segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Natal: a infância como um outro

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"(...) a infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de 
captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento. Pensar a infância como um outro é, justamente, pensar essa inquietação, esse questionamento e esse vazio."
Jorge Larrosa, Pedagogia Profana.

O trecho acima foi extraído do capítulo O Enigma da Infância, do livro Pedagogia Profana, escrito pelo grande educador espanhol, filósofo e ensaísta Jorge Larrosa, que dispensa apresentações. 

O livro, sem dúvida alguma, é um clássico da filosofia da educação, transitando entre a pedagogia e a literatura para questionar os parâmetros normativos que aprisionam a infância na modernidade. A concepção de "infância como um outro", se permitirmos, transforma nossa visão de mundo, pois nos autoriza a aprender com as crianças o que não sabemos, o que nunca saberemos e nem deveríamos saber: o mistério da vida, o enigma do que significa existir e compartilhar a existência.

As crianças pequenas, principalmente, em sua sabedoria tão desprezada pelos adultos, teriam muito mais a dizer, a expressar, a ensinar neste mundo estranho que estamos a criar cotidianamente. Seria tão bom se a cada nascimento de um infante nós, adultos, nascêssemos também! Olhar o mundo com olhos deslumbrados, mergulhar na alteridade, deixar-se conduzir pelo outro da infância... 

No documentário abaixo (MITÃ - criança em guarani), temos a oportunidade de pensar essa infância como um outro, de nos deixar tocar por ela na cadência tranquila da natureza que não sentimos mais. Apresento-o como sugestão de encantamento para que tenhamos um Natal mais amoroso, criativo e contemplativo, após um ano tão desesperançoso. 
Quem sabe assim tenhamos coragem para ao menos tentar nascer diferente em 2017!





Texto O Enigma da Infância - ou o que vai do impossível ao verdadeiro:

Entrevista de Jorge Larrosa:


sábado, 10 de dezembro de 2016

10 de Dezembro: Direitos Humanos


Hoje comemora-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. 
Nessa data, em 1948, foi proclamada a Declaração Universal de Direitos Humanos
pela Assembléia Geral das Nações Unidas, 
como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e países. 

Conheça e participe da nova Campanha da ONU: 


Manifeste-se pelos direitos de alguém hoje



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Das palavras que se foram em 2016

Nada mais para dizer. 

As palavras se calaram, as palavras se extinguiram.
Tento pronunciá-las, mas elas se vão, arrastadas pelo vento anunciador da morte.
Quem me dera encontrá-las novamente por aí, em qualquer lugar, de qualquer maneira.
Por que será que me abandonaram? Onde estarão agora?

Palavras que sempre me habitaram, palavras que me constituíram, palavras que me disseram o que é o mundo... essas palavras, fundadoras de mim, já não existem.
Como será possível inventar uma poesia, pensar uma emoção ou chorar um grande amor?
Se até nossas lágrimas são feitas de palavras! 
Nossas tristezas são balbucios de letras esmagadas e nossas alegrias são gestos silábicos quase impronunciáveis!

Os escritores e poetas - Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Monteiro Lobato, José Saramago, Virginia Wolf, Proust, Kafka, Shakespeare... como sobreviverão sem as palavras?
Aflitos na tumba, choram em desespero e lamentam a tragédia do século XXI.

Porque sem as palavras, todos sabemos, é o vácuo quem conduz.

A história não cansa de ensinar, mas os seres que se denominam humanos se recusam a aprender.
Da palavra humano, o que restou?
Da palavra grupo, o que sobrou?
E da palavra diferença, algo sobreviveu?

A palavra holocausto, a palavra sofrimento, a palavra crueldade, a palavra amor... todas foram extintas do dicionário pós-moderno. 
Ninguém se lembra o que elas significam!
Foi necessário tanto tempo para criá-las, tampouco agora elas existem.

Será preciso uma nova linguagem para que o planeta não pereça, junto às palavras que ainda restam, mesmo em vias de extinção.
Será preciso um novo código, uma nova ética, um outro verbo.


Foi para isso que os indígenas, filhos originários e primordiais, resistiram à estupidez civilizatória.
Para nos dar a possibilidade de criar outras palavras, as palavras que realmente importam e asseguram a vida.

Em A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami, encontraremos o que perdemos: o nós, o outro, o ancestral, a floresta, a beleza, a criação.

Talvez uma última chance, creio que vale a pena tentar!


