quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Por uma nova ética


Encantamento não é uma palavra tão usual nos dias de hoje. Talvez o que mais temos ouvido ultimamente sejam palavras e frases que expressam o sentido contrário: desânimo, medo, intolerância, ódio. Vivemos tempos muito difíceis, não tenho dúvida, mas isso não significa que não possamos criar novas maneiras de agir, de pensar e de nos relacionar uns com os outros.

Um dos mais recentes livros da filósofa americana Judith Butler (reconhecida internacionalmente pela formulação da Teoria Queer), que esteve no Brasil em setembro, aponta para esta direção e por isso é uma obra de arte rara, a meu ver, encantando profundamente as pessoas mais reflexivas, que estão discutindo o Homem na contemporaneidade.

Relatar a si mesmo – Crítica da violência ética é um livro absolutamente necessário, nesse momento em que o Outro, enquanto pessoa dotada de humanidade tanto quanto o Eu, não tem mais existência. As relações que experimentamos no nosso cotidiano carecem de reconhecimento: não vejo o outro, não o reconheço em suas necessidades e não o afirmo como ser humano. Na mesma medida, também não sou reconhecido.

Butler discute a possibilidade de uma nova ética a orientar nossas relações, partindo da investigação de vários filósofos, como Foucault e Hegel.  Nesta ética a ser criada, teríamos que admitir, em primeiro lugar, “nossa cegueira comum, invariável e parcial em relação a nós mesmos.” Desta compreensão sobre quem somos, imperfeitos, falhos ou opacos (esta última palavra é a utilizada por Judith Butler), decorreria a aceitação dos limites do outro: “Quando pedimos para conhecer o outro, ou pedimos para que o outro diga, final ou definitivamente, quem é, é importante não esperar nunca uma resposta satisfatória.”

Por essas e tantas outras reflexões de Judith Butler, repletas de lucidez, seriedade e sabedoria, é que a vida me encanta.

Mesmo sabendo que é cruel recortar trechos de um livro, principalmente na área de filosofia, não resisto. Ao discutir juízos de valores que nos levam a acusar e condenar os outros, a filósofa afirma:

"Considere que, quando suspendemos o juízo, realizamos um tipo de reflexão que possibilita uma maneira de nos tornarmos responsáveis e de conhecermos a nós mesmos. A condenação, a acusação e a escoriação são formas rápidas de postular uma diferença ontológica entre juiz e julgado, e ainda de se expurgar do outro. A condenação torna-se o modo pelo qual estabelecemos o outro como irreconhecível ou rejeitamos algum aspecto de nós mesmos que depositamos no outro, que depois condenamos. Nesse sentido, a condenação pode contrariar o conhecimento de si, uma vez que moraliza o si-mesmo, negando qualquer coisa comum com o julgado.” (p 65)

Nem é preciso dizer o quanto a discussão proposta em Relatar a si mesmo - Crítica da violência ética, é emblemática no mundo atual do qual fazemos parte.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O fim da experiência? Ou a criação?

Muitos são os autores e filósofos que discutem ou especulam sobre o “fim da experiência”. Walter Benjamin (século XX) foi um destes investigadores do homem na modernidade, discorrendo sobre a importância das narrativas que nos constituem. Conforme desaparecem os narradores, que são os contadores das pequenas histórias, pessoais e coletivas, familiares e sociais, desaparece também a nossa própria história e, com isso, a possibilidade da experiência.

Quando nos esquecemos do passado, demarcados pelo cotidiano massacrante e caótico em que vivemos, também abortamos nossos laços históricos e nossa memória, tanto individual quanto grupal. Dessa maneira, mesmo sem perceber, as possibilidades de atribuir sentidos para nossas vidas diminuem significativamente.

Eric Hobsbawm, no livro a Era dos Extremos – O breve século XX, escreveu: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.”

Infelizmente constatamos essa realidade sem nenhuma dificuldade. Não apenas os jovens, mas os adultos já não se veem nem se compreendem como parte do passado e da história. Penso que a urgência imediatista em viver o futuro, cada segundo que virá, nos condiciona a um terrível vazio no tempo presente. Somos tomados pela ansiedade de responder a cada clique do celular, do facebook, do whatsapp. Somos engolidos pela mídia o tempo todo, aprisionados nesse sistema que nos propõe existir somente através das teclas.

É então que, de repente, sentimos algo estranho pulsar, uma implacável solidão e as vezes vontade de chorar. Quem será que somos neste momento? Quem é o outro? Estamos em relação com esse outro ou estamos sozinhos? O que realmente desejamos para nossas vidas? Se morrermos daqui a um minuto, vamos sentir que vivemos ou que apenas passamos pela vida sem tocá-la, sem experimentá-la?

Algumas pessoas acham que estas respostas podem ser encontradas dentro de si mesmas, mas isto é um equívoco propagado pela cultura individualista e narcisista dos nossos tempos. Para olhar dentro de nós, antes é necessário que olhemos para o outro. Se isso não ocorrer, ou seja, se não olharmos para o outro primeiro, quando olharmos para nós mesmos só encontraremos o vazio, o nada. Somos constituídos pelo outro desde que nascemos. Senão cuidarem de nós quando bebês, morremos rapidamente. Portanto é o outro que nos assegura vida e sobrevivência.

Desde os séculos XVII/XVIII, contudo, somos ensinados a não considerar a existência do outro, o que atualmente, com as novas tecnologias, se agravou. Diante disso precisamos criar outras formas de relação, ousar encontros inesperados, exercitar olhares para o diferente; questionar a conduta da alta performance, que nos ordena a fazer tudo ao mesmo tempo e com a máxima eficácia, não importando o custo.

Tanto o presente quanto o futuro, embora pareçam definidos, permanecem abertos. Esta também foi uma reflexão de Walter Benjamin.