quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Infância e Patologização: crianças sob controle

Muitas crianças estão sendo submetidas a uma prática terapêutica que medicaliza excessivamente a infância, propiciando que diversos comportamentos e dificuldades, principalmente quando relacionados à escola, sejam abordados como doenças, síndromes ou transtornos. Essa lógica patologizante parece dominar o olhar dos profissionais, tanto na área de educação como na de saúde.
Com a finalidade de prevenir a patologização das nossas crianças e adolescentes, chamando à responsabilidade os cuidadores, adultos, educadores e profissionais, o Conselho Regional de Psicologia de SP promove, em Campinas, um importante Debate: A Patologização e Seus Reflexos sobre o Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes.
O Encontro será no próximo dia 7/11, 8:30 h, na Subsede de Campinas (19-3243-7877) e reunirá médicos pediatras, neurologistas, psicólogos e educadores.
Parece ser urgente a necessidade de criarmos novos olhares e alternativas, que garantam uma infância tanto mais livre quanto saudável. Afinal, para que servem as camisas de força ou as estratégias de extremo controle?
Será que a contenção química de uma criança colabora para que a sociedade e suas respectivas instituições se sintam mais competentes? Por que? Quem é que realmente precisa se rever e se transformar?

domingo, 25 de outubro de 2009

Em Cena: dificuldades na escola

É um menino inteligente, mas aos olhos dos adultos, não parece.
Sabe levantar pipa, jogar bolinha de gude, andar de bicicleta, desenhar.
Mas não gosta de ficar parado, pensando.
Quando assiste TV, movimenta-se feito macaco no sofá. Quando faz tarefas de escola, não consegue se concentrar. Todos reclamam de sua agitação.
Sua principal cuidadora é a avó, com quem ele briga o tempo todo. Os pais ficam fora, trabalhando.
Na escola, ele quer brincar. Tem 7 anos. É difícil ficar na carteira, prestando atenção na aula.
A professora reclama, os amigos o querem bem. Alguns se chateiam, outros tentam ajudá-lo nas lições.
Certo dia, a professora propõe um jogo diferente, que ele, com muita imaginação, já conhece e domina. É então que todos se surpreendem com as desconhecidas habilidades do menino.

Esta pequena história foi vivenciada por alguns ( ou muitos? ) educadores, na vida real e na ficção do palco psicodramático.
Talvez ela possa nos ajudar a prestar mais atenção nas diversas capacidades que nossas crianças têm, em casa e na escola.
Infelizmente temos o hábito de cobrá-las para que sejam mais responsáveis, organizadas, concentradas em tarefas de conteúdo lógico-formal. Esquecemos da imaginação, da arte, da brincadeira, do contato físico e afetivo, do conhecimento cotidiano através das relações.
Rubem Alves nos ensina que, para ter sentido e valer a pena, a escola precisa estar integrada com a vida, com a aprendizagem que a criança adquire no dia-a-dia: professores e alunos compartilhando um espaço de criação, não apenas de repetição; pais que dediquem tempo aos filhos, não somente para exigir, mas também para ouvir, abraçar, jogar, passear, brincar...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Agentes do Brincar

No sentido de valorizar a criança como sujeito, um ser que pensa, sente e cria, não apenas um objeto de nossa época, apóio neste espaço iniciativas que promovem a cultura da infância. Por isso, registro abaixo o projeto Agentes do Brincar, que vem sendo divulgado pelo movimento Aliança pela Infância.
A Cooperapic e a United Way Brasil convidam para participar do projeto educativo Agentes do Brincar que será desenvolvido em parceria com a IPA Brasil Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e apoio da Uni Ítalo.
Este projeto tem como eixo principal o reconhecimento e a valorização do brincar e das atividades lúdicas como primordiais para o desenvolvimento infantil.
O Agentes do Brincar tem por objetivo facilitar o aprendizado e a descoberta da importância do brincar, utilizando a metodologia da Ludoeducação, pois possibilita o desenvolvimento de ações sócio-culturais e lúdicas, utilizada para desencadear processos de educação não-formal com a finalidade de suprir novas necessidades sócio-educativas, que o sistema formal não pode atender.
Esta metodologia abrange a utilização de linguagens artísticas e lúdicas, que possibilitam a valorização multicultural de aspectos que envolvem as ações direcionadas à promoção da cultura da infância.
Informações: Aliança pela Infância www.aliancapelainfancia.org.br

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Convite: Diálogos Educativos

Escolher um tema para discutir e propor vivências grupais é algo extremamente difícil, principalmente quando diz respeito a todo o universo que envolve crianças, adolescentes, pais e professores.
O tema Dificuldades na Escola é bastante pertinente devido ao número de situações que acompanhamos cotidianamente, envolvendo as duas instituições, família e escola.
Fobia escolar, agressividade, stress, problemas de aprendizagem, conflitos de relacionamento e indisciplina são apenas algumas das freqüentes queixas proferidas por todos os atores mencionados: crianças, pais e professores.
Buscar alternativas para compreender estas questões, para refletir sobre elas através do diálogo e do conhecimento, pode ser um caminho interessante que exige, porém, disponibilidade e abertura a novas percepções.
Temos ou não tal responsabilidade?
É possível que sim, que cada um de nós, dentro do seu papel - tal como no teatro -, seja responsável pela sua própria atuação, participando também da atuação do outro e com ele se tornando co-responsável pela dinâmica do grupo.
Em cena, portanto, a escola com seus conflitos, com suas dores, suas angústias e possibilidades. Seus dilemas, suas soluções. Um espaço, de todo modo, de socialização, aprendizagem e muitas paixões, encantos, mistérios.
O convite estende-se a todos os interessados. Solicito atenção para o quadro situado na lateral do blog.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cultura e Identidade

