quinta-feira, 30 de junho de 2016

Indivíduo: disciplina, culpa e sofrimento

Partilhamos de uma sociedade de controle tão efetivo que em geral não percebemos quais valores e conceitos internalizamos como se fossem naturais. Vivemos sem a condição de avaliar que nossas vidas poderiam ser diferentes. Tendemos, muito pelo contrário, a naturalizar nosso modo de ser, desprezando nossa própria história pessoal e social.

Nem sempre as pessoas viveram da maneira como vivemos atualmente, é sempre bom lembrar! Existiram muitos períodos na humanidade, com políticas e organizações grupais diversas, formas de alimentação e trabalho variados, sofrimentos, afetos e valores nada semelhantes aos nossos. Aproximadamente a partir dos séculos XVIII / XIX, pode-se afirmar, começamos a nos tornar esse "sujeito da modernidade", posto que nesse momento emergiu o conceito de indivíduo junto à tecnologia da disciplina.

Segundo Michel Foucault, célebre e polêmico filósofo francês, estudioso das relações de poder, o indivíduo foi uma construção histórica necessária às novas formas políticas de gestão das populações, típicas da era pós revolução francesa. A disciplina instituída tanto na família como no trabalho, por exemplo, tinha por função submeter as pessoas à normatização que estava sendo criada no incipiente sistema capitalista. Para funcionar, tal processo de disciplinarização demandava a constituição de um corpo singular, assujeitado à norma, ou seja, o indivíduo.

A concepção de indivíduo tal como a conhecemos hoje, nasce, portanto, junto com a de sujeito, que para Foucault implica no "ser assujeitado", estar ajustado aos padrões da disciplina que os poderes obrigam. A sujeição ocorre por mecanismos que apelam para nossa subjetividade, no sentido de propiciar que certos valores, regras e condutas sejam compreendidas e percebidas como normais/boas/saudáveis, em oposição a outras, consideradas anormais/ruins/patológicas. Logo, cada um de nós, indivíduo, é enquadrado e se enquadra em um ou outro polo. A responsabilidade pelo enquadramento, de acordo com os parâmetros narcísicos contemporâneos, evidentemente é toda nossa, individual. 

Não à toa seguimos, enquanto profissionais da área de saúde mental, acompanhando as pessoas em estado de grande sofrimento emocional, simplesmente porque não tiveram tanto sucesso em alguma área da vida, ou porque estão passando por uma fase difícil e se culpabilizam exageradamente. Não à toa acolhemos crianças deprimidas ou adolescentes tentando o suicídio porque compreendem que não estão à altura do que a sociedade e a família lhes exigem. Não à toa os portadores de inúmeras doenças, como o câncer e a diabetes, além de sofrerem com os sintomas físicos também sofrem porque se sentem culpados pela doença. 

Eis o indivíduo dos nossos tempos, disciplinadíssimo na auto punição culpabilizadora e infinita, já que nunca é possível sentir-se satisfeito ou um pouco menos fracassado. Até a felicidade tornou-se obrigação, dever de cidadão equilibrado. No mercado da auto-ajuda, pululam manuais que vendem novas normas para ser feliz, todos os dias! O indivíduo requisitado "tem que" ser feliz, auto confiante, comunicativo, carismático, inteligentíssimo, pragmático e reflexivo ao mesmo tempo, solidário e competitivo na mesma medida, bonito, esbelto, paciente, persistente, etc, etc. O indivíduo requisitado já é um fracasso em sua própria concepção, ou não?

Alguma dúvida de que é preciso reinventá-lo? Não sei como, não tenho receita nem gostaria de ter, já que seria somente mais uma regrinha destinada ao consumo. Acredito, no entanto, que a crítica e a reflexão podem iluminar algumas das nossas consciências, criando lentamente possibilidades outras.


sábado, 18 de junho de 2016

Festival Dia da Música



Neste sábado dia 18 está ocorrendo a segunda edição do festival Dia da Música, que busca dar mais visibilidade aos músicos independentes do Brasil. Por isso destaco um magnífico músico, instrumentista e compositor piracicabano, Alessandro Penezzi, que merece toda consideração, afeto e admiração. Basta ouvir o vídeo.

