sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Identidade ou identidades?

“Um nome não é mais do que isso: um epitáfio. Convém aos mortos, aos que concluíram. Eu estou vivo e sem conclusão. A vida não tem conclusão – nem consta que saiba de nomes.”

Um Nenhum Cem Mil – Luigi Pirandello


Luigi Pirandello ( 1867-1936 ), escritor italiano, Nobel de Literatura em 1934, foi um autor excepcional, tendo escrito peças, contos, romances, poesias e ensaios. Sua vasta obra propicia inúmeras reflexões absolutamente contemporâneas, sendo que uma delas diz respeito ao conceito de identidade.

Pirandello não era filósofo nem estava interessado em discutir estas questões do ponto de vista acadêmico ou cientifico. Como escritor, no entanto, ele nos apresenta personagens interessantes, em constante conflito consigo mesmo e com a sociedade.

Tanto nos romances Um Nenhum Cem Mil quanto em O Falecido Mattia Pascal, por exemplo, os protagonistas buscam incessantemente novas formas de ser, viver e estar no mundo, colocando-se em confronto com aquilo que os outros esperam deles.

O sofrimento é permanente, já que os seres humanos são seres trágicos: há angústia de todo modo, com a submissão aos valores da sociedade ou, ao contrário, com a revolta. Qualquer posicionamento exige um preço a pagar e é necessário fazer escolhas, que nem sempre são conscientes.

Posso ser uma pessoa para meu filho, posso ser outra pessoa para meu cliente: em mim habitam múltiplos personagens, configurando-se muitas identidades que se expressam ou não, dependendo das relações que participo. Não há uma unidade tão estável assim, como estamos acostumados a pensar, que mantém os indivíduos em um padrão único de comportamento, relacionamento e sentimento.

Pirandello nos convoca, sem querer, a romper com paradigmas da psicologia e de outras ciências. Em pleno século XXI discute-se as diversas identidades sexuais, que podem formar-se e transformar-se de acordo com as experiências. Não somos um, ou somos? Podemos ser vários? E se formos mais de um, como fica o conceito de identidade? Teríamos várias identidades?

Escritores como Pirandello merecem ser lidos eternamente, serão sempre contemporâneos!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Infância: asas que voam para a imaginação?

“a infância é devir; sem pacto, sem falta, sem fim, sem captura; ela é desequilíbrio, busca; novos territórios; nomadismo; encontro; multiplicidade em processo, diferença, experiência.”
Walter Omar Kohan


Todos fomos crianças um dia e muitos gostariam de voltar a ser. Basta observar as fotos postadas no facebook esta semana: lembranças de infância, memórias de crianças já adultas, perfis com imagens infantis. Se pudéssemos, voltaríamos no tempo?

A imagem idealizada da infância persiste no compartilhamento em redes sociais e na mídia, embora saibamos qual é a realidade das crianças, em diferentes lugares do mundo. É claro que é gostoso lembrar momentos alegres que construíram nossas vidas, propiciando descobertas e trocas afetivas para que nos tornássemos o que somos hoje. Porém, é também óbvio que essas lembranças só estão sendo partilhadas em função do dia da criança, que é uma data de apelo ao consumo. Sem perceber, tudo o que fazemos na internet com nossas postagens faz parte do mundo do consumo, queiramos ou não.

E a infância, é consumo? Se o ser humano transformou-se em artifício que obrigatoriamente deve render lucros, o que resta às crianças? Há alguma outra possibilidade de viver a infância nas cidades, que não seja consumir desesperadamente os aparelhos eletrônicos?

Para criarmos outras infâncias, é possível que precisemos rever nossos conceitos. Walter Kohan, filósofo argentino e pesquisador, nos desafia a criar novas imagens da infância, que considere a experiência de ser criança como uma possibilidade de existência humana, a ser vivida em qualquer idade, independente da ordem cronológica.

“Não nos preocupemos com o que a infância pode ser, mas com o que ela é. Asseveraremos a infância como símbolo da afirmação, figura do novo, espaço de liberdade. A infância será uma metáfora da criação no pensamento; uma imagem de ruptura, de descontinuidade, de quebra do normal e do estabelecido.” Infância – entre Educação e Filosofia. Walter Omar Kohan, Ed. Autêntica, 2003.

Nesta visão, ao contrário do que constatamos diariamente, a infância representaria a novidade, a criatividade, a espontaneidade e a transformação permanente, e seria uma experiência possível para todos, sem importar a idade.

Todos poderíamos nos transformar, criar e aprender a fazer as coisas de formas diferentes. Para isso, no entanto, teríamos que interromper esse processo contínuo e desgastante de reprodução do mesmo, no qual estamos aprisionados. Valores rígidos que não mudam, práticas que se repetem neuroticamente, brinquedos prontos, jogos vazios, palavras mortas.

É fácil notar que em pouquíssimo tempo as crianças percebem que o que ganham é só pra consumir rapidamente, não é para criar, inventar, brincar, perder o controle e voar nas asas da imaginação. Se voassem, seriam mais felizes.