NOTA: O livro A Queda do Céu foi escrito por Davi Kopenawa, liderança yanomami e xamã, junto a Bruce Albert, antropólogo francês. Nesta obra de antropologia e arte, Davi conta a história de seu povo, da floresta amazônica e de sua rica mitologia, buscando ser ouvido pelos brancos, como ele nos denomina. Bruce Albert o ouviu e traduziu suas palavras, que finalmente chegaram ao "Ocidente civilizado".

O prefácio do livro foi escrito por Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro e está disponível na rede: https://acasadevidro.com/2016/03/16/o-recado-da-mata-eduardo-viveiros-de-castro-prefacia-a-queda-do-ceu-de-davi-kopenawa-e-bruce-albert/


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Portinari: obras que encantam

Termina amanhã, 15 de novembro, feriado da Proclamação da República no Brasil, a exposição Portinari Popular, no Museu de Arte de SP - MASP. 

Reunindo alguns dos quadros mais conhecidos deste grande artista, a exposição apresenta e oferece ao público imagens sobre a formação do povo brasileiro e sobre muitos dos problemas sociais que marcaram o século XX , suscitando discussões ainda hoje.

Na sequência abaixo, Criança Morta, O Lavrador de Café e Favela são exemplos das belíssimas obras expostas, a provocar nossa sensibilidade e nossa reflexão.

Com sua geometria, suas sombras e cores peculiares, Portinari confere dignidade aos personagens mais invisíveis de nossa história, por isso trata-se de uma exposição extremamente importante dentro do atual contexto que estamos vivendo, no qual o racismo, a xenofobia e a misoginia voltaram a ser, lamentavelmente, expressões de ódio cotidiano.







quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Para reflexão: A morte nossa de cada dia

Nesta data de Finados, compartilho o belíssimo texto de Eliana Rezende: A morte nossa de cada dia. 
Escritora, Historiadora, Professora Universitária e Consultora em Gestão da Informação, Eliana contribui com uma importante reflexão sobre a vida, a nossa existência cotidiana e a morte. 

A morte nossa de cada dia 

 Por Eliana Rezende


Quantas mortes cotidianas, pequenas, miúdas somos capazes de acumular em uma existência inteira?
Morremos a cada grande decepção, de tédio, de medo, de desejos, por ausências, por faltas, arrependimentos, anseios, despedidas e até de vergonha!

Estranho pensar que as pessoas, em geral, temem tanto sua morte derradeira e final, aquela que consome a carne, remove o oxigênio e paralisa células e coração, e se esquece que passa uma vida inteira aprendendo a morrer, deixar, desapegar, abandonar... ser deixado, largado e abandonado, preterido e até esquecido!

Então por quê do medo da última de todas as mortes?
Aquela que não nos obrigará a acordar no dia seguinte para de novo ver-mo-nos morrer?

Ainda há os que morreram uma vez e nunca mais conseguiram voltar a viver.
A morte em vida apagou-lhes o brilho, as vontades, os desejos, o viço... Morreram quando encontraram o medo do medo. Não foram capazes de encarar suas fragilidades, decepções, frustrações e optaram por, simplesmente, esquecer para ser esquecidos.
Assistem de longe aquela que teria sido sua vida.

Houve os que morreram de medo de aprender a viver com outros, de aprender a entrega, a troca. Tiveram medo de aprender que viver ao lado de outro significa em alguns momentos ceder e compor e levaram à morte relações ainda no nascedouro.

Muitos morreram de medo de mudar e ficaram presos no infinito de suas repetições e vícios. Sepultaram-se no tédio e no esquecimento de vidas imóveis e estanques. Morrendo de medo de opiniões alheias, críticas e avaliações.

Há os que morreram de inveja, ostentação, luxúria e simplesmente não entenderam suas vidas despojadas destes apetites tão mortais.

Morremos de desejos, uns cálidos e outros muito quentes, sutis ou arrebatadores, contidos ou descontrolados, cheios de pudores ou totalmente despudorados, alguns débeis outros avassaladores, mas todos desejos que morreram quer por nossas próprias ações, quer por alheias.

Morremos de saudades. De lugares, de pessoas, de cidades, de encontros, de vidas que tivemos.
Morremos pelo que dissemos e pelo que deixamos de dizer!

Ainda há os que morrem de esperar, ou os que ao contrário morrem de tanto procurar e não encontrar.
Morremos de angústia e de alegria...morremos...morremos...

Mas ainda que morrendo cada dia, encontramos a magia da ressuscitação diária e nos colocamos de novo ao alcance daquela que será a próxima das nossas mortes. Prisioneiros que somos daquilo que parece ser um eterno retorno de mortes em vida.

