domingo, 11 de junho de 2017

A luz do cinema: memória, emoção e história


Como criar imagens que, intercaladas na montagem, acrescidas de palavras e sons, proporcionam aos cinéfilos/telespectadores uma outra qualidade de emoção, que faz sentir e pensar ao mesmo tempo?
Como narrar poeticamente o sofrimento histórico de um povo sem perder a beleza, articulando-o, sobretudo, às questões fundamentais do ser humano que são: quem somos nós, de onde viemos, para onde vamos? 
Como abordar a importância da memória no tempo e no espaço, a relação da astronomia com a arqueologia, da arte com a ciência, do céu com a terra e o mar, mantendo o fio condutor de toda a trama universal que é o homem?
Como ser o passado, o presente e o futuro, ao mesmo tempo, em uma obra de arte que se realiza como potência tanto da barbárie quanto da esperança?
"Os que têm memória são capazes de viver neste frágil tempo presente. Os que não a têm, não vivem em nenhuma parte."

Patrício Guzmán é um diretor de cinema chileno, com vasta obra de documentários. Estes dois filmes que aqui apresento, Nostalgia da Luz (2010) e O Botão de Pérola (2015) foram premiados e são reconhecidos pelas particularidades estéticas e líricas na narrativa de fatos históricos. 
O objetivo de Guzmán, em todas as suas películas, é discorrer sobre a história do Chile, sobre a barbárie da ditadura de Pinochet e a necessidade de resgatar a memória acerca dos fatos, das mortes cruéis e da dor interminável. A forma com a qual ele realiza tal intento cinematograficamente é magnífica, pois além de bela, revela-se inteligente ao propor argumentações que vinculam memória individual e coletiva, tragédia social e pessoal, conhecimento científico e metafísico, barbárie e humanidade, origem do homem e contemporaneidade.
Não há como não se comover, embora o ritmo do filme possa ser considerado lento pelo público acostumado ao gênero de ação. Não há como se furtar à reflexão, mesmo em épocas empobrecidas como a nossa.
Para que estamos aqui vivendo? O que fazemos de nossas vidas? "Haverá passado o mesmo em outros planetas? A atitude do mais forte terá sido idêntica em todos os lados?" Para muitas perguntas, algumas respostas que nunca se concluem e, muito pelo contrário, geram novas perguntas.

Eis um belíssimo tratado de filosofia que nos indaga a respeito de quem somos e porque nos constituímos uma espécie tirânica, deixando-nos, no entanto e simultaneamente, a possibilidade de uma vereda, uma trilha para a redenção: a memória e a lembrança que, como recusa do esquecimento, pode nos salvar do abismo.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Psicodrama: Fronteiras


Mais um evento importante de Psicodrama: Fronteiras 2017, desta vez em São José do Rio Preto.
Na busca pela construção de um saber científico que seja crítico, dialogue com outras disciplinas de conhecimento e com a arte, este evento propõe experimentações e reflexões que pautam o debate atual das relações humanas no nosso cotidiano. 
Em um momento de crise generalizada como o nosso, é preciso criar cada vez mais recursos e condições de enfrentamento para um outro porvir.  

"O Psicodrama nasceu no intermédio das ciências e das artes, transitando por mundos e séculos, buscando no espelho, a outridade. Por isso, a proposta dos diálogos com saberes não-fechados."
"A busca pela desnaturalização das coisas traz o inconformismo de discutir o que é tido como certo, óbvio e.… natural. A desmontagem diz respeito ao exame dos afetos aprisionantes que fazem de nós seres pouco espontâneos e criativos."

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Esperança, Vida e Poesia

Vivemos tempos de grande desesperança. 
Confirmando esse sentimento predominante, atestamos diariamente o aumento do número de suicídios em todo o mundo, principalmente entre os jovens e também entre os padres, mais recentemente.
Nossas expectativas em relação ao futuro estão sendo dilapidadas por constantes crises econômicas, políticas e humanitárias. Os valores de suma importância para a civilização, construídos após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU, não se mostram efetivos, ou seja, não são colocados em prática. Temos guerras, temos violência e barbárie, temos populações inteiras migrando pelo planeta por falta absoluta de condições de sobrevivência. 

Por mais que tentemos nos proteger de tantos fatos e situações destrutivas a compor os rumos da humanidade, não é possível ficarmos alheios, a não ser que sejamos psicóticos ou narcísicos, a não ser que façamos parte de comunidades delirantes isoladas no próprio sofrimento. 
Nossa subjetividade é uma construção que ocorre no interior das relações que partilhamos, por isso sofremos o impacto daquilo que está ao nosso redor. Ainda que tentemos nos separar e nos distanciar das dores dos outros, ainda que sejamos agressivos, egoístas e violentos, muito pouco empáticos, não somos capazes de viver completamente alienados.

