quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

2016: alvorecer

O inominável 2015 já se despede desses habitantes terrestres sem rumo, 
que somos nós.
Que nessa despedida 2015 possa levar consigo todas as tragédias da qual foi palco, 
todos os horrores dos quais foi testemunha, 
todos os sofrimentos da existência humana absurda que teimamos em perpetuar. 



sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Os estudantes que precisamos ser

As imagens são chocantes.
Pra que tanta violência, homens de farda?
Pra cumprir leis que sabotam direitos adquiridos?

Meninas e meninos do século XXI 
- aquele que esperávamos pacífico -
Eis que se insurgem contra o autoritarismo!

Nas ruas, nas praças, nas escolas
Olhos, mãos e cérebros pensantes
Para além da imaginação colonizada.

Que alegria neste momento estar viva 
E testemunhar tamanha criação!
Novos afetos e novas ações 
- aquelas que nós, covardes ou velhos que somos, 
já não inventamos mais. 




domingo, 15 de novembro de 2015

Despedida



 




Para alguém que hoje se foi, alguém tão importante neste mundo estranho.
Um dos mais criativos psicodramatistas do Brasil e da América Latina, Moysés Aguiar.
Nossa despedida com lágrimas e poesia!

Hilda Hilst, Da Morte, Odes Mínimas:

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos,cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho.

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O papel da psicoterapia










Francis Bacon: 1909 - 1992
Auto retrato










Muitas são as formas de conceber o papel da psicoterapia na vida de uma pessoa, um casal ou uma família, sendo que o sofrimento é a questão principal na condução tanto daquele que busca ajuda quanto do próprio terapeuta.

Em geral as pessoas procuram psicoterapia na perspectiva de obter um alívio imediato para a dor, o que só é possível através de medicamentos, dependendo do quadro clínico. Numa sociedade pragmática e imediatista como a nossa, não poderíamos esperar outra coisa: um tratamento psicológico deveria “curar” rapidamente o sujeito que sofre. Ah, quem me dera ter esse poder!

Apesar da mídia divulgar cotidianamente feitos maravilhosos no campo da saúde mental, não é esta a realidade que vivemos. Infelizmente as frases de autoajuda, tão em voga no momento, não têm a capacidade de produzir um ser humano feliz (“pense positivamente todos os dias que seus problemas serão resolvidos”, “ame-se mais do que tudo na vida”, “não ligue para o que os outros pensam de você”, etc); infelizmente a cultura da máxima performance, que dissemina a ideia de que “nós podemos superar todos os obstáculos, podemos alçar voos sem limites, tudo depende apenas de nós mesmos”, só vem promovendo mais sofrimento, na medida em que desconsidera as relações e culpabiliza o indivíduo, sozinho, pelos erros e fracassos. Infelizmente, mesmo a indústria farmacêutica, tão empenhada na pílula da felicidade, por enquanto só consegue fabricar uma espécie de euforia, um sentimento que vem mas vai embora quase instantaneamente, deixando enormes vazios.

É fato, portanto, que somos seres muito mais complexos do que pode parecer em um primeiro olhar, seja este do senso comum ou da ciência. Não há nenhuma filosofia, psicologia, medicina, prática ou processo que dê conta em absoluto dos problemas humanos, sejam eles emocionais, econômicos, políticos ou sociais. A psicoterapia é um dos recursos indicados para tratar a saúde mental e pode efetivamente contribuir com o crescimento das pessoas, a médio e longo prazo. Mas não pode salvar ninguém da dor que a vida traz, não pode se propor a oferecer respostas prontas e rápidas para questões existenciais, não pode garantir a felicidade nem o sucesso.

O papel da psicoterapia (individual ou grupal), como entendo depois de muitos anos de profissão e estudo, é auxiliar o sujeito em um novo posicionamento de vida, considerando as condições sociais, históricas e familiares. Isto quer dizer que não é possível supor o sofrimento mental isoladamente, mas ao contrário, para ajudar uma pessoa a compreender a própria dor, é preciso ajudá-la a compreender também o contexto em que vive e viveu, as relações das quais participou e participa. É preciso ainda ajudá-la a reformular as perguntas, pois quando isso ocorre, cria-se uma outra maneira de estar no mundo. 
Por exemplo, se alguém se condena tristemente por não ter ficado rico, um contraponto importante a ser instigado, cultivando novos olhares, seria: “por que, pra que e pra quem você teria que ser rico?” Esta é uma postura crítica e não subserviente, que fortalece o sujeito para pensar sobre sua própria existência em perspectivas nunca antes pensadas. Pode parecer pouco, mas com certeza não é. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Por uma nova ética


Encantamento não é uma palavra tão usual nos dias de hoje. Talvez o que mais temos ouvido ultimamente sejam palavras e frases que expressam o sentido contrário: desânimo, medo, intolerância, ódio. Vivemos tempos muito difíceis, não tenho dúvida, mas isso não significa que não possamos criar novas maneiras de agir, de pensar e de nos relacionar uns com os outros.

Um dos mais recentes livros da filósofa americana Judith Butler (reconhecida internacionalmente pela formulação da Teoria Queer), que esteve no Brasil em setembro, aponta para esta direção e por isso é uma obra de arte rara, a meu ver, encantando profundamente as pessoas mais reflexivas, que estão discutindo o Homem na contemporaneidade.

Relatar a si mesmo – Crítica da violência ética é um livro absolutamente necessário, nesse momento em que o Outro, enquanto pessoa dotada de humanidade tanto quanto o Eu, não tem mais existência. As relações que experimentamos no nosso cotidiano carecem de reconhecimento: não vejo o outro, não o reconheço em suas necessidades e não o afirmo como ser humano. Na mesma medida, também não sou reconhecido.

