quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A insanidade e incivilidade do ódio

Posso estar enganada, mas tenho percebido que todas as pessoas que têm o mínimo de bom senso estão assustadas com o nível de ódio que os brasileiros estão demonstrando nas redes sociais e no trato cotidiano com seus pares, especialmente se estes forem diferentes do esperado. Caso o parente tenha votado em um candidato que não é o escolhido pela família, caso o colega de trabalho pense de maneira distinta dos outros ou seja nordestino, encontra-se em posição de vulnerabilidade a insultos de toda a ordem. Ou seja, apenas por não se encaixar em um determinado padrão de pensamento ou de origem étnico geográfica, digamos assim, uma pessoa pode ser ofendida e literalmente xingada nas timelines da internet ou no supermercado da esquina.

Por esse motivo, eu, que há dois anos participava do facebook, já não participo mais (a não ser pela Clínica Recriando Vínculos Psicoterapia). Ouço relatos sobre as outras redes sociais, que parecem estar ainda mais odiosas, contaminadas por discursos racistas e xenófobos proferidos pelos pseudo jornalistas de plantão, que lucram com a guerra diária de um povo como o nosso. Entendo que, neste momento histórico tão delicado, a mídia é, de fato, a grande responsável por produzir estas situações de incivilidade social.

Não quero dizer que o ódio seja inumano, que as revistas e os jornais do país estejam fabricando os sentimentos das pessoas.  Não se trata disso. Nós, seres humanos, somos excelências em odiar. É do ódio que criamos guerras, que matamos uns aos outros, que nos violentamos todos os dias, que aprisionamos os animais, que desprezamos os mais fracos.

Sabemos que o ódio faz parte do espectro de emoções de toda pessoa, assim como o amor. Uma mãe pode odiar seu filho, um aluno sua professora e vice versa. Os casais muitas vezes vivem uma relação de ódio, mais do que de ternura, e a tragédia se anuncia quando o tal ódio torna-se a tônica de um casamento ou a inspiração para as atitudes de uma nação. Exemplos não faltam, creio não ser necessário citar a primeira e a segunda guerra mundiais, frutos de disputas territoriais e da xenofobia em relação ao povo judeu e a muitos outros povos. Infelizmente, o ódio é uma das marcas da nossa humanidade, desde seus primórdios.

Acreditávamos que, na medida em que nos tornássemos seres civilizados, poderíamos aprender a lidar melhor com o ódio, de modo a nos destruirmos menos. Não foi o que se viu no século XX, não é isso que estamos vendo agora.

Com grande contribuição de uma boa parcela da mídia, que estimula o ódio nos cidadãos, estamos adoecendo. Porque para mim, sinceramente, a intensidade deste ódio já está no limite da sanidade possível de um ser humano. Em algum momento dos últimos dias, lendo frases e comentários absurdos na internet, imaginei que estamos todos fazendo parte de um enorme sanatório, povoado de loucos que ficam gritando, sem conseguir qualquer comunicação um com o outro. Por isso acho necessário parar e refletir, olhar “de fora” as situações nas quais as pessoas (ou nós mesmos) gritam, xingam e brigam. Tenho certeza que, se fizermos isso, sentiremos vergonha, posto que já tivemos alguma experiência de civilidade, de convivência e educação decentes. Além disso, nunca é demais retomar a leitura dos filósofos que nos ajudam a pensar a modernidade, como Walter Benjamin, Hannah Arendt e Michel Foucault.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dia dos Professores


Em comemoração ao Dia 15 de Outubro, 
data que homenageia nossos queridos professores e educadores.
Ou ainda, nossos insistentes sonhadores!

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Um novo olhar para a infância


Um dos livros mais belos que já li em toda a minha vida foi A Desumanização (2014), escrito por Valter Hugo Mãe, grande autor português reconhecido internacionalmente. É a história de uma menina de 11 anos que vive na Islândia e perdeu a irmã gêmea. Toda sua família sofre com a morte desta criança, chamada Sigridur, “a criança plantada” que “não podia voltar”. A narrativa do livro é tão épica quanto trágica e lírica, encantando os leitores que amam poesia.

Halla, a irmã sobrevivente que conta a história (o romance foi escrito em primeira pessoa), é a heroína deste mundo desumano em que vivemos. Sua redenção, se é que existe, são as palavras, os poemas do pai, os livros e a possibilidade de fugir do lugar onde vive.

O sofrimento e a solidão de Halla nos toca profundamente, a menos que não sejamos mais humanos. Halla representa ao mesmo tempo a dor da humanidade e a busca pela vida. Impossível não nos identificarmos com essa magnífica personagem, impossível não pensarmos na infância como um período trágico e no ser humano como um ser cruel.

Há décadas trabalhando e acompanhado crianças, como terapeuta e educadora, de várias classes sociais, sinto-me privilegiada por estar com elas. Infelizmente, o sofrimento que as oprime, em geral não é considerado nem valorizado, a não ser sob a ótica da medicalização, que visa rotulá-las para poupar os adultos de suas responsabilidades, além de inflar os lucros da indústria farmacêutica.

Apesar disso, as crianças resistem, rebelam-se, as vezes gritam e esperneiam, outrora se calam para dizer o que precisam, como o menino Tochtli, personagem principal do livro de Juan Pablo Villalobos, Festa no Covil (2010). Lembro-me da frase de uma menina de 9 anos, pronunciando-se em segredo e em prantos: “os adultos pensam que ser criança é fácil, mas eles não sabem como a gente sofre.”

Não sabemos, não queremos saber, não lembramos de nossa própria infância? O que fizemos dela? É certo que cada um de nós fez da infância e faz da vida adulta o que é possível, mas como seria bom se fôssemos mais sensíveis à visão das crianças, às suas necessidades afetivas e às suas ações! Seria ainda melhor se parássemos de idealizar essa fase da vida e agíssemos de maneira mais adequada, permitindo que nossas crianças sejam apenas crianças.

Penso que assim seríamos adultos muito mais humanos e teríamos crianças muito mais felizes.