segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Natal: a infância como um outro

Resultado de imagem para pedagogia profana larrosa


"(...) a infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de 
captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento. Pensar a infância como um outro é, justamente, pensar essa inquietação, esse questionamento e esse vazio."
Jorge Larrosa, Pedagogia Profana.

O trecho acima foi extraído do capítulo O Enigma da Infância, do livro Pedagogia Profana, escrito pelo grande educador espanhol, filósofo e ensaísta Jorge Larrosa, que dispensa apresentações. 

O livro, sem dúvida alguma, é um clássico da filosofia da educação, transitando entre a pedagogia e a literatura para questionar os parâmetros normativos que aprisionam a infância na modernidade. A concepção de "infância como um outro", se permitirmos, transforma nossa visão de mundo, pois nos autoriza a aprender com as crianças o que não sabemos, o que nunca saberemos e nem deveríamos saber: o mistério da vida, o enigma do que significa existir e compartilhar a existência.

As crianças pequenas, principalmente, em sua sabedoria tão desprezada pelos adultos, teriam muito mais a dizer, a expressar, a ensinar neste mundo estranho que estamos a criar cotidianamente. Seria tão bom se a cada nascimento de um infante nós, adultos, nascêssemos também! Olhar o mundo com olhos deslumbrados, mergulhar na alteridade, deixar-se conduzir pelo outro da infância... 

No documentário abaixo (MITÃ - criança em guarani), temos a oportunidade de pensar essa infância como um outro, de nos deixar tocar por ela na cadência tranquila da natureza que não sentimos mais. Apresento-o como sugestão de encantamento para que tenhamos um Natal mais amoroso, criativo e contemplativo, após um ano tão desesperançoso. 
Quem sabe assim tenhamos coragem para ao menos tentar nascer diferente em 2017!





Texto O Enigma da Infância - ou o que vai do impossível ao verdadeiro:

Entrevista de Jorge Larrosa:


sábado, 10 de dezembro de 2016

10 de Dezembro: Direitos Humanos


Hoje comemora-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. 
Nessa data, em 1948, foi proclamada a Declaração Universal de Direitos Humanos
pela Assembléia Geral das Nações Unidas, 
como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e países. 

Conheça e participe da nova Campanha da ONU: 


Manifeste-se pelos direitos de alguém hoje



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Das palavras que se foram em 2016

Nada mais para dizer. 

As palavras se calaram, as palavras se extinguiram.
Tento pronunciá-las, mas elas se vão, arrastadas pelo vento anunciador da morte.
Quem me dera encontrá-las novamente por aí, em qualquer lugar, de qualquer maneira.
Por que será que me abandonaram? Onde estarão agora?

Palavras que sempre me habitaram, palavras que me constituíram, palavras que me disseram o que é o mundo... essas palavras, fundadoras de mim, já não existem.
Como será possível inventar uma poesia, pensar uma emoção ou chorar um grande amor?
Se até nossas lágrimas são feitas de palavras! 
Nossas tristezas são balbucios de letras esmagadas e nossas alegrias são gestos silábicos quase impronunciáveis!

Os escritores e poetas - Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Monteiro Lobato, José Saramago, Virginia Wolf, Proust, Kafka, Shakespeare... como sobreviverão sem as palavras?
Aflitos na tumba, choram em desespero e lamentam a tragédia do século XXI.

Porque sem as palavras, todos sabemos, é o vácuo quem conduz.

A história não cansa de ensinar, mas os seres que se denominam humanos se recusam a aprender.
Da palavra humano, o que restou?
Da palavra grupo, o que sobrou?
E da palavra diferença, algo sobreviveu?

A palavra holocausto, a palavra sofrimento, a palavra crueldade, a palavra amor... todas foram extintas do dicionário pós-moderno. 
Ninguém se lembra o que elas significam!
Foi necessário tanto tempo para criá-las, tampouco agora elas existem.

Será preciso uma nova linguagem para que o planeta não pereça, junto às palavras que ainda restam, mesmo em vias de extinção.
Será preciso um novo código, uma nova ética, um outro verbo.


Foi para isso que os indígenas, filhos originários e primordiais, resistiram à estupidez civilizatória.
Para nos dar a possibilidade de criar outras palavras, as palavras que realmente importam e asseguram a vida.

Em A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami, encontraremos o que perdemos: o nós, o outro, o ancestral, a floresta, a beleza, a criação.

Talvez uma última chance, creio que vale a pena tentar!


NOTA: O livro A Queda do Céu foi escrito por Davi Kopenawa, liderança yanomami e xamã, junto a Bruce Albert, antropólogo francês. Nesta obra de antropologia e arte, Davi conta a história de seu povo, da floresta amazônica e de sua rica mitologia, buscando ser ouvido pelos brancos, como ele nos denomina. Bruce Albert o ouviu e traduziu suas palavras, que finalmente chegaram ao "Ocidente civilizado".

O prefácio do livro foi escrito por Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro e está disponível na rede: https://acasadevidro.com/2016/03/16/o-recado-da-mata-eduardo-viveiros-de-castro-prefacia-a-queda-do-ceu-de-davi-kopenawa-e-bruce-albert/