Butler discute a possibilidade de uma nova ética a orientar nossas relações, partindo da investigação de vários filósofos, como Foucault e Hegel.  Nesta ética a ser criada, teríamos que admitir, em primeiro lugar, “nossa cegueira comum, invariável e parcial em relação a nós mesmos.” Desta compreensão sobre quem somos, imperfeitos, falhos ou opacos (esta última palavra é a utilizada por Judith Butler), decorreria a aceitação dos limites do outro: “Quando pedimos para conhecer o outro, ou pedimos para que o outro diga, final ou definitivamente, quem é, é importante não esperar nunca uma resposta satisfatória.”

Por essas e tantas outras reflexões de Judith Butler, repletas de lucidez, seriedade e sabedoria, é que a vida me encanta.

Mesmo sabendo que é cruel recortar trechos de um livro, principalmente na área de filosofia, não resisto. Ao discutir juízos de valores que nos levam a acusar e condenar os outros, a filósofa afirma:

"Considere que, quando suspendemos o juízo, realizamos um tipo de reflexão que possibilita uma maneira de nos tornarmos responsáveis e de conhecermos a nós mesmos. A condenação, a acusação e a escoriação são formas rápidas de postular uma diferença ontológica entre juiz e julgado, e ainda de se expurgar do outro. A condenação torna-se o modo pelo qual estabelecemos o outro como irreconhecível ou rejeitamos algum aspecto de nós mesmos que depositamos no outro, que depois condenamos. Nesse sentido, a condenação pode contrariar o conhecimento de si, uma vez que moraliza o si-mesmo, negando qualquer coisa comum com o julgado.” (p 65)

Nem é preciso dizer o quanto a discussão proposta em Relatar a si mesmo - Crítica da violência ética, é emblemática no mundo atual do qual fazemos parte.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O fim da experiência? Ou a criação?

Muitos são os autores e filósofos que discutem ou especulam sobre o “fim da experiência”. Walter Benjamin (século XX) foi um destes investigadores do homem na modernidade, discorrendo sobre a importância das narrativas que nos constituem. Conforme desaparecem os narradores, que são os contadores das pequenas histórias, pessoais e coletivas, familiares e sociais, desaparece também a nossa própria história e, com isso, a possibilidade da experiência.

Quando nos esquecemos do passado, demarcados pelo cotidiano massacrante e caótico em que vivemos, também abortamos nossos laços históricos e nossa memória, tanto individual quanto grupal. Dessa maneira, mesmo sem perceber, as possibilidades de atribuir sentidos para nossas vidas diminuem significativamente.

Eric Hobsbawm, no livro a Era dos Extremos – O breve século XX, escreveu: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.”

Infelizmente constatamos essa realidade sem nenhuma dificuldade. Não apenas os jovens, mas os adultos já não se veem nem se compreendem como parte do passado e da história. Penso que a urgência imediatista em viver o futuro, cada segundo que virá, nos condiciona a um terrível vazio no tempo presente. Somos tomados pela ansiedade de responder a cada clique do celular, do facebook, do whatsapp. Somos engolidos pela mídia o tempo todo, aprisionados nesse sistema que nos propõe existir somente através das teclas.

É então que, de repente, sentimos algo estranho pulsar, uma implacável solidão e as vezes vontade de chorar. Quem será que somos neste momento? Quem é o outro? Estamos em relação com esse outro ou estamos sozinhos? O que realmente desejamos para nossas vidas? Se morrermos daqui a um minuto, vamos sentir que vivemos ou que apenas passamos pela vida sem tocá-la, sem experimentá-la?

Algumas pessoas acham que estas respostas podem ser encontradas dentro de si mesmas, mas isto é um equívoco propagado pela cultura individualista e narcisista dos nossos tempos. Para olhar dentro de nós, antes é necessário que olhemos para o outro. Se isso não ocorrer, ou seja, se não olharmos para o outro primeiro, quando olharmos para nós mesmos só encontraremos o vazio, o nada. Somos constituídos pelo outro desde que nascemos. Senão cuidarem de nós quando bebês, morremos rapidamente. Portanto é o outro que nos assegura vida e sobrevivência.

Desde os séculos XVII/XVIII, contudo, somos ensinados a não considerar a existência do outro, o que atualmente, com as novas tecnologias, se agravou. Diante disso precisamos criar outras formas de relação, ousar encontros inesperados, exercitar olhares para o diferente; questionar a conduta da alta performance, que nos ordena a fazer tudo ao mesmo tempo e com a máxima eficácia, não importando o custo.

Tanto o presente quanto o futuro, embora pareçam definidos, permanecem abertos. Esta também foi uma reflexão de Walter Benjamin.


domingo, 27 de setembro de 2015

Zygmunt Bauman no Brasil




Em setembro, o importante pensador contemporâneo Zygmunt Bauman, autor do conceito de "sociedade líquida", esteve no Brasil. Nesta entrevista, embora simplificada demais, ele apresenta sua visão sobre educação, escola, internet e tecnologia. Vale a pena conhecê-lo, principalmente através da leitura de seus livros: Medo Líquido, Vida Líquida, Modernidade Líquida, apenas para citar alguns.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Suicídio: sintoma da sociedade?


"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio", escreveu Albert Camus em sua obra O Mito de Sísifo. Camus, grande escritor existencialista francês do século XX, abordou o paradoxo da relação vida e morte em todos os seus livros, tais como: A Peste, O Estrangeiro, O Homem Revoltado, A Morte Feliz.

Assim como outros autores e filósofos, Camus compreendia a vida humana no plano do absurdo, ou seja, não há um sentido para a vida a não ser aquele que possa ser construído pelo próprio homem; não há Deus nem destino, pelo contrário, há acasos e absurdos. Enfrentar essa condição inexorável de ser e estar no mundo, com a angústia e a lucidez que dela fazem parte, é o que nos possibilitaria viver com mais intensidade, segundo os existencialistas. Portanto, é para afirmar a vida em sua plenitude, não para destruí-la, que a consciência do absurdo da existência se faz necessária. O suicídio, nesta visão, não seria uma saída. 

