sábado, 12 de agosto de 2017

Caríssimo pai



Sentindo a falta da sua presença, querido pai, fiquei a pensar se as palavras poderiam ter um caminho apaziguador dentro de mim, ainda que provisoriamente. Afinal, para que servem as palavras senão para isso, caríssimo pai?

As palavras do século XXI estão perdendo os sentidos, sabe, estão sendo abandonadas no limbo da história humana. Ninguém entende direito o que está a ocorrer neste mundo que nunca foi lúcido, mas que agora desandou a uma tal enfermidade sem nome. Faltam palavras para nomear quais são os sintomas que nós, habitantes do planeta Terra, estamos produzindo. Nem os psiquiatras dão conta do remédio!

Mesmo assim, mesmo com o nazismo renascendo e o ódio se encarnando novamente nas relações entre as pessoas e entre as nações, eu sei que você preferiria estar vivo, junto a nós, enfrentando a doença da humanidade – não é mesmo, pai?! Sim, porque a sua vitalidade sempre foi algo contagiante!

A morte não lhe seduzia, já a vida... sempre eterna no pensamento e no coração! Devagar, porém não tanto assim, a morte foi anunciando seu sequestro, sua partida mais do que dolorida há quase dez anos.

E nesse tempo que as vezes parece não termos percorrido sem você, as lembranças perseveram e se confortam em minha memória. Imagens de infância, receios de adolescente, sorrisos ternos, olhares meigos ou severos, doces frases inesquecíveis, valores como honestidade, sentimentos de tristeza e alegria.

Não há como esquecer muitos dos minutos compartilhados, do entusiasmo nas conquistas, das dores suportadas e, principalmente, da afetividade no olhar... com aquelas lágrimas à espreita, de todo modo sutilmente reveladas, conclamadas à existência. Eu realmente tenho muito a lhe agradecer, estimado pai, porque tamanha afetividade me fez gente, me fez existir e ser quem sou. É a você, em primeira instância, a quem atribuo um certo lugar nesse universo, um elo com a vida que a transforma em fonte de amor e riqueza.

Por isso tudo, admirado pai, não posso imaginar que você apoiaria qualquer uma dessas manifestações fascistas que hoje empolgam parte da sociedade em franca involução. Lamento sua ausência, por ela choro. Orgulho-me, ao mesmo tempo, em saber que se você estivesse aqui, estaria tecendo diálogos e conciliações.  

Todo meu afeto, minha consideração e dignidade, é a ti que concedo. Obrigada.

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