terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Para um novo ano

Nada de lição de moral, nem torturas mentais ou conselhos à moda auto-ajuda.
Não.
É tempo de relaxar e quem sabe refletir, sentir algo que possa tocar.
Cada qual com suas dores, angústias e alegrias.
Cada qual com seus desejos, alguns realizáveis e outros nem tanto.

Pudéssemos todos nos compreender melhor uns aos outros,
Nos olhar nos olhos uns dos outros,
Nos abraçar com ternura ou nos afastar com carinho, quando necessário.

Talvez ainda possamos, afinal estamos aqui,
juntos e solitários ao mesmo tempo,
tristes e felizes, estranhos e perversos.

Assim é um pouco de nós - ou não??
Para começar de novo, para sonhar mais uma vez um novo ano...

E nele viver tão somente o que for possível!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Manifesto pela criança

Participe da Campanha PUBLICIDADE INFANTIL NÃO.

Em defesa da cidadania e dos direitos da criança, um manifesto, que já conta com o apoio de 72 entidades, aguarda a assinatura de todos aqueles que ficam indignados com os abusos cometidos à infância, sem qualquer punição e dentro da legalidade.

Acesse http://www.publicidadeinfantilnao.org.br/ e proteja seu filho, contribuindo para que ele seja valorizado pelo que é, mais do que pelo que possui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Publicidade e consumo na infância

Para todos os pais e educadores preocupados com os excessos do mercado, no que diz respeito ao consumo infantil, vale a pena conhecer o Instituto Alana e seus projetos, através do site http://www.alana.org.br/.

Sabemos que a publicidade infanto-juvenil é impiedosa, fazendo uso abusivo de imagens que seduzem passivamente os pequenos e grandes consumidores. Basta observar a TV para constatar que até propagandas de carro estão sendo dirigidas às crianças atualmente.

Muitas pesquisas apontam, inclusive, a obesidade, a agressividade e a erotização precoce como conseqüências do marketing mal intencionado, patrocinado por empresas cujo interesse está focado no lucro, tão somente e a todo custo.

Resta-nos cumprir o papel de tentar proteger as crianças e os adolescentes, visto que a legislação brasileira não o cumpre. Diferentemente dos países mais desenvolvidos, nossa legislação é totalmente condescente com os interesses da publicidade e das grandes empresas.
Lamentável para as crianças, trabalhoso para os adultos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Drogas: para o bem ou para o mal?

Para refletir com seriedade sobre os problemas que envolvem a temática das Drogas, é preciso redimensionar a principal questão: de quais drogas estamos falando e para que elas estão sendo utilizadas.

Matéria da revista Super Interessante deste mês, A Pílula da Inteligência - A nova geração de drogas pode dar superpoderes ao cérebro, será que devemos tomá-las? - reafirma deliberadamente o paradigma da medicalização de nossa sociedade, apoiada por diversas indústrias farmacêuticas ( o site do fórum sobre o artigo exibe links de seus patrocinadores, é só clicar http://super.abril.com.br/forum/204670_assunto.shtml para conferir)

Do mesmo modo que a indústria da beleza prosperou, sinaliza prosperidade também a farmacêutica do cérebro, vendendo ilusões e milagres grosseiros, sem qualquer ética ou pudor. Médicos neurologistas sérios não cansam de proclamar: medicar sim, medicalizar não. Qual a diferença entre as duas práticas?

Medicar significa utilizar uma droga com finalidades terapêuticas, pautada em condutas criteriosamente definidas. Medicalizar ou patologizar implica em abordar todos os problemas humanos pela ótica da doença, mesmo que não sejam, o que, por conseqüência, vem propiciando uma certa banalização de diagnósticos e indicações terapêuticas medicamentosas.

Para qualquer que seja a angústia ou o medo ou a dor, há algum remédio-droga no mercado. Como se essas drogas autorizadas não tivessem o potencial de vício que as drogas ilícitas têm...
As drogas produzidas pela indústrias farmacêuticas podem trazer tanto prejuízo quanto as drogas dos traficantes, todos sabemos disso. O problema, como o compreendo, é aceitarmos com poucos questionamentos aquilo que as drogas em geral vendem, pílulas da super inteligência, pílulas da felicidade ou da super potência: como o próprio nome diz, através das drogas teremos o prazer sem fim, o sucesso sem custo e, com certeza, a vida sem alma.
Será? Pra que?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Infância e Patologização: crianças sob controle

Muitas crianças estão sendo submetidas a uma prática terapêutica que medicaliza excessivamente a infância, propiciando que diversos comportamentos e dificuldades, principalmente quando relacionados à escola, sejam abordados como doenças, síndromes ou transtornos. Essa lógica patologizante parece dominar o olhar dos profissionais, tanto na área de educação como na de saúde.
Com a finalidade de prevenir a patologização das nossas crianças e adolescentes, chamando à responsabilidade os cuidadores, adultos, educadores e profissionais, o Conselho Regional de Psicologia de SP promove, em Campinas, um importante Debate: A Patologização e Seus Reflexos sobre o Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes.
O Encontro será no próximo dia 7/11, 8:30 h, na Subsede de Campinas (19-3243-7877) e reunirá médicos pediatras, neurologistas, psicólogos e educadores.
Parece ser urgente a necessidade de criarmos novos olhares e alternativas, que garantam uma infância tanto mais livre quanto saudável. Afinal, para que servem as camisas de força ou as estratégias de extremo controle?
Será que a contenção química de uma criança colabora para que a sociedade e suas respectivas instituições se sintam mais competentes? Por que? Quem é que realmente precisa se rever e se transformar?

domingo, 25 de outubro de 2009

Em Cena: dificuldades na escola

É um menino inteligente, mas aos olhos dos adultos, não parece.
Sabe levantar pipa, jogar bolinha de gude, andar de bicicleta, desenhar.
Mas não gosta de ficar parado, pensando.
Quando assiste TV, movimenta-se feito macaco no sofá. Quando faz tarefas de escola, não consegue se concentrar. Todos reclamam de sua agitação.
Sua principal cuidadora é a avó, com quem ele briga o tempo todo. Os pais ficam fora, trabalhando.
Na escola, ele quer brincar. Tem 7 anos. É difícil ficar na carteira, prestando atenção na aula.
A professora reclama, os amigos o querem bem. Alguns se chateiam, outros tentam ajudá-lo nas lições.
Certo dia, a professora propõe um jogo diferente, que ele, com muita imaginação, já conhece e domina. É então que todos se surpreendem com as desconhecidas habilidades do menino.