E assim seguimos, como na mitologia, com a vida por um fio em mãos de Cloto, Láquesis e Átropos. Tecendo destinos e nos destinando de acordo com seus caprichos.



Cloto, a fiandeira, tece o fio da vida de todos os homens, desde o nascimento; Láquesis, a fixadora, determina o tamanho e enrola o fio, estabelecendo a qualidade de vida que cabe a cada um; Átropos, corta-o quando a vida que representa chega ao fim.
Os Destinos assim repartidos para cada pessoa, no momento de seu nascimento: uma parcela do bem e do mal, embora cada pessoa pudesse acrescer o mal em sua vida por conta própria. Usando como ferramenta do destino a Roda da Fortuna. As voltas da roda indicavam períodos bons e maus.

E assim a vida numa brincadeira feita em trocadilhos, nos faz levantar todos os dias acreditando que a vida não nos faltará. Que a roda da fortuna continuará a rodar e que mesmo morrendo a cada dia a vida prosseguirá nos fazendo despertar de cada uma de nossas mortes, para receber nosso quinhão de bons e maus momentos. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Dia dos Professores: devoção e civilização

Infelizmente neste 15 de outubro não há nada para se comemorar em relação ao Dia dos Professores. Enquanto categoria profissional, os professores e educadores de nosso país são cada vez mais menosprezados pelo sistema político dominante.

É fato comprovado, inclusive, que a quantidade de pessoas que abandonam a carreira de professor aumenta anualmente. Também o adoecimento, físico e psíquico, aponta para condições de trabalho insalubres, não apenas no ensino público como também na rede privada.

Ao mesmo tempo, há um número vasto de pesquisas na área de desenvolvimento infantil, corroborando a importância do professor na vida das crianças. Na educação infantil, o acolhimento e a afetividade importam sobremaneira; no ensino fundamental e principalmente no ensino médio, os valores e posicionamentos éticos dos professores são imprescindíveis para a formação dos adolescentes.

Por que, então, a remuneração e a valorização destes profissionais decresce a cada dia, desestimulando absolutamente jovens talentosos que poderiam se tornar excelentes educadores? Não tenho dúvida de que uma das hipóteses para responder esta questão, dentre outras, é a da ausência de relevância que o próprio ser humano dispõe atualmente. 

Explico: todo campo de atuação relacionado à prática de humanidades, incluindo grande parte da educação, sofre por não se adequar aos parâmetros mercadológicos que regem as relações de trabalho, a não ser que venham embalados em pacotes comerciais destinados a seduzir públicos cativos e obedientes (em psicoterapia vários exemplos podem ser fornecidos, tais como as técnicas de auto ajuda, sem qualquer fundamentação teórica, vendidas cotidianamente: técnicas para ser feliz, para ter sucesso, para encontrar um amor, etc). O objetivo destes pacotes não diz respeito à evolução da civilização nem do ser humano; não diz respeito à ampliação da sabedoria filosófica que busca resolver problemas como desigualdade social, ausência de uma ética solidária e valorização da vida. Precisamente, não se trata disso.

Os interesses de mercado a nortear o comportamento, os valores e as práticas humanas na contemporaneidade só têm uma finalidade: produzir e concentrar dinheiro a qualquer custo. Não importa que haja guerra, massacres, genocídios, fome, pobreza: a lógica predominante é bárbara, não civilizatória. Vidas e seres humanos ficam em segundo plano. Saúde, educação, dignidade, idem.

Este é um dos motivos pelos quais o professor não é devidamente reconhecido e enaltecido como deveria ser. E também é um dos motivos pelos quais nós devemos nos responsabilizar por valorizá-lo, consagrá-lo e abençoá-lo. A humanidade que se quer civilizada depende da devoção aos professores e educadores.


Portanto, Salve o Dia dos Professores!


sábado, 1 de outubro de 2016

Imagens da Cidade




Calçadas esfoladas ruas machucadas
Brancas faixas abandonadas.

Esgoto em córregos sombrios
Erva daninha sob pés insistentes na caminhada.

À caça das árvores nada se comemora:
quase todas arrebatadas por mãos cruéis do humano capital.

Cimento pedra restos de gente.
Abaixo dos viadutos ou em praças repelidas, o cheiro da morte:
eis a dor dos “indignos de vida”.

Nas quebradas, algum pó.
Gritos apavorantes tiros estrondosos.
Quadras depois, muros cercas elétricas vigias da noite.

Lágrimas escorrem pela cidade cor de sangue.
Solidão, palavra evocação.
Desigualdade, palavra fundamento.
Indiferença, signo da pós-modernidade.