Não, não somos seres assim tão solitários.
A solidão, no entanto, pode ser construtiva, principalmente numa época de hiperestimulação, hipermídia e hiperexcitação. É preciso que nos retiremos parcialmente de toda essa parafernália tecnológica, que nos faz eufóricos e deprimidos ao mesmo tempo. Sim, é preciso que exercitemos em nossas vidas tão precárias algo que seja exclusivamente nosso, que nos identifique como seres diferentes uns dos outros e que nos proporcione um sentido peculiar de existência. 
Algumas pessoas amam dançar, outras não conseguem ficar sem escrever e ler um romance. Algumas pessoas necessitam correr ou andar de bike, outras preferem caminhar por espaços fora da cidade. Há ainda indivíduos que sentem imenso prazer em cozinhar, restaurar móveis antigos, plantar flores ou simplesmente fazer crochê. 
Não importa o que seja, pequenas viagens pelo ano quando possível ou programas de lazer e cultura que acrescentam um sabor à nossa relação com a vida. Tudo isso é de extrema importância em períodos históricos como o nosso, prenhes de tragédias que nos obrigam a lutar cotidianamente pela sobrevivência emocional, por algo que nos faça sentir que a vida vale a pena e não se compõe apenas por vazios.  

Espero sinceramente que esse tempo passe... que o desespero e as lágrimas das quais tenho sido testemunha possam se transformar em poesia, como este livro maravilhosamente belo de Valter Hugo Mãe.
Homens imprudentemente poéticos é uma obra prima para quem aprecia romances com lirismo. Cada palavra e cada frase inspiram imagens que tocam profundamente nossos corações. Romance para degustar, para inspirar, para acreditar na possibilidade que a arte nos oferece, evocando parte da história de Édipo, se quisermos.
Não vou fazer resenha, bastam algumas citações de uma narrativa que acontece no Japão, entre aldeões pobres: "O jardim na floresta era uma renda colorida na franja subindo da montanha." Ou ainda: "No escuro, dera conta que se ocupara apenas de sobreviver, como se a cegueira permitisse nenhum descanso, nenhum prazer além do acosso pela vida." "Os cegos imaterializavam-se. Ficavam extensos." 
E eu, sem dúvida alguma, só tenho a exprimir gratidão e emoção por este autor que me faz sentir viva!

Resultado de imagem para valter hugo mãeMae Homens imprudentemente poéticos

segunda-feira, 1 de maio de 2017

1 de Maio: filmes para discutir

Nesta data em que se comemora o Dia do Trabalhador, gostaria de registrar e sugerir dois filmes recentes que abordam o universo do ser humano em relação ao trabalho.



Eu, Daniel Blake (2016) é um filme premiado, muito sensível e absolutamente tocante, que coloca em discussão o desmonte do sistema de bem estar social na Europa, especialmente em relação a aposentadoria. Como a pauta brasileira atual é justamente esta, a película torna-se ainda mais valiosa para refletirmos sobre o assunto.

O outro filme belíssimo, muito diferente do anterior, mas também premiado, é Paterson (2016). Aborda a história de um motorista de ônibus que escreve poesias em meio a enorme monotonia do cotidiano. Filme poético, de grande lirismo, a instigar reflexões sobre o sentido da vida, do trabalho, da arte e das relações amorosas.


sábado, 22 de abril de 2017

Adolescência e suicídio: uma discussão necessária

Nessas últimas semanas, um dos assuntos mais discutidos e comentados, no que diz respeito a educação, foi o jogo da baleia azul e a série do Netflix, 13 Reasons Why. Não sei se há muito mais a polemizar ou escrever, já que surgiu uma vasta literatura sobre a questão, muitos textos, análises e considerações.

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Conversando com os adolescentes, percebo que a série tem conquistado os corações, embora haja diversos problemas no tocante à forma e à estética pela qual os produtores optaram. Confesso publicamente que só assisti aos dois primeiros episódios e não prossegui, e que me senti um tanto aliviada pelo fato do meu filho de 17 anos não se interessar. 
Para o meu repertório pessoal, a série lembra um filme de suspense no estilo americano. Concordo com as críticas afirmando que 13 Reasons Why expõe demasiadamente o suicídio, de maneira até irresponsável, na medida em que estiliza com detalhes a cena fatal, podendo ainda incentivar a vingança nos adolescentes. 
Ao mesmo tempo, no entanto, fico me perguntando se as imagens do filme não seriam apenas mais uma das imagens, das cenas e dos textos horrorosos que nossas crianças e jovens são obrigados a ver e consumir todos os dias, pela televisão, pela internet, na escola e em casa, nos shoppings e espaços públicos. Isso não quer dizer que um programa que se propõe a tratar de temáticas tão importantes não poderia ter sido mais cuidadoso, pois há muitos formatos artísticos visuais para se criar uma determinada narrativa. A produção optou claramente por um estilo comercial, garantindo a venda de seu produto. Filmes como o nacional ELENA (2012), por exemplo, que abordam de maneira delicada o suicídio, jamais se tornariam populares no contexto sócio cultural em que vivemos.