Esta pequena história foi vivenciada por alguns ( ou muitos? ) educadores, na vida real e na ficção do palco psicodramático.
Talvez ela possa nos ajudar a prestar mais atenção nas diversas capacidades que nossas crianças têm, em casa e na escola.
Infelizmente temos o hábito de cobrá-las para que sejam mais responsáveis, organizadas, concentradas em tarefas de conteúdo lógico-formal. Esquecemos da imaginação, da arte, da brincadeira, do contato físico e afetivo, do conhecimento cotidiano através das relações.
Rubem Alves nos ensina que, para ter sentido e valer a pena, a escola precisa estar integrada com a vida, com a aprendizagem que a criança adquire no dia-a-dia: professores e alunos compartilhando um espaço de criação, não apenas de repetição; pais que dediquem tempo aos filhos, não somente para exigir, mas também para ouvir, abraçar, jogar, passear, brincar...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Agentes do Brincar

No sentido de valorizar a criança como sujeito, um ser que pensa, sente e cria, não apenas um objeto de nossa época, apóio neste espaço iniciativas que promovem a cultura da infância. Por isso, registro abaixo o projeto Agentes do Brincar, que vem sendo divulgado pelo movimento Aliança pela Infância.
A Cooperapic e a United Way Brasil convidam para participar do projeto educativo Agentes do Brincar que será desenvolvido em parceria com a IPA Brasil Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e apoio da Uni Ítalo.
Este projeto tem como eixo principal o reconhecimento e a valorização do brincar e das atividades lúdicas como primordiais para o desenvolvimento infantil.
O Agentes do Brincar tem por objetivo facilitar o aprendizado e a descoberta da importância do brincar, utilizando a metodologia da Ludoeducação, pois possibilita o desenvolvimento de ações sócio-culturais e lúdicas, utilizada para desencadear processos de educação não-formal com a finalidade de suprir novas necessidades sócio-educativas, que o sistema formal não pode atender.
Esta metodologia abrange a utilização de linguagens artísticas e lúdicas, que possibilitam a valorização multicultural de aspectos que envolvem as ações direcionadas à promoção da cultura da infância.
Informações: Aliança pela Infância www.aliancapelainfancia.org.br

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Convite: Diálogos Educativos

Escolher um tema para discutir e propor vivências grupais é algo extremamente difícil, principalmente quando diz respeito a todo o universo que envolve crianças, adolescentes, pais e professores.
O tema Dificuldades na Escola é bastante pertinente devido ao número de situações que acompanhamos cotidianamente, envolvendo as duas instituições, família e escola.
Fobia escolar, agressividade, stress, problemas de aprendizagem, conflitos de relacionamento e indisciplina são apenas algumas das freqüentes queixas proferidas por todos os atores mencionados: crianças, pais e professores.
Buscar alternativas para compreender estas questões, para refletir sobre elas através do diálogo e do conhecimento, pode ser um caminho interessante que exige, porém, disponibilidade e abertura a novas percepções.
Temos ou não tal responsabilidade?
É possível que sim, que cada um de nós, dentro do seu papel - tal como no teatro -, seja responsável pela sua própria atuação, participando também da atuação do outro e com ele se tornando co-responsável pela dinâmica do grupo.
Em cena, portanto, a escola com seus conflitos, com suas dores, suas angústias e possibilidades. Seus dilemas, suas soluções. Um espaço, de todo modo, de socialização, aprendizagem e muitas paixões, encantos, mistérios.
O convite estende-se a todos os interessados. Solicito atenção para o quadro situado na lateral do blog.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cultura e Identidade

Brichos (www.brichos.com.br ) é um desenho animado nacional, dirigido por Paulo Munhoz e Antonio Éder, de classificação livre, com 77 minutos de duração. Foi exibido nos cinemas a partir de 2006 e está disponível para compra em DVD, junto com o livro, obra literária em quadrinhos.
O filme é o primeiro longa metragem paranaense de animação, apresentando ao público uma história muito interessante, na qual os personagens principais - Tales, Jairzinho e Bandeira, filhotes de jaguar, quati e tamanduá - aprendem a lidar com seus conflitos de identidade, pesquisando as origens de seus familiares e criando, assim, novas relações entre pais, filhos, professores e alunos.
Em entrevista, o diretor Paulo Munhoz afirmou que a criação do filme teve como ponto de partida a fauna brasileira, desvalorizada por nós e pelas diversas mídias que fazem parte de nosso cotidiano.
Devido a uma série de condicionamentos sociais, em geral achamos mais interessantes filmes, desenhos e outros produtos que vêm dos EUA. Perdemos, dessa maneira, a possibilidade de perceber e refletir sobre nossa própria identidade cultural.
Brichos significa Bichos Brasileiros, nome de uma vila em que alguns de seus jovens habitantes buscam conhecer a própria história, pesquisando o passado sem perder as referências da modernidade e nos ensinando, também, que indivíduo e grupo se relacionam necessariamente. Não há como pensar a formação da identidade de uma pessoa sem levar em conta a cultura na qual ela vive.
Neste e em muitos outros aspectos - relacionamentos, autoridade, violência, meio ambiente - o filme é absolutamente feliz, cultivando novos olhares e atitudes através de uma linguagem que fala tanto para crianças quanto para adultos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Dos vínculos nossos de cada dia, um pouco de poesia...

Nas ondas do mar, que vão e vêm ininterruptamente, residem as palavras que compõem canções de textos descontínuos, abertos a possibilidades, dispostos a olhares múltiplos.
Melodia nem sempre terna, as vezes melancólica ou rancorosa... essas canções que buscam, contudo, a beleza da dor.
Entre pais e filhos, entre homens e mulheres, entre amigos e inimigos, não poderia ser diferente: a música revela-se ora serena, ora tempestuosa, marcando compassos de ritmos por vezes irreconhecíveis.
Não é possível dar conta. O movimento das ondas jamais será interrompido, mas nós podemos contemplá-las e, se quisermos, nelas mergulhar para, quem sabe, encontrar algumas conchas preciosas.
Conchas de vida, conchas coloridas ou solitárias que então podemos guardar para nós, apenas por um tempo...
Em outro tempo, corajosamente precisamos devolvê-las ao mar.
Se no mar mergulhamos - incerto, louco, sem direção, indo e vindo com as ondas que dele fazem parte -, experimentamos o acaso, o ir e vir, as vezes cíclico, outrora incerto, duvidoso.
Na tarefa árdua, contínua e diária de construirmos nossas vidas e nelas nossos vínculos, nossos olhares, pensamentos e emoções... vamos e voltamos para dentro e fora de nós mesmos, encontrando pérolas e ostras perdidas pelo espaço e pelo tempo.
Procuramos ordená-las um pouco mais, somente até onde for possível, para compreendê-las, para apreciá-las, para compartilhá-las com outros no decorrer da caminhada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Adolescência: partilhando a solidão