Os dados acerca do número de suicídios no mundo, porém, apontam para o que tem sido descrito como um grave problema de saúde pública, incluindo o Brasil. A OMS (Organização Mundial de Saúde), inclusive, alerta para o crescimento do suicídio, especialmente entre jovens na faixa de 15 a 29 anos. 

Não é difícil testemunhar, como psicoterapeuta, a realidade desta situação. Adolescentes que se cortam ou sofrem bullying, crianças em depressão, jovens dependentes de drogas e também adultos com problemas de saúde física, emocional ou financeira encontram-se vulneráveis ao potencial do suicídio. Populações segregadas, como os índios brasileiros, estão entre as que mais se matam no planeta. 

Com certeza não estamos vivendo a terceira guerra mundial - tal como a primeira e a segunda, contextos de violência típica a facilitar o suicídio em massa -, mas talvez estejamos vivendo um mal estar civilizatório cujo único precedente foi justamente o nazismo. O sofrimento em larga escala que entranha-se por todas as classes sociais e produz vítimas indefesas, cuja saída é a própria morte, pode ser o sintoma mais eloquente de uma sociedade em decadência, concebida sob a ótica da máxima performance, que gera por sua vez narcisismo, futilidades, ódio, intolerância e perversões infindáveis. Obviamente, essas são perspectivas que não têm propiciado sentido às nossas vidas.

Nada mais urgente para ser tratado, discutido e revelado. "Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe." - Walter Benjamin.

sábado, 22 de agosto de 2015

Seminário Internacional sobre Medicalização























Entre 1 e 4 de setembro, em Salvador BA, ocorrerá o IV Seminário Internacional sobre Educação Medicalizada. Frente à epidemia de ritalina que assola nosso país ( bem como os EUA ), grupos de profissionais da área de saúde e educação vêm se organizando, cada vez mais, para questionar, discutir, informar e resistir à era da medicalização.

Diariamente, na prática de atendimento à crianças e adolescentes, acompanhamos situações abusivas no que diz respeito à medicalização. Para ensinar um aluno que tem dificuldade de ler, para acalmar um filho muito agitado, para calar a voz de alguém mais frágil e conter o sintoma incômodo aos olhos dos adultos, usam-se remédios sem critério. Desta forma, impõe-se um rótulo qualquer, garante-se os lucros da indústria farmacêutica e impede-se a reflexão por parte das instituições responsáveis pelos cuidados da infância e adolescência.

As pessoas têm modos de aprender diferentes, têm maneiras de ser distintas, têm olhares para o mundo que não cabem no mundo! As crianças têm ritmos peculiares de funcionamento cognitivo, os adolescentes têm múltiplas experiências com a sexualidade. Para que serve a tentativa de enquadrar os seres humanos em normas excessivas de comportamento e desenvolvimento? Por que não é possível valorizar as potencialidades e as diferenças, mesmo que estejam em desacordo com o esperado?

A pergunta merece nossa atenção e investigação, caso contrário é preciso assumir que estamos criando uma geração de adictos desde o início da vida. Sem dúvida alguma, as consequências virão. 

Mais informações e textos sobre o seminário e o tema da medicalização:

http://seminario4.medicalizacao.org.br/
http://medicalizacao.org.br/iv-seminario-internacional-a-educacao-medicalizada-desver-o-mundo-perturbar-os-sentidos/

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A palavra que falta

Quando faltam as palavras para nomear a dor
Quando faltam as palavras para soletrar o absurdo.

Quando as palavras se ausentam da escuridão no anoitecer
Quando as palavras se ausentam dos nossos tristes pensamentos.

Quando as palavras perdem seus sentidos
Quando as palavras tornam-se um engodo.

As palavras se foram
As palavras nos desabitaram.

Sem elas o que somos nós?
Órfãos da história, clichês de pseudo intelectuais a manipular mentes e corações.

Recuperemos a palavra mãe que nos nomeia: o OUTRO.
Sem o OUTRO não podemos existir
Sem o OUTRO não há palavra alguma.

Porque é o OUTRO que nos ensina a palavra
É com ele que aprendemos a pronunciar o EU.

Renunciemos ao esvaziamento e à simplificação cruel das palavras
E proclamemos a alteridade: EU – OUTRO.

Para que haja alguma redenção humana
Para que haja algum sobrevivente.



Museu da Língua Portuguesa - SP

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Poesia: resistência ao ódio

Para enfrentar tamanho cenário de ódio e intolerância, a nos deixar perplexos e por vezes impotentes, criemos novas palavras, novos poemas e novas pessoas.





Obra de arte Mulher Chorando
Picasso - 1937













Meu poema sobre o ódio:

Esse ódio pronunciado por bocas desalmadas
a habitar tão temidas estações.

Esse ódio incontido de palavras gestos atos desumanos
que nem Deus saberia existir.

Esse ódio des-razão adjetivando seres pobres
que se pensam grandiosos.

Esse ódio triste palidez anunciando
dolorosas e insanas tempestades.

A ele resistir, a ele subjugar!
Não há que ancorar em nossos corações!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Terapia de casal


É frequente que algumas pessoas solicitem ajuda para o relacionamento amoroso, sendo a terapia de casal uma alternativa. Recentemente, estudantes de psicologia me perguntaram no que exatamente consiste esse modelo de atendimento psicoterápico. Imediatamente lembrei-me do Soneto de Fidelidade, escrito por Vinícius de Moraes, cujo trecho mais famoso (sobre o amor) é: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”

Pois bem, embora os casais que procuram ajuda queiram continuar juntos, não é possível garantir o sucesso dessa expectativa. Muitas vezes, o desgaste excessivo de um relacionamento gera tanto sofrimento familiar que a separação é benvinda. Outras vezes não, a questão é mais simples, solicitando apenas novos ajustes e negociações. Há ainda os casais que se separam mas continuam brigando e se ofendendo.