Críticas e considerações à parte, o fato é que os adolescentes estão assistindo a série. Portanto, não há nada melhor a ser feito senão discutir e conversar sobre a cruel problemática do bullying e do suicídio. É preciso que nosso papel como educador seja criativo e pró ativo. De nada irá adiantar nossa visão, quem sabe arrogante, sobre o que é mais ou menos adequado para eles. Precisamos estar por perto, disponíveis e atentos, não para invadir quartos e espaços individuais ou emocionais, mas para ajudar nossos tão queridos amados sujeitos a se construírem enquanto seres íntegros, humanizados, transformadores e razoavelmente felizes. 
Essa é uma difícil "missão" que também cabe a escola e a sociedade, não somente aos pais. Por que não aproveitar a oportunidade para realizar debates com os alunos e professores sobre o bullying, frequentemente motivo de tristeza, adoecimento físico/mental, linchamento moral e também suicídio? Por que não discutir esta violência que persegue principalmente as meninas, justamente nos ambientes educacionais? Por que não criar novos espaços institucionais e grupais de escuta para as crianças e adolescentes? Afinal, sabemos que os casos de suicídio estão aumentando ano a ano, no mundo todo.

O tal jogo da baleia é apenas mais um terrível sintoma do quanto insana vive nossa sociedade, penalizando jovens vítimas que se encontram em um estado afetivo mais vulnerável. Evidentemente, um jogo criminoso e assassino. Tão chocante quanto cruel, mas não surpreendente, pois acompanhamos o surgimento cada vez mais veloz de tecnologias que promovem a violência, de si mesmo ou dos outros. O seriado BLACK MIRROR da Netflix (2011), este sim um programa inteligente e louvável, merece ser contemplado para que possamos nos situar neste universo tecnológico do qual fazemos parte. 

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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Erotização Precoce x Educação Sexual

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Esta é uma Campanha da Sociedade de Psicólogos e Conselhos Tutelares: #CriançaNãoNamora. Tem por objetivo conscientizar pais e responsáveis sobre os relacionamentos infantis. 
"A relação entre as crianças tem um nome: Amizade. Insistir em namoro na infância é adultizar as crianças e incentivar a erotização precoce. Criança tem que ser criança. Infância precisa de proteção."

Em função desta campanha tão adequada e propícia, torna-se indispensável fazer alguns esclarecimentos acerca das diferenças entre erotização precoce e educação sexual. É frequente a confusão sobre o assunto.

A educação sexual consiste em um processo de formação e informação sobre a sexualidade, o corpo, o gênero e a diversidade das relações humanas, tanto do ponto de vista biológico quanto psicossocial. Deve ser realizada durante toda nossa vida, mas especialmente na infância e na adolescência, de maneira apropriada a cada fase de desenvolvimento. 
Há muitas maneiras de realizar este processo: formalmente e informalmente, na família e na escola, através do diálogo, das discussões e da convivência diária.
Na verdade, a educação sexual, ao contrário do que muitos adultos pensam, protege as crianças e os jovens, na medida em que proporciona a eles mais recursos e conhecimento para lidar com situações que envolvem o próprio corpo, incluindo a questão do erotismo precoce.

A erotização precoce é um grave problema da nossa sociedade. Trata-se de um conjunto de estímulos que são impostos às crianças inadequadamente, expondo-as a sensações e sentimentos com os quais não é possível lidar de forma saudável.
Esses estímulos agem no nível do sensível e da inconsciência, não do racional. Participam ativamente da formação da identidade dos infantes. Por isso é que a educação sexual tornou-se tão importante, já que através dela podemos contestar e debater a erotização, prevenindo inclusive a gravidez na adolescência.
Nos programas e nas propagandas da tv e da internet, nas festas infantis, no comércio de roupas, calçados e brinquedos, na própria escola e na família existem situações constantes a promover o erotismo exacerbado, principalmente das meninas, mas também dos meninos. 

Fiquemos atentos, é nossa função como educadores, pais e adultos cuidar da geração posterior, que nos sucederá.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Educação na Finlândia: um outro olhar



"Tentamos ensinar-lhes a serem pessoas felizes, a serem... respeitarem-se uns aos outros e a si próprios."

A educação da Finlândia é considerada um exemplo para todo o mundo, pois concebe o ser humano, a sociedade e a infância/adolescência de outra maneira. O vídeo acima é um trecho do documentário de Michael Morre, chamado Where to Invade Next, no qual ele apresenta o que considera as melhores ideias e práticas de diversos países, em áreas e temas diferenciados.
No tocante à educação, a Finlândia foi a eleita, corroborando o entendimento de inúmeros especialistas e instituições educacionais sobre o sucesso deste país no campo da educação (e em muitos outros, diga-se de passagem).

Em meio a tantas discussões a respeito do que é melhor para nossos alunos, assistir esse testemunho da educação na Finlândia nos faz pensar que a grande maioria dos países ocidentais caminha na direção errada. Ao mesmo tempo, ficamos sabendo que outras formas de construir a sociedade são possíveis.