NOTA: Este poema nasceu das caminhadas que realizo pela cidade onde resido. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Psicologia na Educação: Consulta Pública




O Conselho Federal de Psicologia está divulgando a consulta pública do Senado Federal, a respeito do Projeto de Lei 557 de 2013, que dispõe sobre o atendimento psicológico ou psicopedagógico aos estudantes e educadores da rede pública educacional. 

Seria muito importante que as escolas pudessem ter em seus quadros profissionais, a obrigatoriedade da atuação de psicólogos e psicopedagogos, amparando e desenvolvendo projetos junto às equipes de professores e alunos.

Acesse a página do Conselho Federal de Psicologia para entender melhor a discussão: http://site.cfp.org.br/senado-abre-consulta-publica-sobre-psicologos-as-nas-escolas-publicas/

E o site do Senado Federal, para votar:

A Educação agradece!


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Prevenção ao Suicídio




Faça parte dessa importante campanha de prevenção ao suicídio.
Conheça, divulgue e acompanhe o site:

http://www.setembroamarelo.org.br/

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Alta Performance: o massacre da infância



A sociedade do desempenho vem se consolidando no século XXI de maneira avassaladora. Nada nem ninguém fica à deriva dos valores estimulados pela concepção de rendimento e eficiência máxima, culto à competição, produtividade e eficácia sem limites. O homem contemporâneo é um “sujeito empresarial”, conforme definição dos filósofos franceses Pierre Dardot e Christian Laval, na obra-prima A Nova Razão do Mundo.

Enquanto sujeitos empresariais tentamos acriticamente gerenciar nosso tempo, nossa vida e nossas relações humanas a partir de uma ótica empreendedora, na qual o que importa é sempre o nosso próprio lucro e sucesso, também denominado “gozo” pelos filósofos citados. Naturalizada entre nós, esta lógica empreendedora (ou neoliberal) tem custo, faz vítimas e amplia o sofrimento psíquico.

É fato que nossa subjetividade vem sendo constituída, há tempos, para aceitar e jamais questionar tal sistema de sociedade. Por isso, em geral, não nos alarmamos quando observamos crianças chorando porque perderam um simples jogo na escola, ou porque tiraram uma nota um pouco mais baixa. A preocupação começa quando percebemos, porém, que a depressão é contínua, ou que o medo de ir à escola se transformou em fantasmas noite adentro, com bonecas falantes e cavalos assustadores voando pelo teto.


Pois bem, a alta performance exigida pela sociedade, incluindo todas as instituições - família, escola, mídia, religião, etc - está adoecendo nossas crianças e adolescentes, levando-as a níveis insuportáveis de sofrimento mental, explicitados em sintomas de depressão, ansiedade, perversão e até suicídio, principalmente nas classes médias e altas.

A norma principal transmitida pelos adultos às crianças, consciente ou inconscientemente, é que elas precisam ganhar/vencer o tempo todo e a todo custo, sob pena de perderem algo importante e serem, assim, punidas. Por isso não podem errar jamais. Errar é, literalmente, imperdoável. Errar um gol, errar uma palavra, errar um gesto, errar um pensamento...  Não é permitido, é necessário ser perfeito (leia-se acertar) em nome do alto rendimento e da alta performance.

Sob tais condições, comove profundamente acompanhar a expressão do imaginário infantil, seja em jogos dramáticos ou gráficos, que narram imagens sobre esse mundo doloroso e repleto de culpa individual. Guerreiras essas nossas crianças a brigar por um pouco de paz, contando-nos histórias de meninos abandonados pela família porque não conseguiram fazer gol, onças que tiveram seus filhotes roubados porque deles cuidavam muito devagar, patinhos humilhados em seu habitat por não serem capazes de nadar igual aos outros, coelhos frágeis que precisam desesperadamente se esconder porque serão devorados por enormes leões!

A estas crianças massacradas correspondem pais igualmente assolados pela culpa, que merecem cuidado e compreensão. Pais que supõem nunca poder errar, pais a quem temos que proclamar indefinidamente que errar é humano, que ser frágil faz parte da vida e que ter dúvidas significa bom senso.

Por tudo isso entendo ser mais do que urgente nos perguntarmos enquanto sociedade: o que queremos para nossos filhos, como desejamos que seja o futuro?

domingo, 14 de agosto de 2016

Dia dos Pais



Para que não esqueçamos.

sábado, 13 de agosto de 2016

Dia do Estudante: o uso das tecnologias

Na última quinta-feira, 11 de agosto, foi comemorado o Dia do Estudante. Em homenagem a esta data, publico um texto escrito por Luan Martins Corrêa, estudante do segundo ano do Ensino Médio. Trata-se de uma reflexão a respeito do uso das tecnologias eletrônicas.