É preciso olhar com mais cuidado para nossos adolescentes.
Temos muitas informações sobre adolescência: uma fase de mudanças, de novas referências, de grupalização, de enfrentamento e timidez ao mesmo tempo, de encantamento com a sexualidade, de desejos e frustrações intensas. Apesar disso - ou até por isso -, não sabemos como lidar, como escutar ou mesmo falar com os adolescentes.
É urgente a necessidade de se criar canais de comunicação, incentivando os adolescentes a dizerem como vêem o mundo e o que dele esperam, como sentem a vida e o que pensam do futuro, como vivenciam as relações de amizade e de paixão.
Através de diversos tipos de grupos, seja na escola, na academia, na balada ou em família, os adolescentes criam uma forma própria de se comunicar, que não prescinde, no entanto, da atenção e do acompanhamento dos adultos. Podemos e devemos tentar compreendê-los, mantendo-nos perto e longe, firmes e afetivos, fortes e frágeis.
Muitas vezes cobramos dos adolescentes posturas mais maduras diante dos problemas que a vida traz, mas não oferecemos recursos suficientes para que eles aprendam ou se disponham a enfrentar as dificuldades.
Optamos, nem sempre conscientemente, pela solidão, que pode muito bem ser saudável em determinados momentos, mas que torna-se motivo de grande angústia quando impede constantemente o compartilhar. Cada um em um quarto, cada qual no seu mundo.
Estar junto, partilhar as dores e sofrimentos, as alegrias e as vitórias, com palavras ou em silêncio, com gestos e olhares, com dúvidas, medo e vergonha ( muita vergonha! ), é ainda um caminho possível, uma trilha de pedras e cacos que pede nossa presença, paciência e amor.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Orientação: o papel dos pais

Em nossos tempos, também a educação tornou-se um produto a ser vendido, consumido ou terceirizado. Muitos pais, inclusive, estão confusos frente a ausência de parâmetros para educar seus filhos. É preciso saber, no entanto, que filhos necessitam de pais presentes e disponíveis, desempenhando, tanto quanto possível, o papel que lhes cabe.

· A relação com os filhos deve ser pautada na autoridade: podemos ser amigos, e é desejável que sejamos tolerantes e pacienciosos, mas também devemos ser firmes e assumir o nosso papel de orientador e guia.
· Compete em primeiro lugar aos pais ensinarem as regras básicas de convivência humana: valores como respeito, disciplina, educação e colaboração precisam ser resgatados.
· Todos os pais deveriam refletir sobre o que querem para seus próprios filhos: como desejam que eles se comportem, que valores gostariam que tivessem e em que mundo poderiam viver; a educação deve ser baseada nesses princípios, e não no que diz e oferece a televisão.
· Permitir que os filhos façam tudo o que desejam gera muita insegurança; freqüentemente uma criança ou um adolescente sem limites sofre de carência afetiva e é rejeitado em muitos grupos sociais.
· Buscar certo equilíbrio na relação de autoridade com os filhos: o não e o sim devem conviver juntos.
· Deixar sempre muito claro as regras e os limites da vida em família: o que pode, o que não pode, quando, com quem, onde... com abertura para mudanças, é claro.
· Permitir o questionamento, respondendo os porquês e os “para quês”; evitar a imposição arbitrária, procurando negociar de forma democrática as decisões importantes.
· Ser exemplo de atitudes desejáveis, praticando-as; ser persistente e retomar determinados assuntos tantas vezes quanto for necessário.
· Buscar o diálogo, expressando com franqueza seus próprios valores, angústias e medos; não perder o afeto, valorizando o que a criança tem de bom.
· Reservar o máximo de tempo possível para estar com seu filho: passear, brincar, trocar idéias, curtir a vida, enfim.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Paternidade e Relações Familiares

Não é tarefa fácil refletir sobre o papel de pai em nossa sociedade. O movimento e a dinâmica da história da humanidade criaram configurações familiares outrora impensáveis. É preciso reconhecer que, nos dias de hoje, há diversas maneiras de ser pai, de cuidar dos filhos e de constituir uma família.
A família tradicional e eterna, que se conserva a todo custo no tempo, não é mais soberana. Temos então muitos pais separados e filhos que habitam pelo menos duas residências. Novos laços amorosos, estáveis ou não, são criados, resultando muitas vezes nas chamadas famílias reconstituídas. São casais que já têm filhos de relações anteriores e por isso mesmo desempenham também o papel de padrastos ou madrastas.
Casais adolescentes de namorados desenham ainda outros formatos de organização familiar, ao morar com seus próprios pais para cuidar dos filhos que vieram sem planejamento. Constatamos aqui a forte presença dos avós na educação das crianças.
Poderíamos incluir, nessa breve descrição, as famílias lideradas por mulheres, nas quais a figura do pai inexiste, e também as famílias homo afetivas, cujo casal é formado por pessoas do mesmo sexo.
O cenário é amplo, revelando a enorme diversidade da instituição familiar contemporânea, na qual se desenvolvem vínculos parentais importantes, dentre eles os vínculos de pais e filhos.
É inquestionável que tais vínculos também vêm se modificando, propiciando maior aproximação afetiva entre os filhos e seus pais, para além das mães. Na medida em que estas desempenham mais papéis do que antigamente, principalmente no mercado de trabalho; na medida em que o universo familiar foi adquirindo novas configurações, abriu-se um novo leque de funções para o homem que desempenha o papel de pai: ele também pode e deve cuidar dos filhos, tanto quanto a mãe.
Paternidade, nesta perspectiva, não significa apenas assumir os filhos como seus, provê-los e sustentá-los, mas inclui o exercício da maternagem, algo que implica em carregar os filhos no colo, fazê-los dormir, acompanhá-los na escola, ajudá-los a comer. Cada pai a seu modo, a partir de sua própria disponibilidade e da rede de relações que participa.
Quando pais e filhos têm a possibilidade de compartilhar essa experiência, a vida torna-se mais colorida. O exercício pleno e espontâneo da paternidade enriquece os vínculos familiares, oferecendo aos filhos, especialmente, outras referências de afetividade, de atitudes e de relacionamentos.
Nosso mundo, tão carente de criatividade, agradece. Nossas crianças também. Afinal, não devemos nos esquecer de que, para elas, os pais continuam a habitar um lugar sagrado no reino da imaginação: o lugar de super-heróis, detentores de super poderes, para fazer o bem ou o mal. A escolha, sabemos, é nossa.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A cultura do medo