Em qualquer uma destas situações, o papel do terapeuta implica numa mediação entre as pessoas envolvidas, buscando instaurar o diálogo civilizado. Para isso, é preciso “desarmar” os parceiros, auxiliando-os a olhar e assumir a própria fragilidade, bem como a responsabilidade pelo “astral” do relacionamento.

Em geral não existe a percepção de que “eu machuco o outro”, normalmente é “o outro me machuca”. Construir, portanto, uma nova perspectiva de relação, na qual seja possível inverter os papéis, um aprendendo a se colocar no lugar do outro, é o grande desafio. Sair de si mesmo em direção a quem se deseja e supostamente se ama, rompendo com o egocentrismo que orienta toda nossa conduta, é justamente a chance que temos para criar e partilhar uma vida mais plena, feliz e saudável.

"Ah se pelo menos 
eu te amasse menos
tudo era mais fácil
os dias mais amenos
folhas de dentro da alface

mas não 
tinha que ser entre nós
esse fogo esse ferro essa pedreira
extremos chamando extremos na distância."

Paulo Leminski 
Poema escrito em 1976 e publicado no livro Toda Poesia.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Não à homofobia!



Andrew Solomon, em seu livro Longe da Árvore - Pais, Filhos e a Busca da Identidade, conta, no primeiro capítulo, sua própria história de sofrimento ao perceber-se gay, condição inaceitável para sua família e para sua escola. Atualmente, já adulto, Solomon afirma sentir-se bem consigo mesmo.

"Mesmo que eu lide adequadamente com minha dívida privada de melancolia, há um mundo exterior de homofobia e preconceito a consertar. Espero que algum dia essa identidade possa transformar-se em um fato simples, livre tanto de partidarismo como de culpa, mas isso está longe."

E por estar tão longe é que neste dia dos namorados, 12 de junho, convido todos os leitores a questionarem os preconceitos de gênero e sexualidade, difundidos amplamente por alguns setores da sociedade. O vídeo da ONU, acima, merece nosso respeito.


"Manter a homossexualidade trancada dentro de mim quase me destruiu, 
e revelá-la quase me salvou."

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Sal da Terra: arte e redenção



Assistir ao filme documentário O Sal da Terra (2014), dirigido por Win Wenders e Juliano Salgado, é uma daquelas experiências inesquecíveis para a sensibilidade humana. Dizer que o filme tem uma belíssima fotografia e aborda a trajetória do artista brasileiro Sebastião Salgado é muito pouco. Trata-se de um filme sobre todos nós, enquanto seres humanos capazes de destruição e redenção ao mesmo tempo.

Se alguém ainda tem dúvidas a respeito do que alguns estudiosos têm chamado de "campos de concentração a céu aberto", pós segunda guerra mundial, basta acompanhar Sebastião Salgado pela Etiópia, na década de 80, ou pelas minas de petróleo na guerra entre Iraque e Kuwait. Embora pareça ficção, as imagens são flashes da realidade que o fotógrafo de fato viveu.

Poderíamos acrescentar muitas outras imagens do século XXI, que configuram a crueldade humana. Mas não me animo nessa empreitada, posto o cansaço e a saturação desse espetáculo de horror que vemos todos os dias pelas telas ou ao nosso lado, em nosso próprio meio ou nossa cidade.

Apesar disso, é importante lembrar que há uma grande diferença entre O Sal da Terra e a internet ou a televisão. No filme há humanidade, poesia e verdade; há um narrador protagonista absolutamente comovido com a miséria humana, tentando documentá-la para que o mundo se sensibilize e faça algo. “Não é possível que as coisas sejam assim”, pensamos nós que estamos assistindo. “Como podem tantas pessoas ainda morrerem de fome no mundo? Para que serve uma guerra, será que é pra exterminar povos, além da disputa pelo poder?” Ficamos incomodados com nosso próprio conforto diário, nossa comodidade. Entendemos que o bem-estar conquistado pela modernidade não é para todos.

Já na mídia espetacular que divulga violência e guerra há outro interesse: propiciar que naturalizemos os acontecimentos, que nos tornemos indiferentes. E indiferença é exatamente a única impossibilidade deste grande filme. Penso eu que nem o mais insensível dos seres humanos possa sair do cinema sem ser tocado. Se isto ocorrer, desconheço a causa (quem sabe psicopatia?).

Se a arte tem uma função social e existencial, podemos afirmar que o documentário e o trabalho de Sebastião Salgado se realiza dentro desta perspectiva, incluindo ele mesmo como pessoa e personagem da tragédia humana. Como suportar ver tanta dor, tanta morte e destruição? É possível não ser aniquilado pela guerra?

Para quem sobrevive, a redenção acena no horizonte. O artista é sua própria arte e com ela se recria, se refunda, se concebe em outro ser. Somos então conduzidos, pelo experiente diretor alemão Win Wenders, às origens do mundo e da história pessoal de Sebastião Salgado. Não há resgate, aqueles que morreram não voltarão. Mas a Terra e a humanidade, pelo menos por enquanto, são maiores do que isso e suportam a morte através da criação. Para mim, mesmo que seja apenas um consolo, este foi o brilho principal do filme, junto às lágrimas tristes que me convulsionaram os olhos por algum tempo. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Abraço e Poesia


22 de Maio, dia do abraço!
Um abraço que possibilita:


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Semana Mundial do Brincar


Acompanhe a programação da Semana Mundial do Brincar 2015, de 24 a 30 de Maio. 
Um movimento pela vida e pelo ser humano.


Durante a Semana, será lançado o filme documentário Território do Brincar, 
em parceria com o Instituto Alana - http://alana.org.br/
O filme apresenta a diversidade do brincar em todo o Brasil, de norte a sul,
estimulando o resgate desta potencialidade tão esquecida nos tempos modernos.




domingo, 10 de maio de 2015

Dia das Mães com poesia!

No dia das mães, uma homenagem aos filhos, pois é com eles que aprendemos a ser mães!

