quinta-feira, 29 de maio de 2014

Adolescência: pais e filhos

Ao contrário do que imaginamos, a adolescência não é um momento tão agradável como estamos habituados a idealizar. Ser adolescente significa estar em permanente conflito com o mundo e consigo mesmo, experimentando sentimentos de vazio, tristeza, inadequação social e raiva. 

Em geral, os adolescentes se sentem incompreendidos pelos pais e professores, frequentemente com razão. Os adultos dificilmente se dispõem a olhar o mundo com os olhos destas “criaturas errantes”, que um dia também já foram. Este exercício de trocar de papel poderia contribuir para que as relações fossem mais tranquilas e menos dolorosas, porém, não é o que ocorre.

Na lida diária com famílias, percebemos o quanto é complicado conviver com as expectativas que cada um tem em relação ao outro. Espera-se dos filhos adolescentes, por exemplo, que se mantenham próximos dos adultos, que continuem a ter os mesmos comportamentos que tinham na infância. Para crescer, no entanto, os filhos se afastam de nós, formam grupos que nos excluem, nos quais não somos convidados a participar. Sentimos medo, muito medo com esse distanciamento e criamos estratégias de controle, fadadas ao fracasso.

Por isso é que, na maior parte das situações conflituosas, agressivas e sintomáticas que envolvem a adolescência, são os pais que precisam de ajuda, por vezes mais do que os próprios filhos. Todos sofrem, é claro, aprisionados um no outro e em si mesmos.    
  
Nosso querido escritor e psicanalista Rubem Alves apresenta essas questões em um livro chamado E AÍ? CARTAS AOS ADOLESCENTES E AOS SEUS PAIS. Vale a pena conhecê-lo!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sonhos Roubados: ficção, realidade e poesia

Para participar da discussão sobre a violência sexual infantil neste dia 18 de maio, data que marca a Campanha Nacional de Combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, o Conselho Regional de Psicologia de SP exibiu, em Piracicaba, o filme Sonhos Roubados, de Sandra Werneck (2009).
Baseado no livro As Meninas da Esquina – Diários dos Sonhos, Dores e Aventuras de Seis Adolescentes do Brasil, da jornalista Eliane Trindade, o filme nos aproxima da realidade vivida por famílias e jovens que moram na periferia das grandes cidades.
Através de uma linguagem delicada e poética, a diretora nos propõe acompanhar especialmente o drama de três amigas adolescentes, que começam a se prostituir. Descobrindo a própria sexualidade, numa sociedade que valoriza excessivamente o corpo, elas encontram um caminho de sobrevivência e “apoderamento” na prostituição, com muito preconceito e sofrimento.
Não há espaço, porém, para severos julgamentos moralistas neste belíssimo filme, pois os estereótipos, a meu ver, vão sendo paulatinamente desconstruídos: com excelentes interpretações, todos os atores nos oferecem a subjetividade dos personagens que representam, de maneira que a polaridade bem e mal é rompida. O que vemos são pessoas inteiras, imersas no paradoxo que é a própria vida. Muita tristeza e alguma felicidade ao mesmo tempo, violência e resiliência, denúncia e resignação.
Vale lembrar ainda que a situação de prostituição abordada no filme não é exclusiva das periferias. Sabemos que muitas meninas, inclusive de classe média e alta, também se prostituem. Os motivos são diferentes, os contextos sociais também. E os sonhos, como ampará-los?


Trilha sonora
Música Sonhos Roubados
João Nabuco, Antonio Villeroy e Eugenio Dale
Cantora: Maria Gadu

Eu não sei onde eu deixei
ou se alguém veio roubar
aquele sonho que sonhei
já não sei onde andará.
Prefiro nem dormir
me esquecer de sonhar
eu quero quero muito 
quero agora sem demora
o meu desejo ninguém vai roubar.
(...)



Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes: http://www.comitenacional.org.br/o-que-e-18-maio-000.php#

Sobre o filme: http://filmesonhosroubados.blogspot.com.br/

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dia das Mães com o Filme Pais e Filhos

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2013, o filme japonês Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-Eda, delicadamente nos propõe acompanhar o drama de duas famílias que têm seus filhos trocados na maternidade. Quando as crianças estão com aproximadamente seis anos é que os pais são comunicados deste erro que, a princípio, anuncia-se como uma tragédia. Será?

O filme pode ser considerado um testemunho sobre o quanto a maternidade e a paternidade são construções relacionais, independente da consanguinidade. Se nosso sangue corresponde ou não ao sangue de nossos pais biológicos, assim como nossa genética, isso nada tem a ver com maternidade e paternidade. Pai e mãe definitivamente são aqueles que se responsabilizam pelos cuidados de uma criança, seja esta filho biológico, adotado, parente próximo ou distante.

Obviamente, o que importa na relação pais e filhos é a articulação dos papéis: os pais têm a função primordial de prover cuidados para seus filhos, tanto afetivos quanto sócio educacionais. Os filhos, por sua vez, recebem e aprendem com a dedicação ou a rejeição de seus pais. No filme, essa reciprocidade já está estabelecida entre pais e filhos adotados, sem que ambos saibam, no entanto, que biologicamente não são pais e filhos.

Os filhos identificam seus pais adotivos como “pais verdadeiros” e não querem se separar deles. Os pais, por outro lado, a princípio requerem seus direitos biológicos, clamando pela consanguinidade. A história toda constitui uma belíssima narrativa que vale pelo prazer da emoção, da reflexão e da aprendizagem sobre os relacionamentos parentais. Fica a dica para o Dia das Mães!