Um dos teóricos mais conceituados da atualidade é Zygmunt Bauman, sociólogo de grande prestígio e intensa produção intelectual. Livros como Medo líquido, dentre outros ( Modernidade líquida, O mal-estar da pós-modernidade ), investigam os males que atormentam nossa cultura, a ponto de nos tornar reféns de nosso próprio tempo, de nossa própria época.
Como entender o adiamento do retorno às aulas no estado de SP ( e em outros ), com amplo apoio popular ao que parece, visando o controle do vírus da gripe suína?
Para Bauman, a contemporaneidade é regida pelo medo. Vivemos sob o medo, a partir do medo, controlados pelo medo e também alimentados por ele. Apesar de tanta tecnologia, de tantos recursos criados pela humanidade para gerenciar o mundo, sentimos muito medo, somos demasiadamente vulneráveis.
Talvez sejamos ainda mais inseguros do que nossos antepassados, posto que não somos capazes de conviver com a natureza, respeitando-a e aceitando-a. Ao mesmo tempo, fabricamos incessantemente artifícios que imitam as árvores, as plantas, os rios e os animais. Basta observar que dentro de um shopping, hoje, existem pequenas florestas artificiais, voltadas para o lazer das crianças.
Ao nos desconectar do que chamamos natureza, nos desconectamos também das estações do ano, da terra no parque que suja as mãos, das flores que nascem sozinhas no mato, dos olhos que falam uns aos outros.
Na cultura do medo, as pessoas não se olham mais, não falam “bom dia” ou “boa tarde”. Cumprimentar é ameaçador, conhecer o outro pode ser perigoso. Aliás, é esse o paradigma: o outro como uma ameaça constante, um perigo mortal.
Em nome de nossa própria segurança, vamos aprendendo que precisamos nos precaver, nos prevenir, principalmente se o outro carregar a possibilidade de nos transmitir um vírus que ainda não conhecemos. Vale lembrar, também em nossa cultura, do medo e do controle, tudo aquilo que desconhecemos é aterrorizante: quanto menos conhecido, mais apavorante.
É neste “caldo cultural”, neste contexto histórico, que podemos então situar a espetacularização da malfadada gripe suína. Poderia ser outra coisa, ontem foi o terrorismo, amanhã, o que será?
A mídia expõe, apela, repete sem cessar os números e as imagens. Autoridades se manifestam publicamente; nós recebemos informações contraditórias, internalizamos e reagimos conforme o esperado, ou seja, conforme os valores da cultura do medo.
Sem perceber, nos encontramos em pânico, alimentando um sistema que se nutre do próprio produto que cria: o medo.
Vale a pena?

Andrea R. Martins Corrêa

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O educador facilitador

No nosso mundo contemporâneo, repleto de informações e estratégias de controle a todo momento, é difícil ser um educador facilitador, seja no papel de pai, mãe ou professor.
Somos estimulados, pela própria cultura na qual vivemos e participamos, a dar respostas para todas as perguntas, de preferência respostas que não exijam muita reflexão.
Somos incentivados a explicar racionalmente os fenômenos que nos interessam, sem uma investigação mais sensível e profunda. Dessa maneira, muitas vezes sem perceber, não permitimos que nossas crianças e adolescentes desenvolvam a própria inteligência e criatividade.
Para compreender o mundo e descobri-lo, é preciso ficar angustiado, ter ânsia de pesquisa, num ambiente que acolhe a curiosidade e a busca constante pelo conhecimento. Não me refiro ao conhecimento pronto, mas aquele que se constrói na experiência, na interação.
Normalmente somos nós que ficamos ansiosos com as questões que nos são colocadas, pois entendemos que somos obrigados a responder prontamente a todas as situações. Temos muita pressa e com certeza acabamos por matar nossa própria espontaneidade.
Seria muito mais interessante se pudéssemos possibilitar, a nós e aos outros, momentos mais significativos de dúvidas, dispondo-nos apenas a sentir ou refletir sobre algo que nos inquieta, como faziam os filósofos antigos.
Nossos filhos agradeceriam, nossos alunos aprenderiam que deles depende o conhecimento e nós estaríamos mais próximos daquilo que se considera um educador facilitador.
Alguém que sabe que não sabe tudo e, até por isso, está sempre aberto ao outro, mesmo que este outro seja uma criança correndo atrás de uma pequena formiga...

Andrea R. Martins Corrêa

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Obra aborda Psicodrama e Educação

O texto abaixo foi escrito pelo colega e jornalista Rodrigo Alves, publicado em 5/07/2009 no Jornal de Piracicaba, por ocasião do lançamento de um livro sobre Psicodrama e Educação, do qual participo. Pela pertinência do tema e qualidade da matéria, resolvi publicá-lo aqui também.

Em de junho de 1989, um restrito grupo de alunos e professores se reuniam em Tietê para a formação da Escola de Psicodrama. Ali, estudavam as possibilidades de aplicação da educação emancipadora, método que propunha a mudança na relação professor e aluno e que hoje possui muitos adeptos. As vivências daquele momento e as análises dos resultados se transformaram no livro Psicodrama e Emancipação — A Escola de Tietê, organizado por Moysés Aguiar e com participação da psicóloga e psicodramatista piracicabana Andréa Raquel Martins Corrêa.
Dividida em 31 capítulos, a obra possui a colaboração de 30 autores, todos envolvidos com a pesquisa e aplicação do psicodrama — conhecido também como teatro espontâneo —, na tentativa de estabelecer uma relação de aprendizagem em que o aluno não precisava se submeter à autoridade e ao controle do professor e da instituição escolar.
Por ter estudado na Escola de Tietê entre os anos de 1995 e 1997, Andréa é a responsável pelo sétimo capítulo do livro, intitulado Teatro Espontâneo, Vida e Integração, em que ela discute a possibilidade de aplicação do que era transmitido na escola com a atuação profissional. "No capítulo, trato da prática da escola, da importância do trabalho pedagógico que ela propunha para quem fazia a formação na área. Discuto que muitas vezes era difícil sair de lá e encontrar formas de integrar o teatro espontâneo na prática", cita Andréa, que é também psicóloga e completou seus estudos no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas.
Para Andréa, a escola se configurava como um espaço de criação e liberdade, justamente porque o conhecimento era produzido de forma coletiva, seja por seminários, vivências, debates ou oficinas. "Novos horizontes e novas perspectivas foram criadas pelo teatro espontâneo: era necessário aprender a experimentá-los na vida", diz o texto escrito por ela, que mais à frente cita uma das dificuldades: "Clientes nos procuram, no consultório, para se tratar; alunos vão à escola para aprender, não para brincar, infelizmente", ao lembrar que o teatro espontâneo buscava romper com determinados padrões de conhecimento.