Um trecho do poema Estrelas, de Maiakóvski.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Depressão: uma experiência de vida compartilhada



Andrew Solomon é autor de dois livros muito interessantes e reconhecidos: O Demônio do Meio Dia - Uma Anatomia da Depressão e Longe da Árvore - Pais, Filhos e a Busca da Identidade. Nesta palestra ele explora sua experiência com a depressão, descrita pormenorizadamente no primeiro livro mencionado. 
Além da palestra, fica a indicação de leitura deste livro fantástico e completo, escrito em uma linguagem acessível para todos os públicos: O Demônio do Meio Dia, Companhia das Letras.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Adolescência e Criminalidade: espelho da sociedade



O Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais, órgãos de representação de classe dos psicólogos, bem como diversas entidades e associações de defesa dos direitos das crianças e adolescentes, tais como Unicef, Fundação Abrinq, Aliança pela Infância, Anistia Internacional, CNBB, ANDI, Rede Não Bata Eduque, Instituto Alana e OAB Nacional, manifestaram-se publicamente contra a redução da maioridade penal e a favor do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, iniciando diversas campanhas de esclarecimento e debates com a sociedade.
Do ponto de vista da psicologia, esta é uma discussão que precisa ser realizada pela perspectiva da educação. Em primeiro lugar compreende-se que nós, seres humanos, somos constituídos nas relações que criamos e reproduzimos em um dado tempo histórico. Nossa subjetividade, nossas ações e valores fazem parte da sociedade em que vivemos. Então se temos um determinado número de adolescentes que cometem crimes, em todas as classes sociais - importante lembrar -, isso revela problemas da ordem dos adultos também.
As questões que deveríamos nos colocar, enquanto sociedade que se responsabiliza por seus infantes é: em que estamos errando tanto a ponto de produzir condições para a violência se alastrar continuamente? Qual o nosso papel, como cidadãos educadores, frente aos jovens? Como cada um de nós, muitas vezes sem perceber, contribui para o aumento da violência? Será que os adolescentes são violentos ou é a sociedade que é violenta? Para nos colocarmos frente a frente com essas perguntas, no entanto, é imprescindível revermos o paradigma corrente de que “o mal está no outro”: infelizmente tendemos a perpetuar essa máxima e assim não nos olhamos no espelho.
Tendo em vista que crianças e adolescentes são pessoas em desenvolvimento, vulneráveis a todo tipo de situação e experiências perigosas, entende-se que é necessário a criação de um número ainda maior de redes de proteção, apoio e educação, não de encarceramento. O desafio da sociedade é educar seus jovens, garantindo um desenvolvimento adequado do ponto de vista afetivo, social e físico.
Sabemos que nossas crianças e adolescentes sofrem violência de todos os tipos e em todas as classes sociais: violência doméstica, sexual, abandono, bulling, assassinatos. Se formos pesquisar as estatísticas, inclusive, vamos encontrar dados apontando que os adolescentes, na verdade, são muito mais vítimas do que vilões da violência: menos de 1% do total de homicídios são cometidos por adolescentes e mais de 36% das vítimas de homicídios são adolescentes, sendo que 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros. Por que não avançamos nesse debate, ao invés de reduzirmos o problema e apontarmos nossas armas para os “menores”, buscando soluções que, de antemão, sabemos que não resolverão o problema? Alguém acredita que nossos presídios “recuperam” algum ser humano?
Muitos especialistas que atuam com a problemática da adolescência vêm alertando que a redução da maioridade penal não é solução para a criminalidade e que pode, ao contrário, aumentar a violência. Os adolescentes encarcerados junto com os adultos, mesmo que tenham cometido um roubo, terão poucas chances de voltar dignamente à sociedade. É mais provável que sejam treinados para praticar atos criminosos de maior calibre. Afirmar, como muitas pessoas afirmam, que o jovem “não tem jeito”, que se cometeu um ato ilícito se tornará criminoso pelo resto da vida, então melhor que “já vá para a cadeia mesmo”, é um equívoco muito grande, um desconhecimento absoluto das potencialidades do ser humano e do papel das relações sociais na vida de todos nós.
É claro que é necessário haver punição. As instituições que cumprem medidas sócio educativas de privação de liberdade, como a Fundação Casa no Estado de SP, têm essa função. A visão de que não há punição é também equivocada. Sendo assim, por que não investir nestas instituições que já estão equipadas para atendimento dos adolescentes? E em escolas, centros de arte e cultura, ampliando os canais de abordagem a essa população? Será que a violência realmente vai se resolver com o processo de judicialização das relações sociais e de criminalização dos adolescentes? E quais seriam os adolescentes aprisionados, apenas os pobres?
Os jovens de classe média e alta também cometem crimes: uso de drogas, tráfico, roubo, invasão de residência, estupro, direção sem habilitação. Mas é muito difícil que cumpram medidas sócio educativas. A grande maioria da população dos presídios, sejam os de adultos ou os de adolescentes, são formados por pessoas pobres e em geral negras. Isso aponta para uma situação de injustiça social, que ficará ainda maior caso a maioridade penal passe a ser de 16 anos.
Ao contrário dessa proposta, nós precisamos contribuir com nossa juventude no sentido de criar caminhos preventivos ao crime, pela orientação escolar, profissional e familiar desses jovens, não pela segregação. Precisamos também desconstruir a imagem que a mídia nos impõe diariamente, principalmente a televisão com seus programas sensacionalistas de violência, apresentando jovens psicopatas cometendo crimes absurdos. Esses crimes representam uma quantidade muitíssimo pequena da realidade, mas quando abordados de maneira espetacular criam a ilusão de representarem o todo, ou seja, fica parecendo ao cidadão que a maioria dos crimes da juventude são bárbaros, mas não são! A maioria das infrações referem-se ao patrimônio.
A adolescência é um momento de construção de identidade e de papéis sociais importantes, por isso necessita do acompanhamento dos adultos. E aqui cabe novamente a questão: estamos cumprindo nosso papel de educadores responsáveis? O Estado cumpre seu papel na educação? Propostas tão somente de culpabilização individual e punição, sem preocupação com as causas e mecanismos de produção e manutenção da violência vão resolver o problema ou irão aumentá-lo? 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Criança - Prioridade Absoluta



Criança - Prioridade Absoluta - Instituto Alana
Emoção e Conhecimento em 6 minutos, a nos lembrar que as crianças são seres humanos com direitos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Existe Vida além do Câncer



Uma doença tão terrível como o câncer merece nossa consideração. Por isso, registro o poema desta poetisa amiga, que compartilha sua própria experiência.