sábado, 4 de junho de 2016

Da comoção que nos falta

Um dos temas mais interessantes a serem discutidos na modernidade, do meu ponto de vista, é a comoção. Refiro-me à comoção como a capacidade que temos ou não de nos comover com o outro, de sermos tocados e afetados (no sentido de afeto) por alguém com quem convivemos ou nem conhecemos. No Psicodrama, esta capacidade é o próprio fundamento da técnica, da filosofia e da teoria. Não há relação de ajuda possível se não houver comoção, pois é através deste sentimento que nos colocamos no lugar do outro e possibilitamos envolvimentos afetivos transformadores.

O momento histórico que estamos vivendo sinaliza cada vez mais a ausência de comoção social no tocante às chamadas minorias: refugiados, imigrantes pobres, negros, transexuais, doentes mentais. A Anistia Internacional Brasil, por exemplo, vem chamando atenção, frequentemente, para a grave situação das periferias brasileiras, nas quais ocorre um genocídio de populações marginalizadas, vitimando especialmente meninos negros, assassinados pela polícia. Em um dos relatórios da Anistia, Átila Roque, diretor da organização, afirma que não há comoção alguma por parte dos cidadãos a respeito das diárias mortes desses meninos pobres. Predomina a indiferença absoluta, o que acaba por autorizar os assassinatos.


A pergunta que segue é inquietante: por que não nos comovemos com essas mortes? Quais são os mecanismos que garantem a indiferença e quais as possíveis estratégias que poderiam estimular uma outra percepção, abrindo perspectivas para a comoção?

Judith Butler, filósofa americana cuja obra se alicerça em um dos maiores filósofos do século XX, Michel Foucault, problematiza de forma elucidante a questão. Afirma ela que todos nós estamos sujeitos a enquadramentos sócio culturais, isto é, molduras que direcionam nossa interpretação sobre o mundo, delimitando nossos afetos e valores acerca da vida e da morte. A imagem, por sua vez, constitui o enquadramento mais potente da sociedade. Como exemplo, podemos citar o telejornalismo brasileiro: qual a narrativa produzida pelos canais Bandeirantes, SBT e Globo a respeito dos moradores da periferia?

Em geral os pobres, em sua maioria negros, são literalmente enquadrados pela polícia, como se fossem todos bandidos. Sendo assim, passam a representar, no imaginário social, uma ameaça à vida humana, o que justifica e legitima a perseguição e o assassinato constante pelos agentes do Estado. A vida destas pessoas são "vidas não vivíveis", segundo Butler, pois não há reconhecimento de "vida a ser vivível" para elas. Este é o enquadramento produzido para diversas populações civis do globo terrestre, que Butler denomina "populações sacrificadas", ou melhor, populações geridas pela lógica do extermínio. 

"Essas populações são "perdíveis", ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tendo sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos, e não como populações vivas que necessitam de proteção contra a violência ilegítima do Estado, a fome e as pandemias." Butler, J. - Quadros de Guerra - quando a vida é passível de luto? 


Qual o nosso papel e a nossa responsabilidade, como seres humanos, frente a isso? Se nos sentimos indiferentes, com medo ou com ódio, não nos responsabilizamos, não nos importamos. Pelo contrário, justificamos as mortes pela própria ótica do extermínio, muitas vezes sem perceber. São necessários outros enquadramentos, que estimulem novas percepções, novos olhares e novas respostas afetivas, visando enfrentar o desafio de conceber uma ética global, que reformule o conceito de responsabilidade frente às condições precárias das populações sacrificadas.

A arte - fotografia, cinema, teatro, literatura -, os meios de comunicação como a internet, os grupos - ongs, movimentos sociais de mães e estudantes -, os intelectuais e todos os profissionais que se empenham em estudar e produzir conhecimento crítico formam redes que vêm se articulando, no sentido de criar enquadramentos diferenciados daqueles que a mídia dominante nos apresenta. Desta maneira torna-se possível ampliar e fortalecer a comoção necessária para reivindicar a vida como um direito de todos. 

Nesta era de retrocessos em que estamos, nada mais urgente.