quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Alta Performance: o massacre da infância



A sociedade do desempenho vem se consolidando no século XXI de maneira avassaladora. Nada nem ninguém fica à deriva dos valores estimulados pela concepção de rendimento e eficiência máxima, culto à competição, produtividade e eficácia sem limites. O homem contemporâneo é um “sujeito empresarial”, conforme definição dos filósofos franceses Pierre Dardot e Christian Laval, na obra-prima A Nova Razão do Mundo.

Enquanto sujeitos empresariais tentamos acriticamente gerenciar nosso tempo, nossa vida e nossas relações humanas a partir de uma ótica empreendedora, na qual o que importa é sempre o nosso próprio lucro e sucesso, também denominado “gozo” pelos filósofos citados. Naturalizada entre nós, esta lógica empreendedora (ou neoliberal) tem custo, faz vítimas e amplia o sofrimento psíquico.

É fato que nossa subjetividade vem sendo constituída, há tempos, para aceitar e jamais questionar tal sistema de sociedade. Por isso, em geral, não nos alarmamos quando observamos crianças chorando porque perderam um simples jogo na escola, ou porque tiraram uma nota um pouco mais baixa. A preocupação começa quando percebemos, porém, que a depressão é contínua, ou que o medo de ir à escola se transformou em fantasmas noite adentro, com bonecas falantes e cavalos assustadores voando pelo teto.


Pois bem, a alta performance exigida pela sociedade, incluindo todas as instituições - família, escola, mídia, religião, etc - está adoecendo nossas crianças e adolescentes, levando-as a níveis insuportáveis de sofrimento mental, explicitados em sintomas de depressão, ansiedade, perversão e até suicídio, principalmente nas classes médias e altas.

A norma principal transmitida pelos adultos às crianças, consciente ou inconscientemente, é que elas precisam ganhar/vencer o tempo todo e a todo custo, sob pena de perderem algo importante e serem, assim, punidas. Por isso não podem errar jamais. Errar é, literalmente, imperdoável. Errar um gol, errar uma palavra, errar um gesto, errar um pensamento...  Não é permitido, é necessário ser perfeito (leia-se acertar) em nome do alto rendimento e da alta performance.

Sob tais condições, comove profundamente acompanhar a expressão do imaginário infantil, seja em jogos dramáticos ou gráficos, que narram imagens sobre esse mundo doloroso e repleto de culpa individual. Guerreiras essas nossas crianças a brigar por um pouco de paz, contando-nos histórias de meninos abandonados pela família porque não conseguiram fazer gol, onças que tiveram seus filhotes roubados porque deles cuidavam muito devagar, patinhos humilhados em seu habitat por não serem capazes de nadar igual aos outros, coelhos frágeis que precisam desesperadamente se esconder porque serão devorados por enormes leões!

A estas crianças massacradas correspondem pais igualmente assolados pela culpa, que merecem cuidado e compreensão. Pais que supõem nunca poder errar, pais a quem temos que proclamar indefinidamente que errar é humano, que ser frágil faz parte da vida e que ter dúvidas significa bom senso.

Por tudo isso entendo ser mais do que urgente nos perguntarmos enquanto sociedade: o que queremos para nossos filhos, como desejamos que seja o futuro?

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