Com o desenvolvimento tecnológico significativamente grande que vem ocorrendo durante as últimas décadas em todo o mundo, o uso de equipamentos eletrônicos e da internet cresceu de forma intensa. Junto a isso surgiu uma grande preocupação em relação à dependência que essa modernização científica pode gerar. O uso excessivo das máquinas acaba ocasionando vários déficits aos membros da sociedade global, principalmente às crianças e adolescentes.

Ansiedade, depressão, falta de atenção, hiperatividade e agressividade são listados como os sintomas mais comuns apresentados, que se encontram em condições nas quais não há controle necessário da jogatina online e da utilização das redes sociais. Percebe-se então uma série de problemas pessoais que essa nova geração tem de enfrentar devido ao que está sendo chamado de "dependência da tecnologia".

Por outro lado, há um grande mito na sociedade de que computadores, videogames e celulares iriam desencorajar a leitura e desestimular a paciência dos adolescentes para boas produções literárias. Pelo contrário, as histórias e livros para esse público foram diversificadas e despertaram interesse. Porém, de que adianta uma juventude focada em novos contos e romances se ela não consegue entender e se preocupar com a verdadeira realidade que está a sua frente?

Atualmente, pessoas estão mais preocupadas com o que acontece virtualmente em seus smartphones do que com seus estudos, trabalhos e relacionamentos. Esse é um processo longo que vem ocorrendo desde o século XIX, quando as funções manuais em grandes indústrias começaram a ser substituídas por novas e mecanizadas descobertas. O uso da tecnologia só vem aumentando desde então, até um dia em que seremos totalmente adictos a ela.

Portanto, é impossível negar que a utilização das máquinas tem prejudicado os habitantes do planeta Terra, desviando o seu foco para coisas fúteis e não produtivas. Essa é uma questão que merece maior reflexão por parte dos educadores, adultos e estudantes.

Luan Martins Corrêa

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Um Poema para o Menino

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"Temos que dar uma chance à vida"- Anistia International Brasil.
Segundo dados dessa organização não governamental de direitos humanos, o Brasil vive uma epidemia de homicídios que não é discutida pela sociedade nem pelos meios de comunicação. As principais vítimas são os jovens do sexo masculino, especialmente os habitantes negros das periferias, que compõem 77% dos assassinados. Trata-se de uma realidade que reflete a cultura de violência na qual todos estamos inseridos.

Qual a nossa responsabilidade frente a este cenário tão triste e preocupante? Será que a arte e a literatura podem nos ajudar a cultivar outros olhares, mais solidários e compreensivos? 
Esta é a proposta do poema A morte do menino, de minha autoria: criar condições afetivas para que nos coloquemos no lugar do outro. 

Fui menino nascido no esgoto
de um barraco cheio de vermes.
A pobreza habitou meu mundo,
nela sobrevivi aos 12.
Sujo e lamacento de cor de pele,
sempre quis o azul do céu nos olhos de minha mãe.
Pai não sei quem foi, mas irmãos, há que ampará-los!

Deivid já estava preso.
Jonathan ainda não
e Michel morava com a tia.
Gisele cuidou de mim,
mas Daiane fugiu de casa.
Vó Alberta morreu chorando – coitada, o barraco pegou fogo!

Nesse dia não teve Deus,
aquele que mãe e vó acreditavam.
“Deus nos deixou, Deus está nos castigando!”
“O que fizemos de tão errado?”
Eu tinha 7 anos quando fomos na rua morar.

Ah, que saudade dos meus amigos!
Onde estariam?
Os mendigos se multiplicavam,
não tinha comida nem água, faltava roupa sobrava dor.
E assim como na favela,
a polícia nunca se esqueceu de nós:
de paulada em paulada
éramos atirados aos viadutos,
às pontes imundas dessa cidade que não nos queria.

Deus deve ter se apiedado de nós!
Eu não lhe pedia nada,
nem sabia o que era ele.
Mas alguém veio buscar nossas coisas
e minha mãe disse que era um anjo desse Deus.

Eu pensei:
felicidade é não ficar com fome,
felicidade é ter um lugar pra dormir,
felicidade é voltar pra escola.

Novos amigos, novo barraco, agora com tijolo!
Ah, o que será que fizemos de tão certo?
Não sei não.

O que sei é que continuamos pobres.
Jonathan também foi preso.
Michel morreu de tiro.
Daiane teve vários filhos
e Gisele ficou com a mãe, junto de mim.