ACEITAÇÃO: Em entrevista por e-mail ao Jornal de Piracicaba, Aguiar cita que o livro mostra que na ocasião da criação da Escola de Tietê já havia a aplicação das técnicas psicodramáticas que hoje são consideradas as mais avançadas. "A principal delas é a mudança na relação professor/aluno. O professor contemporâneo é um facilitador do processo de aprendizagem, considerando o aluno como um sujeito que não precisa de tutela, que já é emancipado desde o começo e que tem no mestre um apoio para fazer bom uso de sua liberdade", garante.
"Participei do movimento psicodramático exatamente na época em que alcançou o ponto mais alto de expansão, do ponto de vista da quantidade de adeptos. Mas muitos se entusiasmaram como ‘fogo de palha’. Com o tempo houve uma diminuição numérica e um aumento da qualidade. Hoje parece que as duas vertentes se encontram. A aceitação social depende muito da seriedade com que se faz o trabalho, que vence resistências quando consegue provar a que veio", explica Aguiar.

SERVIÇO — Psicodrama e Emancipação — A Escola de Tietê, com organização de Moysés Aguiar. Editora Ágora, 440 páginas. R$ 76,90.
Mais informações: (11) 3865-9890 ou pelo site www.editoraagora.com.br. Dados enviados pela assessoria de imprensa da editora.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Gestação - Criação


Um Momento Especial
A gestação pode ser vivida como uma fase de crescimento, transformação e criatividade, preparando os pais no desempenho dos papéis de pai e mãe.
Muitas expectativas acompanham esse momento diferenciado, gerando alegria e tristeza ao mesmo tempo, angústia e êxtase, medo e liberdade.
É importante compreender e acolher os diversos sentimentos, fantasias e emoções que participam da gravidez, modificando a vida e as relações entre as pessoas.

A Conquista Partilhada
Inicialmente o bebê e a mãe formam um só ser, que permanece junto e inseparável. Mas é preciso incluir o pai, com seus direitos, deveres e afetos para com o próprio filho.
O filho em gestação merece ser amparado por uma rede social adequada, que ofereça suporte afetivo aos pais, a fim de que estes possam desenvolver a maternidade e a paternidade da melhor forma possível.
Ser pai e ser mãe é uma tarefa de grande responsabilidade, mas também de muita ousadia e coragem quando representa crescimento, amor e aceitação para todos os envolvidos.

Vale lembrar
Gestação não é somente a criação de um ser humano dentro de nós. Podemos gestar e criar projetos de vida, obras de arte, amores, dores. Sendo assim, também somos pais e mães de diversas maneiras.
E quando nossos "filhos" nascem, sejam eles textos, pinturas, relacionamentos ou sentimentos, ficamos estranhamente felizes...


Andrea R. Martins Corrêa

terça-feira, 23 de junho de 2009

Convite - Lançamento de Livro


Editora Ágora e Livraria Cultura convidam para o lançamento do livro
Psicodrama e Emancipação
A Escola de Tietê
Organizado por Moysés Aguiar
Dia 2 de julho de 2009, quinta-feira,
das 18:00 às 21:30,
na Livraria Cultura,
Bourbon Shopping Pompeia -
Piso Perdizes
São Paulo
Autores: Albor Vives Reñones, Alexandre Aguiar, Ana Cristina Benevides Pinto, Andrea Raquel Martins Corrêa, Angela Reñones, Antonia Polli de Arruda, Antônio Ramos da Silva, Áurea M. Guimarães, Carla Maria Vieira, Carolina Andaló Fava, Cecilia Masselli, Devanir Merengué, Gelse Beatriz Monteiro, Jamil Aidar, Lisette Laubi Contatore, Marcia Castagna Molina, Maria Elena Garavelli, Maria Eliza Suman de Godoi, Mari Martins, Marisol Watanabe, Miriam Tassinari, Norma Silvia Trindade de Lima, Pedro Mascarenhas, Ralmer N. Rigoletto, Raquel Pastana T. Lima, Regiane Bataglini Michelsohn, Thaís Helena Couto, Vera Aparecida Cunha, Viviane Giombelli.
Nota: O Psicodrama é um método de trabalho que envolve uma filosofia de vida e uma teoria acerca das relações humanas, abrangendo inúmeras técnicas derivadas do teatro. Foi criado pelo médico Jacob Levi Moreno, a partir de experiências realizadas nas ruas e nas praças de Viena, no início do século XX.
A origem do Psicodrama privilegia o trabalho em grupo, possibilitando que as pessoas envolvidas se comuniquem mais adequadamente e se tornem mais espontâneas. Tanto empresas quanto escolas, clínicas, hospitais e comunidades vêm utilizando o potencial do Psicodrama no desenvolvimento da saúde e da educação integral.
O site da FEBRAP ( www.febrap.org.br/) disponibiliza mais informações.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Morte, Perda e Dor