A ela dedico todo carinho, bem como às outras pessoas que vivem a mesma dor. 
Ao meu pai, que já morreu após tanta luta.




Por Ana Marly de Oliveira Jacobino

Celebração da Ressurreição de Cristo veio com um profundo refletir sobre este companheiro do mal que carrego há mais de 30 anos junto ao meu corpo. O Câncer é uma doença silenciosa! O trauma provocado pela doença na vida avoluma com o tempo, se não quisermos reverter essa situação!

Alegria, fé, garra devem ser companheiras de quem pretende continuar vivendo, assim, o faço, depois de descobrir um câncer no meu corpo.
A experiência vivificadora de completar o tratamento traumático da quimioterapia no pico mais alto de uma montanha russa espacial na Disney Word pode ajudar você, como me ajudou! Assustador mergulhar na escuridão ouvindo os gritos dos desconhecidos ao seu lado. Sair da escuridão para entrar em túneis iluminados em alta velocidade é realmente uma dose maciça de “quimioterapia” de aventura e emoção.
O que pensar de alguém diagnosticada com três meses de vida nesta louca aventura?

Viver um dia por vez com disposição para vencer é a chave para ir burlando a doença... Sem que ela perceba, é claro!
Uma querida amiga sugeriu-me escrever sobre as minhas vivências nestes 34 anos empenhados em não esmorecer a cada diagnóstico do retorno do Câncer, estendendo as cirurgias e tratamentos doloridos, então, hoje neste dia 8 de abril, “Dia Mundial de Combate ao Câncer” resolvi fazê-lo, após, saber da perda de uma Amiga, que conheci, curti por uma rede virtual.

Pelo Facebook comentei as postagens dos seus belos passeios por terras lusitanas, também, enviei palavras de conforto na hora de uma dor traumática na perda do seu filho amado...
Amigas Virtuais! Amigas na extensão plena da palavra “Amor e dor”. Tristeza muita tristeza carrego enquanto escrevo. Não tenho palavras, pois, passo pelo processo do retorno da doença e estou numa luta aguerrida para continuar sem esmorecer.

Perdi várias “Amigas” para o Câncer, todas acompanhei bem de pertinho, e, com cada uma delas, se foi uma porção da minha alegria! Vou continuar aqui, lutando minhas “Amigas”, por vocês: Marisa, Marlene, Raquel e Veras..., como, tantas outras pessoas em tratamentos, partilham força e determinação neste caminho tão espinhoso de uma luta contra um Câncer!

Vai em paz, Amiga, curtindo o brilho das estrelas. Vai fazer castelos com o pó iluminado de uma explosão solar. Vai fazer tranças na calda de um cometa. Vai jogar sorrisos para a Lua para ela aspergir a Terra com sua alegria, querida Vera!
Vou continuar sorrindo como você, também, o fazia tão bem! Sorrir de tudo, com tudo e para tudo, desta maneira, heroicamente, carregamos a vida tendo a convicção da sua plenitude, aqui mesmo, neste solo fértil de vivências, marcado por experiências únicas, sabendo que: existe vida além do Câncer!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A humanidade dos Satyros: sobre o “outro diferente”


Quantos de nós já parou para pensar em como vivem os moradores de rua, como sobrevivem as prostitutas e os travestis, as crianças nos faróis da cidade, os chamados “doentes mentais” e todos os não autorizados à cidadania, que se encontram “à margem” daquilo que se convencionou chamar civilização moderna?

Será que alguns de nós sequer consegue perceber que “estas pessoas”, visíveis apenas quando nos incomodam com sua aparência, seus pedidos ou mesmo roubos, são seres humanos? Aprendemos a olhá-las como não humanos, o que contradiz absolutamente a concepção de vivermos em uma suposta civilização igualitária, solidária e evoluída. A evolução da qual participamos no mundo todo é a da tecnologia, não das relações humanas.

Podemos argumentar, inclusive, que há muitos grupos considerados “não humanos” nesse nosso planeta, ou seja, pessoas que podem ou devem morrer, seres que “atrapalham” o sistema capitalista e que, portanto, não têm o mesmo direito à vida que nós, mais abastados e organizados financeiramente. Através da mídia dominante, que cria diariamente imagens violentas acerca destes grupos, seguimos internalizando preconceitos que nos levam à total indiferença, senão ao ódio. Eis o nosso fascismo cotidiano, tão antigo quanto pós moderno!

Em cada época histórica, elege-se determinados grupos a serem desumanizados: quando os europeus chegaram às Américas, os índios não eram humanos, nem para a Igreja Católica. Foram dizimados e até hoje ainda não são tratados como cidadãos. Os povos negros, idem, inumanos. Na Segunda Guerra Mundial, os judeus foram cruelmente assassinados em nome da superioridade ariana, com apoio dissimulado de diversos países europeus, como a França e a Inglaterra. Atualmente, são os próprios judeus de Israel que desumanizam os árabes, matando-os indiscriminadamente na região da Faixa de Gaza. Há ainda os refugiados, expulsos de seus países pelas guerras em curso. E outros, muitos “outros diferentes” espalhados pelos seis continentes terrestres.