Todo dia tinha polícia batendo nas vielas.
De noite de dia a qualquer hora.
Sem demora aprendemos a ser estátua:
“Mostra tudo, fica quieto, não fala, não reage!”
Era o que o tio e a mãe imploravam pra fazermos.
“Não corre, menino! Não responde a farda, eles matam!”
E matavam mesmo, não adiantava rezar.

Minha mãe queria voltar pra algum lugar
que não sabia onde era.
Eu tinha medo que ela morresse, mas quem morreu loguinho fui eu.

O dia da minha morte foi sábado.
Eu mais o Júlio e o Clau fomos no campinho jogar bola.
Estava nublado.
Os outros meninos chegaram, teve uma briga qualquer.
Só me lembro dos berros que não eram homens – devia ser minha mãe.
E os tiros espraiando pelo ar...
Não sei quem correu, quem fincou no chão.
Eu tropecei, os milicos não perdoam, pensam que é tudo bandido.
Vieram pra cima, eu segurando a bola.
Não deu tempo, mesmo assim balbuciei:
“não fiz nada.”

Então aconteceu.
Um estampido horroroso.
Eu vi ficar cinza depois preto.
Morri pensando na minha mãe,
quem vai cuidar dela?
A Gisele não pode morrer,
mas o que é o futuro?

Nasci preto pobre menino favelado.
Tive só 12 anos, mas eu queria ter tido mais,
um pouco mais...

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Biografias: escritas que nos tocam

            Infelizmente nossa capacidade de olhar o mundo pelos olhos de um Outro vem declinando, embora sejam muitas as conexões que partilhamos diariamente neste amplo espaço tecnológico da contemporaneidade. Uma das formas criativas de aprendermos (ou recuperarmos) essa alteridade que nos escapa, nos aparta da vida e nos torna desumanos, se dá pela leitura de obras biográficas, cuja história de pessoas desconhecidas ou admiradas são narradas.

            Acompanhar a vida de outros seres humanos pela literatura biográfica, descobrindo suas fragilidades, seus sofrimentos, ódios, alegrias e infelicidades é algo que educa nossa sensibilidade para a compreensão do existir como algo mais complexo e menos simplista. Somos instigados a perceber, por exemplo, que uma história de vida não é feita só de escolhas pessoais, como habitualmente se considera. Há condicionantes externos que compõem a vida de um indivíduo, transformando-a em tragédia ou em felicidade, se quisermos assim denominar.

            É o caso da autobiografia Quarto de Despejo – Diário de um Favelada, livro escrito por Carolina Maria de Jesus, moradora negra da periferia paulista nos anos 50 e 60. O diário desta escritora nos convida a entender o que é o sofrimento e a humilhação da fome, se nunca a tivermos sentido em nosso próprio corpo. Ao mesmo tempo situa historicamente o Brasil do período mencionado e pode nos ajudar a refletir sobre a questão da miséria no contexto atual, desfazendo muitos de nossos preconceitos.


             O Diário de Rywka é também uma experiência trágica, relatada pela própria protagonista, uma adolescente judia vítima dos campos de concentração nazista na segunda guerra mundial. Pode ser considerado um documento histórico, assim como Quarto de Despejo, evidentemente. Ademais, entre outras coisas, contribui para refletirmos sobre o fascismo e o nazismo que assombram nossas vidas mais uma vez.

            Na mesma perspectiva, o jornalista Flávio Tavares escreveu suas Mémórias do Esquecimento – Os Segredos dos Porões da Ditadura, relato belíssimo sobre sua prisão, tortura e libertação durante o regime militar brasileiro. Trata-se de um livro poético e educativo, a nos oferecer imagens tão trágicas quanto necessárias acerca da brutalidade de uma ditadura.

            E para finalizar esta breve escrita, eu não poderia deixar de citar, enquanto leitora apaixonada de Fernando Pessoa e Clarice Lispector, duas biografias magníficas escritas por excelentes biógrafos que conseguiram expressar a grandeza destes “poetas operários” da língua portuguesa: Fernando Pessoa - uma quase autobiografia, livro escrito por José Paulo Cavalcanti Filho e Clarice – uma biografia, de Benjamin Moser, historiador e escritor norte americano.