Atualmente, através dos meios de comunicação, acompanhamos diversas discussões sobre como é possível prolongar a vida humana na Terra. Muitos recursos financeiros são investidos em pesquisas científicas, criando tecnologias que possibilitam o aumento da expectativa de vida.
É fato que estamos interessados em viver mais e melhor, mas não podemos nos esquecer de nossa mortalidade, ou seja, somos seres mortais cuja condição existencial de vida é a própria morte.
Falar sobre isso é ainda muito difícil, apesar das constantes notícias sobre guerras, homicídios, acidentes, doenças e outras formas de morrer.
Todos nós vivemos experiências de morte, sejam elas reais ou simbólicas. Muitas vezes nos separamos, por algum motivo, de alguém que gostamos; nossos filhos, ao crescerem, vão embora e sentimos uma grande perda. Planejamos trabalhos que nem sempre conseguimos realizar e acabamos fazendo outras coisas.
Em todas essas situações há um sentimento de morte presente, pois algo foi perdido e, evidentemente, algo pode ter sido conquistado também.
Quando uma morte real ocorre, quando perdemos alguém que amamos muito, o sofrimento é muito mais intenso. O vínculo com o outro é rompido definitivamente e isso é, de todo modo, assustador, pois demasiadamente doloroso.
A dor pela perda de um ente querido é tão insuportável que, pelo menos em nossa cultura ocidental, somos incentivados a não pensar no assunto, a “esquecer” o sofrimento e “viver o presente”, conselhos que, na maior parte das vezes, não contribuem com o processo de luto.
Enfrentar a morte não é negar a dor que ela nos traz, muito pelo contrário, é aceitar essa dor, é poder falar sobre ela, senti-la, acolhê-la, ficar deprimido ou revoltado, chorar, angustiar-se e entristecer-se.
Dessa maneira conseguiremos encontrar novas possibilidades para organizar nossa vida afetiva emocional, adaptando-nos a uma realidade que não escolhemos: o fato imutável e inexorável da morte, parte integrante da vida.

Andrea R. Martins Corrêa

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Homens e Mulheres: o encontro possível

Apesar de ainda existirem muitos preconceitos relativos aos papéis masculinos e femininos, atualmente ambos os sexos desempenham funções muito semelhantes na sociedade: trabalham fora, responsabilizam-se conjuntamente pela educação dos filhos e são sexualmente ativos. Tradicionalmente, porém, quando um homem expressa seus sentimentos é taxado de homossexual. Já as mulheres, mesmo trabalhando fora, ganham salários menores do que os homens, pois “foram feitas para a maternidade”. Não necessitam, assim, da inteligência: são “pura sensibilidade e intuição”.

Mesmo considerando a permanência desses estereótipos no imaginário brasileiro, tanto os homens quanto as mulheres estão buscando novos caminhos para as relações entre si. Ambos são frágeis, mesmo que não admitam.


É nesta capacidade de reconhecer que somos todos frágeis, enquanto seres humanos, que reside a possibilidade do encontro.

Admitir e assumir as próprias carências e necessidades afetivas, buscando nisso a conexão com o outro para, assim, falar uma mesma linguagem, que comunique os valores realmente importantes, as semelhantes ou diferentes angústias, as difíceis e pequenas batalhas do dia-a-dia: tal é a trilha que, seguida em comum, pode efetivamente criar relações amorosas mais dignas e saudáveis.

A partir da compreensão que um pode ter do outro como ser humano que sente, que sofre, que ama e odeia, que inveja, mata ou se alegra, se inspira, se arrepende, nem se entende como gente... é deste ponto enfim, obscuro no seu limite, que a vivência de uma relação que se busca amorosa pode ser transformadora, apontando para a criação de uma vida em comum que tenha sentido e valha a pena.


Mais do que a cena da miséria afetiva de um casal, onde ambos se humilham e se atacam, se agridem e se ferem, a cena mais temida pelo ser humano pode ser a cena da paz: proibida, conquanto desconhecida, sabemos bem, por todos os sistemas, todos os valores e toda a história.
Quase sem registro essa relação que revela, que acolhe, que abarca, que aconchega e se identifica na dor e na felicidade do ser frágil, por vezes abandonado. Essa, talvez, a tão temida relação de amor, onde não cabem mais mentiras e proibições.
É então uma relação de corpos e almas nus, inteiros, entregues um ao outro dentro deste micro universo terrestre.

Andrea R. Martins Corrêa

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Relatos: a escola e seus alunos


Um grupo de adolescentes diz que não quer mais ir à escola. Estão cansados da rotina, dos conflitos e dos estudos. Preferiam que a escola não existisse.
Outro grupo, de crianças, afirma gostar muito de ir à escola para ver os amigos, mas não para estudar. Sentem-se exaustos com tantas lições e avaliações permanentes.
Os relatos sobre a escola são diversos, e podemos ouvi-los dos próprios estudantes quando estamos disponíveis. Relatos sobre brigas, dificuldades de relacionamentos, problemas com professores, exigências disciplinares e provas são constantes. Através deles é possível investigar representações e imagens acerca da escola.
Muitos alunos, tanto do ensino público quanto privado, gostariam que houvesse um número maior de atividades esportivas, recreativas e artísticas no cotidiano escolar. Ressentem-se com o excesso de aulas e matérias, principalmente nos colégios particulares que, em geral, optam por uma aprendizagem mecânica e enciclopédica, privilegiando exigências do vestibular desde as primeiras séries.
O vazio e a ausência de sentido na relação de muitos estudantes com a escola é algo que pode ser constatado. Seja no colégio privado ou público, a desmotivação é a mesma: no primeiro, pelo excesso de lições e avaliações, que chega a deprimir o aluno; no segundo, pelo abandono em que se encontra, de fato, a maioria das escolas públicas.
Como se não bastasse, agora os pequeninos de 5 anos também estão sendo obrigados a ler e escrever precocemente ( quando não antes ), correndo o risco de perder o sabor da infância, ao não exercitar a fantasia, fundamental nessa fase da vida.
Felizmente algumas alternativas têm sido criadas por instituições e educadores sensíveis, que questionam os valores em voga na sociedade.
O site Aprendiz ( http://aprendiz.uol.com.br/ ) é uma ferramenta de pesquisa interessante, que discute problemas da escola pública e busca dar visibilidade a projetos importantes desenvolvidos na educação.
Também venho acompanhando, pessoalmente, o crescimento de uma escola cooperativa, que partilha de outra ótica em relação ao ensino. Escolas como esta têm o mérito de sentir, diariamente, a alegria nos olhinhos brilhantes dos seus alunos.