Brichos (www.brichos.com.br ) é um desenho animado nacional, dirigido por Paulo Munhoz e Antonio Éder, de classificação livre, com 77 minutos de duração. Foi exibido nos cinemas a partir de 2006 e está disponível para compra em DVD, junto com o livro, obra literária em quadrinhos.
O filme é o primeiro longa metragem paranaense de animação, apresentando ao público uma história muito interessante, na qual os personagens principais - Tales, Jairzinho e Bandeira, filhotes de jaguar, quati e tamanduá - aprendem a lidar com seus conflitos de identidade, pesquisando as origens de seus familiares e criando, assim, novas relações entre pais, filhos, professores e alunos.
Em entrevista, o diretor Paulo Munhoz afirmou que a criação do filme teve como ponto de partida a fauna brasileira, desvalorizada por nós e pelas diversas mídias que fazem parte de nosso cotidiano.
Devido a uma série de condicionamentos sociais, em geral achamos mais interessantes filmes, desenhos e outros produtos que vêm dos EUA. Perdemos, dessa maneira, a possibilidade de perceber e refletir sobre nossa própria identidade cultural.
Brichos significa Bichos Brasileiros, nome de uma vila em que alguns de seus jovens habitantes buscam conhecer a própria história, pesquisando o passado sem perder as referências da modernidade e nos ensinando, também, que indivíduo e grupo se relacionam necessariamente. Não há como pensar a formação da identidade de uma pessoa sem levar em conta a cultura na qual ela vive.
Neste e em muitos outros aspectos - relacionamentos, autoridade, violência, meio ambiente - o filme é absolutamente feliz, cultivando novos olhares e atitudes através de uma linguagem que fala tanto para crianças quanto para adultos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Dos vínculos nossos de cada dia, um pouco de poesia...

Nas ondas do mar, que vão e vêm ininterruptamente, residem as palavras que compõem canções de textos descontínuos, abertos a possibilidades, dispostos a olhares múltiplos.
Melodia nem sempre terna, as vezes melancólica ou rancorosa... essas canções que buscam, contudo, a beleza da dor.
Entre pais e filhos, entre homens e mulheres, entre amigos e inimigos, não poderia ser diferente: a música revela-se ora serena, ora tempestuosa, marcando compassos de ritmos por vezes irreconhecíveis.
Não é possível dar conta. O movimento das ondas jamais será interrompido, mas nós podemos contemplá-las e, se quisermos, nelas mergulhar para, quem sabe, encontrar algumas conchas preciosas.
Conchas de vida, conchas coloridas ou solitárias que então podemos guardar para nós, apenas por um tempo...
Em outro tempo, corajosamente precisamos devolvê-las ao mar.
Se no mar mergulhamos - incerto, louco, sem direção, indo e vindo com as ondas que dele fazem parte -, experimentamos o acaso, o ir e vir, as vezes cíclico, outrora incerto, duvidoso.
Na tarefa árdua, contínua e diária de construirmos nossas vidas e nelas nossos vínculos, nossos olhares, pensamentos e emoções... vamos e voltamos para dentro e fora de nós mesmos, encontrando pérolas e ostras perdidas pelo espaço e pelo tempo.
Procuramos ordená-las um pouco mais, somente até onde for possível, para compreendê-las, para apreciá-las, para compartilhá-las com outros no decorrer da caminhada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Adolescência: partilhando a solidão


É preciso olhar com mais cuidado para nossos adolescentes.
Temos muitas informações sobre adolescência: uma fase de mudanças, de novas referências, de grupalização, de enfrentamento e timidez ao mesmo tempo, de encantamento com a sexualidade, de desejos e frustrações intensas. Apesar disso - ou até por isso -, não sabemos como lidar, como escutar ou mesmo falar com os adolescentes.
É urgente a necessidade de se criar canais de comunicação, incentivando os adolescentes a dizerem como vêem o mundo e o que dele esperam, como sentem a vida e o que pensam do futuro, como vivenciam as relações de amizade e de paixão.
Através de diversos tipos de grupos, seja na escola, na academia, na balada ou em família, os adolescentes criam uma forma própria de se comunicar, que não prescinde, no entanto, da atenção e do acompanhamento dos adultos. Podemos e devemos tentar compreendê-los, mantendo-nos perto e longe, firmes e afetivos, fortes e frágeis.
Muitas vezes cobramos dos adolescentes posturas mais maduras diante dos problemas que a vida traz, mas não oferecemos recursos suficientes para que eles aprendam ou se disponham a enfrentar as dificuldades.
Optamos, nem sempre conscientemente, pela solidão, que pode muito bem ser saudável em determinados momentos, mas que torna-se motivo de grande angústia quando impede constantemente o compartilhar. Cada um em um quarto, cada qual no seu mundo.
Estar junto, partilhar as dores e sofrimentos, as alegrias e as vitórias, com palavras ou em silêncio, com gestos e olhares, com dúvidas, medo e vergonha ( muita vergonha! ), é ainda um caminho possível, uma trilha de pedras e cacos que pede nossa presença, paciência e amor.