domingo, 25 de junho de 2017

Fronteiras ArtePsicodramaFilosofia: ressonâncias

Conforme já divulgado aqui, o Evento Fronteiras ArtePsicodramaFilosofia ocorreu de 15 a 17 de Junho, em São José do Rio Preto/SP, através do Instituto Rio Pretense de Psicodrama, possibilitando vivências e reflexões importantes sobre a nossa relação com a sociedade e com o espaço urbano no qual circulamos cotidianamente.
O texto que segue foi lido na Abertura, escrito por um dos organizadores do Evento, DEVANIR MERENGUÉ, Psicólogo e Psicodramatista.






"Desde muito cedo aprendemos que existem corpos, substâncias. Que existe algo chamado eu e algo chamado outro, que existe a rua e o vizinho, bairros e cidades. Aprendemos a respeitar e a transgredir: as cercas, as paredes, a linha amarela, a linha vermelha. Parar e ultrapassar marcas fortes e marcas fracas, sinais para se levar a sério e outros nem tanto.
Aprendemos desde muito cedo que na rua acima as pessoas são “boas” e as da rua abaixo, gente “pouco selecionada”. Que certas coisas podem ser feitas em público e outras, não. Que existem regras visíveis e regras invisíveis. Enfim, que existem fronteiras por todo lado... E todas essas linhas, todas essas demarcações nos constituem como sujeitos, como sujeitados. 




Logo aprendemos também que existem conhecimentos que a mãe diz, que o pai diz, que a mãe diz que a avó disse, que a professora diz que o historiador disse citando uma fonte que disse que disse. Que existem disciplinas que disciplinam com nomes como Geografia, Matemática, História e que quem fala delas são pessoas diferentes que sabem coisas diferentes: geografia é diferente de matemática e que uma coisa nada tem a ver com a outra. As fronteiras são claras, marcadas por horários, agendas, livros bem distintos.

Nos descobrimos meninos ou meninas. E que as fronteiras são claríssimas: quando alguém migra com uma cor dissonante, cor errada, sapato errado, cabelo errado... logo será punido severamente. As fronteiras são muito evidentes e elas estão em todos os lugares do mundo. 



E ficamos sabendo, sem ainda saber, um universo simbólico de gestos adequados e gestos inadequados, de olhares, modos de usar o corpo que serão premiados ou punidos.
Logo começaremos a entender que os pensamentos e os sentimentos também poderão ser certos e errados. E que devemos escondê-los, punir a nós mesmos, driblar a culpa, produzir sintomas sofridos o suficiente para equilibrar a economia psíquica. Compreendemos que existe um fora e um dentro. E mais uma fronteira.
E virão as medalhas, os prêmios que produzirão as vaidades. Serão escolhidos entre todos, os melhores, os mais bonitos, os mais inteligentes, os mais capazes. E descobriremos os pódios, as tribunas, os púlpitos. Os ganhadores e os perdedores. Descobriremos também alguém que nem ao menos entram nos concursos, os que não servem para nada, os do fundo da sala, os insignificantes, os invisíveis. Descobriremos que existe o fim do mundo, lá onde não vemos nenhuma fronteira. 




E que jamais, mas jamais mesmo, devemos ser um deles, nem jamais devemos pisar lá, a não ser muito eventualmente como turistas. Depois das fronteiras existem as putas, os bandidos, os desclassificados, as bichas loucas... com quem não devemos nunca nos misturar.
Os lugares proibidos, os lugares sagrados, as zonas cinzentas, os pátios iluminados, o clube dos pretos e o clube dos brancos, a zona do meretrício, as margens, as marcações simbólicas para raças ditas superiores e as ditas inferiores.... Tudo com seu tempo e seu lugar e funcionando conforme as engrenagens, com as devidas manutenções para que nenhum parafuso solte...


Desenhar mapas, escrever tratados, produzir teorias do que é certo e errado para que toda a gente veja. E deixar ameaças veladas no ar para os transgressores, punir vez ou outra um metido à besta que desafie os poderes tão claramente estabelecidos. Por que é preciso dar exemplo e para isso os transgressores são bem-vindos. Para mostrar quem manda...
E para quem servem as fronteiras, os limites, os limiares, as balizas, as marcas, as margens?


Com toda certeza para controlar, identificar, organizar, separar, ordenar, nomear, mas também para sabermos que cerca podemos pular, qual o ponto do muro que apresenta falhas, onde está o furo...
A necessidade de controlar o imaginário humano, de transformar qualquer espaço de liberdade em experiências identificáveis e com o máximo de controle sempre foi possível. E aí estão partidos, fundamentalismos, seitas, teorias, ensinamentos que não me deixam mentir.... Não estão a serviço da libertação humana, mas de mais e mais controles. 




Que fiquem nomeados os continentes, as raças, as pobrezas, as doenças, as culturas. Que fiquem bem claro o bem e o mal, o certo e o errado, quem manda e quem obedece, quem pode e quem não pode. Que sejam levantados muros para separar e que novos tiranos sejam eleitos para assumir estas bandeiras. Não podemos esquecer que, de um modo ou de outro, os tiranos são aprovados, consentidos, desejados. Explicitamente ou não, conscientemente ou não, fazemos pactos, contratos com o autoritarismo.
E isto pode ser naturalizado. Como se a vida fosse isso, como se viver fosse apenas isso.
Mas existe o acaso, assim como a diferença, o vazio, o indeterminado, o imprevisto. Existem os tons não catalogados, o inominado, o inapreensível fora da ordem unida, fora das certezas e dos clichês. 
Entre as fronteiras, híbridos encontrados solitária ou solidariamente, pontos de vida intensa para além dos discursos.



Usando uma metáfora: tentar olhar o mundo com olhos de ave e ver que para além do dia e da noite podemos encontrar manchas de sol e de lua para se inventar a vida.
E quando formos pássaros perseguiremos o nascer e o pôr do sol, o nascer da lua e as brisas do sul, voaremos para além das fronteiras que serão vistas de cima e não terão tanta importância. 
E caminharemos sobre elas, orgulhosos da mestiçagem, porque poderemos estar de qualquer lado, nos vendo transformados em aves com penas de todas as cores."

www.devanirmerengue.com.br

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