Andrea R. Martins Corrêa

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Reflexão: Direitos da Criança

É muito triste acompanharmos pela mídia e pela vivência do dia-a-dia o quanto nossas crianças e adolescentes estão expostos a uma sociedade que prima por valores consumistas e individualistas, produtores, por si mesmos, de toda a violência que testemunhamos e também reproduzimos em nossas relações.
O Nono Princípio da Declaração dos Direitos da Criança, que orienta nosso ECA ( Estatuto da Criança e do Adolescente ), afirma:
“A criança gozará de proteção contra quaisquer formas de negligência, crueldade e exploração. Não será jamais objeto de tráfico, sob qualquer forma.
Não será permitido à criança empregar-se antes da idade mínima conveniente; de nenhuma forma será levada a ou ser-lhe-á permitido empenhar-se em qualquer ocupação ou emprego que lhe prejudique a saúde ou a educação, ou que interfira em seu desenvolvimento físico, mental ou moral.”
Isto posto, fico a me perguntar por que o trabalho infantil das crianças mais pobres é tão combatido e o trabalho das crianças na mídia não é. Qual a diferença, por exemplo, entre a criança que trabalha na rua, vendendo balas no sinaleiro, e Maísa, a menina de 6 anos que trabalha no SBT? Será que fazer programa de televisão não é considerado trabalho?
A diversão e o sucesso que Maísa proporciona ao SBT e a muitos telespectadores não só é permitida como também estimulada, atenuando os efeitos da legislação que protege as crianças, ou que deveria protegê-las.
Podemos pensar que é difícil colocar em prática leis que cultivam valores opostos aos de uma determinada sociedade.
Vejamos: a maior parte das pessoas acha muito legal aparecer na TV, ter fama, sucesso e ganhar direito a todo custo, não importa a idade. Talvez a maior parte dos adultos não veja problema algum no fato das meninas, desde bem pequenas, serem incentivadas a dançar, rebolar, usar botinhas e maquiagem. Afinal, “fica tão bonitinha...”
Agrada aos olhos do mundo os pequenos que se inebriam com as câmeras, propiciando, desta maneira, o desenvolvimento de uma espécie de “pedofilia social”, um prazer velado ao contemplar corpos de crianças nas revistas, nos jornais, na TV, nas ruas e muitas vezes nos lares.
Corpos desde muito cedo educados tão simplesmente para isso, para serem objetos do consumo irresponsável de homens e mulheres já crescidos.

Andrea R. Martins Corrêa
Sugestão: conhecer o site
http://www.redeandibrasil.org.br/

sábado, 23 de maio de 2009

A necessidade de Brincar

DEIXE SEU FILHO BRINCAR: CRIANÇA QUE BRINCA É CRIANÇA FELIZ!

De 24 a 31 de Maio será realizada a Semana Mundial do Brincar, que busca dar visibilidade à necessidade de brincar que todas as crianças têm.
O site
http://www.aliancapelainfancia.org.br/ revela uma iniciativa interessante por parte de todos aqueles que estão preocupados com o desenvolvimento das crianças.
Com tão pouco espaço nas cidades, tantos compromissos e exigências, poucas são as crianças que brincam livremente nos dias de hoje.
Precisamos nos lembrar, no entanto, que brincar é a linguagem da criança, ou seja, é a principal forma de comunicação infantil. Por isso, quando desejamos nos relacionar bem com uma criança, podemos brincar com ela ao invés de conversar.
As crianças expressam sentimentos, pensamentos e valores ao brincar; exercitam a imaginação, se socializam e aprendem a se relacionar com o mundo de forma prazerosa.
É muito importante permitirmos que as crianças brinquem. Seria mais interessante ainda se nos dispuséssemos a brincar com elas. É simples: basta reservarmos algum tempinho na semana, encontrar uma brincadeira que agrade tanto a criança quanto a nós mesmos, e brincarmos, tão somente.


Andrea R. Martins Corrêa

terça-feira, 19 de maio de 2009

Educação para a Infância

Os primeiros anos de nossas vidas são muito importantes. Por isso, vale a pena conhecer um pouco as etapas do desenvolvimento de uma criança.
  • O Bebê
    - Desde muito pequenino, o bebê já reage a quase todos os estímulos do ambiente que o cerca. Um barulho muito forte, por exemplo, pode assustá-lo. O som e a imagem da TV não são recomendados, pois podem deixá-lo agitado. No entanto, músicas calmas e tranqüilas, assim como a voz suave da mãe ou do pai, colaboram para que ele se aquiete e se sinta seguro.
    - É importante acariciá-lo e aconchegá-lo ao colo, oferecendo-lhe o máximo possível de contato físico. Desta maneira, ele se sentirá amado. Olhá-lo nos olhos ao alimentá-lo também é uma atitude desejável, bem como conversar e brincar com ele.
    - Os bebês sofrem mais do que se pensa: têm sensações, fantasias e temores inconscientes que merecem toda nossa atenção. Não se deve nunca deixá-los chorar sozinhos, com a desculpa de que ficarão ”mimados”.

  • A Criança Pequena
    - Palavras de ordem: brincar, correr, pular. Conforme vai crescendo e conquistando autonomia com o seu corpo, a criança vai explorando cada vez mais o ambiente. É preciso permitir que ela manipule e brinque com os objetos não perigosos da casa. Normalmente ela se interessa muito mais por estes objetos do que pelos brinquedos que ganha. Ao mesmo tempo, já é hora de começar a estabelecer alguns limites, com carinho, firmeza e sem agressões.
    - Muitos pais não compreendem que a criança pequena é naturalmente “egocêntrica”. O tempo todo divide aquilo que é dela e aquilo que é do outro, as vezes querendo tudo para si. É preciso ter calma e paciência para ensiná-la a ser mais sociável e amável, sem exigências extremas.
    - Neste momento, a criança necessita de muita atenção e elogio dos familiares. Quer se conhecer melhor e precisa aprender a gostar de si mesma. Ao dominar a fala, costuma fazer perguntas incríveis, inclusive sobre sexo. Todas as perguntas podem ser respondidas.

  • Idade Escolar
    - Com 7 ou 8 anos normalmente as crianças já estão na escola há tempos. Porém, é nessa idade que elas deveriam ser alfabetizadas, e não antes. Este é o momento em que a criança conquista um amadurecimento especial, estando mais preparada para assimilar novos conhecimentos na área pedagógica.
    - A criança torna-se mais cooperativa e socializada, com uma noção de regras que antes não possuía. Interessa-se muito pelos amigos, por jogos em grupo e pela convivência que a escola proporciona. É freqüentemente curiosa, e continua a perguntar sobre sexo. Impera, no entanto, o Clube do Bolinha e o da Luluzinha.