             Fica o convite para que mergulhemos na profundidade que a vida nos oferece, pela arte e pela literatura, junto aos olhos do Outro que, apesar de nos construir, desconhecemos.


sábado, 16 de julho de 2016

Seminário de Psicologia Escolar


O Conselho Federal de Psicologia, junto à PUC Campinas, promovem o II Seminário Nacional de Psicologia Escolar. Trata-se de um tema relevante para os profissionais da área de educação e saúde, visto que a escola é uma instituição de formação integral do ser humano. Não há como desqualificar o papel do sistema escolar no desenvolvimento de todos nós.

Como a psicologia pode contribuir com o cotidiano de estudantes e educadores, na árdua tarefa de construir uma sociedade pensante, atuante e, se possível, transformadora? Qual o papel dos psicólogos em relação ao sistema educacional formal? Será que é apenas realizar atendimentos das crianças e adolescentes considerados "problemáticos"? É possível estabelecer um diálogo proficiente com os diversos protagonistas do campo escolar, no sentido de facilitar novos intercâmbios e percepções acerca do mundo e do conhecimento?

Essas são questões que norteiam a proposta deste pertinente Seminário. Mais informações:



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Indivíduo: disciplina, culpa e sofrimento

Partilhamos de uma sociedade de controle tão efetivo que em geral não percebemos quais valores e conceitos internalizamos como se fossem naturais. Vivemos sem a condição de avaliar que nossas vidas poderiam ser diferentes. Tendemos, muito pelo contrário, a naturalizar nosso modo de ser, desprezando nossa própria história pessoal e social.

Nem sempre as pessoas viveram da maneira como vivemos atualmente, é sempre bom lembrar! Existiram muitos períodos na humanidade, com políticas e organizações grupais diversas, formas de alimentação e trabalho variados, sofrimentos, afetos e valores nada semelhantes aos nossos. Aproximadamente a partir dos séculos XVIII / XIX, pode-se afirmar, começamos a nos tornar esse "sujeito da modernidade", posto que nesse momento emergiu o conceito de indivíduo junto à tecnologia da disciplina.

Segundo Michel Foucault, célebre e polêmico filósofo francês, estudioso das relações de poder, o indivíduo foi uma construção histórica necessária às novas formas políticas de gestão das populações, típicas da era pós revolução francesa. A disciplina instituída tanto na família como no trabalho, por exemplo, tinha por função submeter as pessoas à normatização que estava sendo criada no incipiente sistema capitalista. Para funcionar, tal processo de disciplinarização demandava a constituição de um corpo singular, assujeitado à norma, ou seja, o indivíduo.

A concepção de indivíduo tal como a conhecemos hoje, nasce, portanto, junto com a de sujeito, que para Foucault implica no "ser assujeitado", estar ajustado aos padrões da disciplina que os poderes obrigam. A sujeição ocorre por mecanismos que apelam para nossa subjetividade, no sentido de propiciar que certos valores, regras e condutas sejam compreendidas e percebidas como normais/boas/saudáveis, em oposição a outras, consideradas anormais/ruins/patológicas. Logo, cada um de nós, indivíduo, é enquadrado e se enquadra em um ou outro polo. A responsabilidade pelo enquadramento, de acordo com os parâmetros narcísicos contemporâneos, evidentemente é toda nossa, individual. 

Não à toa seguimos, enquanto profissionais da área de saúde mental, acompanhando as pessoas em estado de grande sofrimento emocional, simplesmente porque não tiveram tanto sucesso em alguma área da vida, ou porque estão passando por uma fase difícil e se culpabilizam exageradamente. Não à toa acolhemos crianças deprimidas ou adolescentes tentando o suicídio porque compreendem que não estão à altura do que a sociedade e a família lhes exigem. Não à toa os portadores de inúmeras doenças, como o câncer e a diabetes, além de sofrerem com os sintomas físicos também sofrem porque se sentem culpados pela doença. 

Eis o indivíduo dos nossos tempos, disciplinadíssimo na auto punição culpabilizadora e infinita, já que nunca é possível sentir-se satisfeito ou um pouco menos fracassado. Até a felicidade tornou-se obrigação, dever de cidadão equilibrado. No mercado da auto-ajuda, pululam manuais que vendem novas normas para ser feliz, todos os dias! O indivíduo requisitado "tem que" ser feliz, auto confiante, comunicativo, carismático, inteligentíssimo, pragmático e reflexivo ao mesmo tempo, solidário e competitivo na mesma medida, bonito, esbelto, paciente, persistente, etc, etc. O indivíduo requisitado já é um fracasso em sua própria concepção, ou não?

