sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Das árvores que choram o desespero da humanidade

Ouvimos notícias sobre a destruição do planeta Terra o tempo todo, pelo menos há cerca de 40 anos. Não só ouvimos como também somos participantes dessa destruição. Poderíamos ter aprendido a usar os recursos de nosso habitat de outro modo, mas temos escolhido a ambição desmedida aliada ao consumo excessivo. As consequências disso estão em curso, não é preciso muita explicação.

Obviamente que ficar procurando culpados não é nada produtivo, pelo contrário, tende a aumentar nossa impotência e gerar um clima de ódio. Discursos que colocam todas as responsabilidades apenas no indivíduo não são lúcidos, são empobrecedores na medida em que não consideram a sociedade em suas relações de poder. Por outro lado, responsabilizar apenas as instituições políticas e governamentais ou os sistemas privados capitalistas que constituem o tal mercado financeiro, incluindo a mídia, contribui com um posicionamento de fuga e omissão. Ainda ouço: “não adianta fazer nada, é perder tempo querer mudar alguma coisa nesse mundo.” Ou: “aqui em Piracicaba a crise da água não vai chegar porque o abastecimento não vem do sistema Cantareira.” Estranhas considerações, me parece.

Felizmente encontrei na internet uma psicóloga que vem ampliando seu trabalho como cidadã e profissional, articulando inclusive sua pesquisa em psicanálise com o universo da política. Camila Pavanelli de Lorenzi produz o Boletim da Falta D’Água em SP - http://boletimdafaltadagua.tumblr.com/ -, tendo sido entrevistada por Eliane Brum, uma das jornalistas mais admiráveis que acompanho pela rede. Seu texto chama-se Vamos Precisar de Um Balde Maior e foi publicado no El País:  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/02/opinion/1422883484_909975.html.

Como provavelmente a maioria das pessoas, eu também me sinto aflita com diversas questões que compõem o cenário da vida contemporânea, até porque sei que a árvore que não temos afeta nossas vidas, a praça que não ocupamos afeta nosso pensamento e o vizinho que não conhecemos também afeta nossa amorosidade. Sofremos psiquicamente ao sermos afetados por tudo o que está ao nosso redor, até porque constituímos esses afetos, somos coparticipantes nesta jornada diária que constrói e destrói a vida ao mesmo tempo.

Uma das cenas que mais me afetou/abalou nestes últimos dias, dentre inúmeras tão chocantes, foi a de extermínio e assassinato das árvores centenárias de Piracicaba. Um projeto de desumanidade tamanha vem sendo desenvolvido há anos pelos gestores públicos que deveriam ser responsáveis por preservar o meio ambiente da cidade. Ao invés de cuidar do patrimônio histórico ambiental que são essas maravilhosas árvores do nosso espaço público, as autoridades, alegando motivações técnicas totalmente questionáveis, matam sem piedade. Uma grande parte da população continua a se perguntar, pelo facebook: por que?

Eduardo Viveiros de Castro, um importante antropólogo brasileiro, junto a outros pesquisadores de comunidades indígenas, vem afirmando a necessidade de aprendermos com os índios a olhar e cuidar da vida na Terra. Precisamos entender, individual e coletivamente, que nós somos os estrangeiros (segundo Camus), não a natureza (embora façamos parte dela também). Portanto “nós passaremos”, as árvores não, mesmo que sejam incessantemente assassinadas. O problema é que o fato de matá-las acelera nossa passagem, por isso imagino poeticamente que elas chorem por nós, por nosso desespero com a falta de água e de ar saudável, como choraremos pela ausência delas.

E como somos muitos os indignados e afetados, deixo registrado um dos links de ativistas incansáveis: https://www.facebook.com/institutoaimara.interessesdifusos. Há muitos outros, é só começar a procurar e participar!




2 comentários:

  1. Triste. Por segundos, me transfigurei em uma árvore e ironicamente, me imaginei comentando: " e ainda dizem que são seres evoluídos..."

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