Andrea R. Martins Corrêa

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Artigo: A Patologização da Infância

O Conselho Regional de Psicologia (www.crpsp.org.br) vem organizando diversas palestras e discussões para o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, ambos comemorados em 18 de Maio.
Balada dos Direitos: Juntos em Defesa da Vida, é o título do evento, realizado em várias cidades do interior de SP.
Chama a atenção, tanto nas pesquisas apresentadas pelos profissionais quanto no atendimento diário a crianças e adolescentes, a tendência, cada vez mais crescente, de “patologizar” os problemas infanto-juvenis.
Isto significa que dificuldades de aprendizagem, problemas de comportamento, consumismo ou isolamento social vêm sendo tratados exclusivamente como doenças, impondo a prescrição de medicamentos controlados, como os psicotrópicos.
Em nome da proteção e do cuidado, constatamos, dessa maneira, um grande número de crianças, já pequenas - 3 ou 4 anos -, tomando remédios para dormir, ficar calma, estudar, ser mais atenciosa e menos agressiva.
Em relação aos adolescentes, especialmente os que tiveram algum conflito com a lei - uso de drogas, roubo, fuga do lar -, há notícias de que estão sendo internados em hospitais psiquiátricos, através de mandados judiciais, na contramão dos movimentos de luta pelos direitos humanos. Vale destacar a denominação deste processo, algo como a “judicialização” da vida.
Muitos pais e educadores poderiam questionar qual é o problema em medicalizar e patologizar a infância e a adolescência, se de fato os resultados desejados são obtidos rapidamente.
Ou seja, os pequenos ficam mais calmos e os maiores são contidos. A escola não se revê enquanto instituição de ensino e a família se mantém em “harmonia”, livre dos comportamentos transgressores dos filhos. Enfim, toda a sociedade agradece, os jovens “doentes” são excluídos e nós, adultos, não precisamos mais nos preocupar com eles.
Ironias à parte, talvez seja para isso que “camisas de força químico-sociais” estejam sendo administradas com tão pouco critério, tornando-se valores positivos e inquestionáveis.
É óbvio que há situações em que os medicamentos são necessários para proteger os indivíduos, mas numa outra perspectiva, diferente desta. Na lógica patologizante, o doente é tão somente a criança e o adolescente, nunca o adulto/educador, que costuma se omitir das responsabilidades que lhes são devidas.
Nossas crianças e adolescentes precisam da nossa disponibilidade, nossa criatividade e nosso compartilhar. É deste modo que estaremos possibilitando a eles condições saudáveis de desenvolvimento.


Andrea Raquel Martins Corrêa

domingo, 10 de maio de 2009

Reflexão: Desafios da Maternidade

Atualmente, as mulheres desempenham muitos papéis na sociedade: são profissionais, donas de casa, esposas e mães. Ser mãe, ao contrário do que se pensa freqüentemente, é um processo diário de aprendizagem, uma experiência de relacionamento com os filhos e com o mundo.

Nem sempre e nem a todo momento essa experiência é gratificante ou prazerosa. Há situações e fases em que angústias, inseguranças e frustrações podem predominar. Não há como pensar em uma mãe perfeita e feliz o tempo todo, pois isso não seria humano: nós, humanos, somos seres frágeis e vivemos em constante transformação.

Nesse sentido é que seria bastante interessante e saudável admitir que não temos “super poderes”, que muitas vezes não é possível fazer tudo ao mesmo tempo e que podemos precisar da ajuda de outras pessoas para cuidar de nossos filhos e das tarefas domésticas. 

Percebo uma crescente insatisfação no dia-a-dia das mães, relacionada a uma enorme sobrecarga de trabalho profissional e doméstico. Acredito, no entanto, na importância e na necessidade de todas nós, mães, aprendermos a nos cuidar com maior zelo, realizando atividades que apreciamos e também compartilhando muitas de nossas excessivas responsabilidades com outras pessoas - maridos e filhos, por exemplo -, sem medo de perder o controle.

Dessa maneira, quem sabe, trilharíamos um caminho no qual o papel de mãe poderia ser vivenciado mais livremente, com sabor de afeto, carinho e muitos abraços.


sábado, 9 de maio de 2009

Artigo: O Fim da Infância

A infância, bem como a adolescência, foi uma criação da modernidade, a partir de 1750, aproximadamente. Neste período, nasceu a Ciência - tal como a conhecemos hoje - e as idéias iluministas. A adolescência teve seu apogeu mais tarde, somente no século XX.
Isto significa que tanto a infância quanto a adolescência são construções históricas, podendo ser situadas no processo de desenvolvimento da sociedade. Antes da Idade Moderna, a infância não existia e a criança era reconhecida como um adulto.
Considerações específicas acerca da infância, conceitos sobre desenvolvimento infantil, estudos e medidas enfocando as crianças, são invenções recentes da humanidade. É curioso notar, porém, que estas conquistas vêm se perdendo.
Não é difícil constatar o mais absoluto desprezo pelas necessidades das crianças, por parte dos adultos e das instituições. Mais uma vez na história, elas estão sendo concebidas como adultas.
Basta olharmos os comerciais, as roupas e os sapatos fabricados para as meninas. Não são pequenas mulheres? Basta repararmos com mais atenção em todo esse movimento pedagógico que alfabetiza precocemente crianças pequenas, impedindo-as de brincar. Aliás, brincar tornou-se uma “ferramenta de aprendizagem”, em um contexto utilitarista que não acolhe a criatividade infantil. E o que dizer das crianças mais pobres? Evidentemente, para elas a infância nunca existiu.
Sinto-me um tanto incomodada quando, freqüentemente, trabalhando com pais, sou indagada a respeito do comportamento das crianças pequenas, que querem brincar e não estudar, querem pular ao invés de assistir televisão. Os pais não têm tempo para a infância e a escola também não.
Sendo assim, as fantasias e as brincadeiras próprias dessa idade têm sido interpretadas de maneira equivocada: espera-se que uma criança de 3 anos saiba repartir os brinquedos, saiba desenhar “bonito”, fique quieta e tenha raciocínio abstrato. Em muitas situações, se a criança não responde de acordo com estas expectativas, é considerada hiperativa e tratada com medicamentos.
Infelizmente, parece estar longe da realidade a compreensão de que não são as crianças que estão doentes, mas os adultos é que se tornaram insensíveis à infância, tão alucinados com suas próprias tarefas e demandas.


Texto escrito por Andrea Raquel e publicado no blog http://agendaculturalpiracicabana.blogspot.com/