Alguma dúvida de que é preciso reinventá-lo? Não sei como, não tenho receita nem gostaria de ter, já que seria somente mais uma regrinha destinada ao consumo. Acredito, no entanto, que a crítica e a reflexão podem iluminar algumas das nossas consciências, criando lentamente possibilidades outras.


sábado, 18 de junho de 2016

Festival Dia da Música



Neste sábado dia 18 está ocorrendo a segunda edição do festival Dia da Música, que busca dar mais visibilidade aos músicos independentes do Brasil. Por isso destaco um magnífico músico, instrumentista e compositor piracicabano, Alessandro Penezzi, que merece toda consideração, afeto e admiração. Basta ouvir o vídeo.

sábado, 4 de junho de 2016

Da comoção que nos falta

Um dos temas mais interessantes a serem discutidos na modernidade, do meu ponto de vista, é a comoção. Refiro-me à comoção como a capacidade que temos ou não de nos comover com o outro, de sermos tocados e afetados (no sentido de afeto) por alguém com quem convivemos ou nem conhecemos. No Psicodrama, esta capacidade é o próprio fundamento da técnica, da filosofia e da teoria. Não há relação de ajuda possível se não houver comoção, pois é através deste sentimento que nos colocamos no lugar do outro e possibilitamos envolvimentos afetivos transformadores.

O momento histórico que estamos vivendo sinaliza cada vez mais a ausência de comoção social no tocante às chamadas minorias: refugiados, imigrantes pobres, negros, transexuais, doentes mentais. A Anistia Internacional Brasil, por exemplo, vem chamando atenção, frequentemente, para a grave situação das periferias brasileiras, nas quais ocorre um genocídio de populações marginalizadas, vitimando especialmente meninos negros, assassinados pela polícia. Em um dos relatórios da Anistia, Átila Roque, diretor da organização, afirma que não há comoção alguma por parte dos cidadãos a respeito das diárias mortes desses meninos pobres. Predomina a indiferença absoluta, o que acaba por autorizar os assassinatos.


A pergunta que segue é inquietante: por que não nos comovemos com essas mortes? Quais são os mecanismos que garantem a indiferença e quais as possíveis estratégias que poderiam estimular uma outra percepção, abrindo perspectivas para a comoção?

Judith Butler, filósofa americana cuja obra se alicerça em um dos maiores filósofos do século XX, Michel Foucault, problematiza de forma elucidante a questão. Afirma ela que todos nós estamos sujeitos a enquadramentos sócio culturais, isto é, molduras que direcionam nossa interpretação sobre o mundo, delimitando nossos afetos e valores acerca da vida e da morte. A imagem, por sua vez, constitui o enquadramento mais potente da sociedade. Como exemplo, podemos citar o telejornalismo brasileiro: qual a narrativa produzida pelos canais Bandeirantes, SBT e Globo a respeito dos moradores da periferia?

Em geral os pobres, em sua maioria negros, são literalmente enquadrados pela polícia, como se fossem todos bandidos. Sendo assim, passam a representar, no imaginário social, uma ameaça à vida humana, o que justifica e legitima a perseguição e o assassinato constante pelos agentes do Estado. A vida destas pessoas são "vidas não vivíveis", segundo Butler, pois não há reconhecimento de "vida a ser vivível" para elas. Este é o enquadramento produzido para diversas populações civis do globo terrestre, que Butler denomina "populações sacrificadas", ou melhor, populações geridas pela lógica do extermínio. 

"Essas populações são "perdíveis", ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tendo sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos, e não como populações vivas que necessitam de proteção contra a violência ilegítima do Estado, a fome e as pandemias." Butler, J. - Quadros de Guerra - quando a vida é passível de luto? 


Qual o nosso papel e a nossa responsabilidade, como seres humanos, frente a isso? Se nos sentimos indiferentes, com medo ou com ódio, não nos responsabilizamos, não nos importamos. Pelo contrário, justificamos as mortes pela própria ótica do extermínio, muitas vezes sem perceber. São necessários outros enquadramentos, que estimulem novas percepções, novos olhares e novas respostas afetivas, visando enfrentar o desafio de conceber uma ética global, que reformule o conceito de responsabilidade frente às condições precárias das populações sacrificadas.

A arte - fotografia, cinema, teatro, literatura -, os meios de comunicação como a internet, os grupos - ongs, movimentos sociais de mães e estudantes -, os intelectuais e todos os profissionais que se empenham em estudar e produzir conhecimento crítico formam redes que vêm se articulando, no sentido de criar enquadramentos diferenciados daqueles que a mídia dominante nos apresenta. Desta maneira torna-se possível ampliar e fortalecer a comoção necessária para reivindicar a vida como um direito de todos. 

Nesta era de retrocessos em que estamos, nada mais urgente.