sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Das palavras que se foram em 2016

Nada mais para dizer. 

As palavras se calaram, as palavras se extinguiram.
Tento pronunciá-las, mas elas se vão, arrastadas pelo vento anunciador da morte.
Quem me dera encontrá-las novamente por aí, em qualquer lugar, de qualquer maneira.
Por que será que me abandonaram? Onde estarão agora?

Palavras que sempre me habitaram, palavras que me constituíram, palavras que me disseram o que é o mundo... essas palavras, fundadoras de mim, já não existem.
Como será possível inventar uma poesia, pensar uma emoção ou chorar um grande amor?
Se até nossas lágrimas são feitas de palavras! 
Nossas tristezas são balbucios de letras esmagadas e nossas alegrias são gestos silábicos quase impronunciáveis!

Os escritores e poetas - Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Monteiro Lobato, José Saramago, Virginia Wolf, Proust, Kafka, Shakespeare... como sobreviverão sem as palavras?
Aflitos na tumba, choram em desespero e lamentam a tragédia do século XXI.

Porque sem as palavras, todos sabemos, é o vácuo quem conduz.

A história não cansa de ensinar, mas os seres que se denominam humanos se recusam a aprender.
Da palavra humano, o que restou?
Da palavra grupo, o que sobrou?
E da palavra diferença, algo sobreviveu?

A palavra holocausto, a palavra sofrimento, a palavra crueldade, a palavra amor... todas foram extintas do dicionário pós-moderno. 
Ninguém se lembra o que elas significam!
Foi necessário tanto tempo para criá-las, tampouco agora elas existem.

Será preciso uma nova linguagem para que o planeta não pereça, junto às palavras que ainda restam, mesmo em vias de extinção.
Será preciso um novo código, uma nova ética, um outro verbo.


Foi para isso que os indígenas, filhos originários e primordiais, resistiram à estupidez civilizatória.
Para nos dar a possibilidade de criar outras palavras, as palavras que realmente importam e asseguram a vida.

Em A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami, encontraremos o que perdemos: o nós, o outro, o ancestral, a floresta, a beleza, a criação.

Talvez uma última chance, creio que vale a pena tentar!


NOTA: O livro A Queda do Céu foi escrito por Davi Kopenawa, liderança yanomami e xamã, junto a Bruce Albert, antropólogo francês. Nesta obra de antropologia e arte, Davi conta a história de seu povo, da floresta amazônica e de sua rica mitologia, buscando ser ouvido pelos brancos, como ele nos denomina. Bruce Albert o ouviu e traduziu suas palavras, que finalmente chegaram ao "Ocidente civilizado".

O prefácio do livro foi escrito por Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro e está disponível na rede: https://acasadevidro.com/2016/03/16/o-recado-da-mata-eduardo-viveiros-de-castro-prefacia-a-queda-do-ceu-de-davi-kopenawa-e-bruce-albert/


2 comentários:

  1. Sim, minha cara, vale a pena tentar, ainda que elas, as palavras, não nos ocorram. Vale a pena saber que ainda há gente que nada contra a maré!

    ResponderExcluir
  2. Uma outra língua há de ser inventada, outras palavras para dar vazão ao que vem. Certamente virá. abraço e grata pela sua presença nos encontros!

    ResponderExcluir