconfia da filha, para saber onde ela se encontra e o que está fazendo. O mote da tecnologia em teste é a segurança e a paz dos pais. Será?

Quando a filha torna-se adolescente, os conflitos com a mãe possessiva e dominadora se ampliam. A filha sabe do implante, mas confia, inicialmente, na discrição da mãe, que consente em não utilizar mais a câmera, algo, porém, que não consegue cumprir. Quais as consequências da invasão e do excesso de controle da mãe na vida da filha, mesmo que tal atitude seja justificável, de certo ponto de vista?

Revelar o final de uma história nunca foi sensato, vale a pena assistir o episódio para compreender a proposta da discussão. O que está sendo problematizado é que já vivemos nesta distopia de uma sociedade absolutamente vigiada, sendo que as mães e os pais foram aprendendo a pensar a vigilância contínua sobre os filhos como algo necessário e positivo. Tal formulação, no entanto, não procede, pois ao contrário do que parece, o que o patrulhamento possibilita são transtornos no desenvolvimento infanto juvenil.

Uma criança excessivamente controlada não adquire confiança em si mesma, porque não tem a chance de se construir de maneira autônoma e criativa. Quando adolescente, pode tornar-se extremamente insegura, desconfiada, agressiva ou mesmo narcisista. Pode ser muito autoritária ou submissa, identificar-se com o controle tornando-se também controladora ou, por outro lado, subserviente, cativa.

Não é nada saudável educar os filhos partindo do pressuposto de que devem nos fazer relatórios diários, caso contrário conferimos as câmeras para saber o que ocorreu de fato. Não é nada saudável que precisemos monitorar nossas crias 24 horas ao dia para nos sentirmos menos preocupados. Essa gestão educacional pela vigilância absoluta, que vem se implantando e se desenvolvendo nas escolas e nas famílias em nome da segurança e do sossego, proporciona um processo de infantilização, dependência emocional e ausência de responsabilidade individual, tanto dos adultos quanto dos jovens. Exemplos não faltam e o filme narra um deles, com consequências dramáticas.

Necessário se faz, portanto, rever os padrões de relacionamento com os filhos e questionar a imposição (sutil) das tecnologias em nossas vidas. Não seria melhor tentar criar relações baseadas na confiança ao invés de relações baseadas na vigilância e na ameaça?



quinta-feira, 8 de março de 2018

Dia Internacional da Mulher: filme Mulheres Divinas



O filme Mulheres Divinas nos apresenta um retrato do que foi a sociedade suíça até os anos 70, no tocante à política voltada para as mulheres e ao contexto repressor imposto pelos homens.

Tratadas como seres ignorantes e dóceis, não era permitido a elas serem eleitoras. 
Esclarecendo: as mulheres não votavam na Suíça até o anos 70, suas pautas não tinham nenhuma consideração. Pode parecer mentira, já que este é um dos países mais avançados do mundo em termos de qualidade de vida e valores progressistas. O filme, pelo menos para mim, foi uma revelação e um assombro.


Uma das reflexões mais importantes que Mulheres Divinas possibilita é a de que todos os avanços ocorridos na humanidade só foram possíveis a partir da luta dos coletivos envolvidos. Nenhuma demanda ou proposta de mudança, seja grupal ou individual, transcorre sem que haja luta e enfrentamento permanente.

Todos sabemos, porém, que há muito a ser feito e conquistado ainda. Os dados estão disponíveis por toda a rede: segue a violência contra as mulheres, principalmente doméstica; segue a diferença salarial, embora em valores mais modestos; segue a desigualdade e a barbárie. Por isso, quando uma mulher recebe uma rosinha em comemoração ao seu dia, deve lembrar-se de dizer: "obrigada, espero contar com seu apoio na luta feminina, pois falta muito, mas muito mesmo a ser alcançado!"


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um Poema para os Jovens

















Voa.
Voa para o mundo
Que a vida a ti concede amor.

Caminha.
Caminha sem o tempo
Que o medo nunca te abraçará.

Espera.
Espera por si mesmo
Que a aurora há de te habitar.

Divaga.
Divaga na beleza das formas e das cores do universo,
Infinito finito.


Com a graça do alvorecer e
Com a angústia da noite,
Vai
Segue
Sonha
Cria
Inventa.

Cá estaremos eternamente,
Sempre a seu alcance.


Para Luan


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Festival de Cinema Francês



O Festival de Cinema Francês 2018, online, prossegue até 19 de fevereiro. Basta se cadastrar no site para assistir aos filmes, legendados em diversos idiomas, incluindo o português. Para quem vai passar o feriado de carnaval em casa ou descansando, basta ter um computador e acessar. Fica a dica!

Site: https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/

Até o presente momento, os filmes que mais apreciei da atual seleção foram:
- AVA
- Os Últimos Parisienses
- Núpcias
- 1:54

Resultado de imagem para filme os ultimos parisienses

Vale a pena conhecê-los.