Mas se é verdade que esta desumanização prossegue em escala mundial, também é fato que muitos cidadãos, pessoas comuns e artistas se sentem incomodados diante de valores tão sórdidos. Por isso eu gostaria de compartilhar minha experiência com a peça Pessoas Perfeitas, do grupo de teatro Os Satyros que, através da arte, propõe a humanização da vida.

Com mais de 20 anos de trabalho, a Companhia de Teatro Os Satyros atualmente fixa residência na Praça Roosevelt de São Paulo e cada vez mais se notabiliza na criação de uma dramaturgia própria, inovadora e questionadora dos padrões sociais. Reconhecido internacionalmente, diversas peças do grupo foram premiadas, dentre elas Pessoas Perfeitas – Prêmio APCA de Melhor Espetáculo em 2014.

Pessoas Perfeitas nasceu a partir de pesquisas com moradores de rua do próprio centro de SP. Assistindo a peça, acompanhamos as peripécias de personagens que pouco nos sensibilizariam, não fosse a tamanha criatividade e ternura do grupo ao representá-los. Sei que posso estar enganada, mas acredito que até o mais duro e preconceituoso dos corações humanos se fragilizaria ao partilhar a dor dos “diferentes” quando encarnados humanamente. E aqui está justamente a possibilidade de humanização: olhar o outro “suposto ninguém”, por um instante que seja, como igual, próximo, com dores semelhantes, vivendo situações não tão distantes da nossa. Estranho, surpreendente, assustador?

Nunca me esqueço de uma pessoa que me perguntou, certa vez, quando eu trabalhava com crianças em situação de vulnerabilidade social, se estas crianças sofrem. Uma triste e lamentável pergunta, que revela o distanciamento e a insensibilidade para com todos aqueles que estão ao nosso lado, que vemos diariamente nas ruas mas fingimos não ver, que desconsideramos como seres humanos. E o pior, algo que não nos damos conta é que quando desumanizamos alguém, quando retiramos simbolicamente a possibilidade de vida do outro, nós é que perdemos a humanidade, nós é que nos tornamos desumanos.

Reinventar nossa própria humanidade é tão urgente quanto resolver os problemas corriqueiros do dia-a-dia, a crise financeira, as dores físicas ou emocionais. Nossa redenção enquanto espécie humana depende disso e a arte é nossa parceira. Sigamos os Satyros! 




sexta-feira, 27 de março de 2015

Psicologia e Redução da Maioridade Penal


Por que será que todas as entidades de psicologia e organizações de direitos das crianças e adolescentes são absolutamente contra a redução da maioridade penal? 

O Conselho Federal de Psicologia reiterou seu posicionamento contrário à medida e reafirmou que "sua aprovação não reduzirá a violência nem suas causas, mas desviará a atenção do problema real - que depende da adoção de políticas sociais efetivas."

Conheça agora as 10 razões da Psicologia contra a redução da maioridade penal: 

1.
A adolescência é uma das fases do desenvolvimento dos indivíduos e, por ser um período de grandes transformações, deve ser pensada pela perspectiva educativa. O desafio da sociedade é educar seus jovens, permitindo um desenvolvimento adequado tanto do ponto de vista emocional e social quanto físico;
2.
É urgente garantir o tempo social de infância e juventude, com escola de qualidade, visando condições aos jovens para o exercício e vivência de cidadania, que permitirão a construção dos papéis sociais para a constituição da própria sociedade;
3.
A adolescência é momento de passagem da infância para a vida adulta. A inserção do jovem no mundo adulto prevê, em nossa sociedade, ações que assegurem este ingresso, de modo a oferecer – lhe as condições sociais e legais, bem como as capacidades educacionais e emocionais necessárias. É preciso garantir essas condições para todos os adolescentes;
4.
A adolescência é momento importante na construção de um projeto de vida adulta. Toda atuação da sociedade voltada para esta fase deve ser guiada pela perspectiva de orientação. Um projeto de vida não se constrói com segregação e, sim, pela orientação escolar e profissional ao longo da vida no sistema de educação e trabalho;
5.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) propõe responsabilização do adolescente que comete ato infracional com aplicação de medidas socioeducativas. O ECA não propõe impunidade. É adequado, do ponto de vista da Psicologia, uma sociedade buscar corrigir a conduta dos seus cidadãos a partir de uma perspectiva educacional, principalmente em se tratando de adolescentes;
6.
O critério de fixação da maioridade penal é social, cultural e político, sendo expressão da forma como uma sociedade lida com os conflitos e questões que caracterizam a juventude; implica a eleição de uma lógica que pode ser repressiva ou educativa. Os psicólogos sabem que a repressão não é uma forma adequada de conduta para a constituição de sujeitos sadios. Reduzir a idade penal reduz a igualdade social e não a violência - ameaça, não previne, e punição não corrige;
7.
As decisões da sociedade, em todos os âmbitos, não devem jamais desviar a atenção, daqueles que nela vivem, das causas reais de seus problemas. Uma das causas da violência está na imensa desigualdade social e, conseqüentemente, nas péssimas condições de vida a que estão submetidos alguns cidadãos. O debate sobre a redução da maioridade penal é um recorte dos problemas sociais brasileiros que reduz e simplifica a questão;
8.
A violência não é solucionada pela culpabilização e pela punição, antes pela ação nas instâncias psíquicas, sociais, políticas e econômicas que a produzem. Agir punindo e sem se preocupar em revelar os mecanismos produtores e mantenedores de violência tem como um de seus efeitos principais aumentar a violência;
9.
Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, não a causa. É encarcerar mais cedo a população pobre jovem, apostando que ela não tem outro destino ou possibilidade;
10.
Reduzir a maioridade penal isenta o Estado do compromisso com a construção de políticas educativas e de atenção para com a juventude. Nossa posição é de reforço a políticas públicas que tenham uma adolescência sadia como meta.

Coloque na agenda: 

Dia 31 de março, debate online Mitos e Verdades sobre a Redução da Maioridade Penal: 

http://site.cfp.org.br/cfp-promove-debate-sobre-reducao-da-maioridade-penal/

Entrevista de Elisa Zaneratto Rosa, presidente do CRP SP:

https://medium.com/@jornalistaslivres/psic%C3%B3logos-manifestam-se-contra-a-redu%C3%A7%C3%A3o-da-maioridade-penal-5b4e37a3cb20

sábado, 14 de março de 2015

Dia da Poesia

Quantos poetas poderíamos hoje citar, em comemoração ao Dia da Poesia!
Poetas que partiram, poetas que estão vivos, poetas romancistas, poetas até fascistas.
Poetas das luzes, poetas das trevas, poetas enfim que habitam cada um de nós.
Poetas amigos, inimigos, amados ou odiados.
Poetas que conhecemos pessoalmente e poetas que nunca veremos.

Quão carentes de poesia estamos hoje,
Jamais estivemos tão distantes da imaginação poética!
Que nos ouçam lá do céu Manoel de Barros, Fernando Pessoa, Paulo Leminski.
Que nos acolham aqui na Terra Valter Hugo Mãe, Adélia Prado, Sérgio Vaz.

E que recebam meu abraço os poetas e amigos piracicabanos:
Ana Marly Jacobino, Carmem Pilotto, Carmelina, Ivana Negri,
Carla Ceres, Ana Lúcia Paterniani.
A todos os outros poetas, muita gratidão!


sexta-feira, 13 de março de 2015

Observatório Cidadão de Piracicaba



Em tempos de incitação midiática ao ódio e de posicionamentos acirrados sobre política, esquecemos de avaliar com clareza as alternativas constantemente criadas por pessoas que resolveram se agrupar e promover a cidadania.
Conheça o Observatório Cidadão de Piracicaba, que trabalha pela participação e pelo controle social. Uma iniciativa que vale a pena!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher: Violette



Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, 8 de março, um filme encantador: Violette, de Martin Provost (França/Bélgica - 2013). 

Através de Violette Leduc e Simone de Beauvoir, ambas escritoras francesas, acompanhamos a história das mulheres no século XX e o início da revolução feminista. Simone de Beauvoir, reconhecida filósofa, educadora e autora de diversos livros importantes é retratada com maestria nesse grande filme, cuja personagem principal é a amiga Violette.  

De origem pobre e humilde, Violette transforma sua vida através da literatura, com ajuda de Simone. Sua escrita autobiográfica, marcada pelo erotismo, desafia a sociedade conservadora européia dos anos 40 e 50. Mais tarde, internada em um hospital psiquiátrico devido a crises emocionais, Violette encontra em sua própria escrita a possibilidade de redenção e cura.

Um filme delicado e sensível a nos propor reflexões sobre as mulheres, a sociedade e o papel da arte.  

Artigos interessantes:


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Reflexão - memória e terapia: uma pequena homenagem

A educação é um processo contínuo e inacabado, quase sempre provisório, jamais concluído. Participando de cursos e grupos de estudos na Faculdade de Educação da Unicamp, tive o enorme prazer de conhecer e ser aluna da querida professora Carol (Maria Carolina Bovério Galzerani), também diretora do Centro de Memória da FE. 

Importante pesquisadora da Universidade de Campinas, autora de diversos artigos científicos e livros, como o recente Memória, Cidade e Educação das Sensibilidades (2014), Carol foi uma daquelas pessoas raras que cruzam os nossos caminhos, com humanidade tamanha e inigualável. Com ela todos podiam aprender a questionar o mundo de uma maneira doce e delicada.

Para homenageá-la, reescrevo e publico algumas reflexões pessoais que realizei como terapeuta, estudando o filósofo Walter Benjamin junto à professora Carolina.

Benjamin legou-nos uma obra magnífica na qual argumenta a concepção de memória como construção social e subjetiva. Para ele, nós nos tornamos sujeitos na medida em que damos um sentido às nossas vidas, ressignificando os acontecimentos que dela fazem parte através de um processo chamado rememoração. Rememorar implica em articular os diversos tempos, passado, presente e futuro para, quem sabe, alterar o rumo que a história aparentemente nos impõe.

Em um processo terapêutico, acompanhamos o outro em seu percurso de escolhas individuais e grupais, de questionamentos existenciais diários que pedem respostas rápidas, mas nem sempre possíveis. Buscamos, junto com este outro, tecer a palavra, a imaginação e a memória para tentar construir novos sentidos de vida, quem sabe mais humanos e felizes. Focalizamos os vazios, as dores mais inconscientes do que conscientes, para assim abrir brechas que possam ampliar o repertório criativo das relações. Por isso tudo podemos pensar a terapia a partir dos conceitos de compreensão, relação, vínculo e criação, ao contrário do modismo que incita as ideias de cura, solução definitiva e individualismo. 

A criatividade e a rememoração estão permanentemente em diálogo dentro de nós mesmos e em nossas relações, tendo em vista que as lembranças do passado podem contribuir para redimensionar o presente, inspirando novos olhares e posicionamentos. Enquanto lugar de afetividade, a memória participa da relação terapêutica e cria novas conexões tempo-espaço, ampliando, desta forma, as perspectivas de ações transformadoras, individual e coletivamente, no presente e no futuro.

Esta condição humana de rememoração, não esqueçamos, é o que nos garante a redenção. É por ela que nos movemos e nos relacionamos, que nos acolhemos e nos transformamos. É com ela que estou, neste momento, escrevendo um texto para uma pessoa querida que já morreu e que permanecerá em mim e em todos que a amam.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Leituras



"Considera-se tanto mais civilizado um país, quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem ao miserável ser miserável demais, e ao poderoso ser poderoso demais." Primo Levi, em É isto um homem?

Livro que relata as atrocidades dos campos de concentração nazista e nos faz refletir sobre o que Thomas Piketty, economista que escreveu O Capital no século XXI, vem nos alertando: o excesso de concentração de renda no mundo.