quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Relato sobre um filme perturbador: Filho de Saul

Na sala escura do cinema onde assistíamos Filho de Saul (concorrente ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2016 e premiado em Cannes/2015), nenhum som se torna audível além dos gritos e gemidos das pessoas que estão sendo mortas durante a II Guerra Mundial. Não há movimento algum do público, ninguém fala nem come, quase nem se respira! Filho de Saul é um daqueles filmes que emudece nossa alma, inibe nossa sede e fome, cala nossa voz e impede nossas lágrimas. O choro fica preso na garganta diante de tanta crueldade.





















Não aquela crueldade dos filmes americanos de grande sucesso comercial, no qual as cenas sádicas provocam êxtase no público. Absolutamente, não se trata disso. O diretor húngaro László Nemes optou por falar sobre as atrocidades cometidas contra os judeus de uma outra maneira: através dos olhos de Saul - o personagem principal - adentramos em um campo de concentração nazista. A câmera insiste em se posicionar atrás da cabeça de Saul (câmera no ombro, sem tremer), seguindo-o e conduzindo-nos em direção a um labirinto sinistro, sombrio e absurdo. Desse modo, as imagens da violência surgem desfocadas, ao contrário do som, cujo registro do sofrimento é impecável. Nós ouvimos a dor, os assassinatos e a morte. Podemos até sentir o cheiro das cinzas e ficar com náusea, paralisados, aterrorizados.

O que nos resta após uma experiência cinematográfica de tamanha intensidade? Falar, escrever e refletir sobre ela, como muitos críticos de cinema e pessoas que se sensibilizaram estão fazendo. Por ser um filme tão denso e sufocante, perguntamo-nos qual o sentido de assisti-lo, e a resposta, a meu ver, não deixa qualquer dúvida: porque é necessário conhecer a história para pensar sobre o que ainda não aprendemos. Ou será que nos tornamos mais humanos a partir de Auschwitz?

Se Filho de Saul não fosse um filme necessário, não teria havido, após a II Guerra Mundial, tantas outras atrocidades que continuam até o presente. Vietnã, ditaduras da América Latina, Palestina, Kosovo, Iraque, Síria, massacres e genocídios na África, no Brasil e em muitos lugares do globo terrestre. Quantos serão os filhos de Saul e quem são? Refugiados, pobres, negros, índios, imigrantes, islâmicos, homossexuais, transexuais e muitos outros dos quais temos algumas notícias, tantas são as intermináveis guerras visíveis ou invisíveis que assassinam seres humanos, garantindo o lucro das indústrias bélicas.


No atual momento, por exemplo, a tecnologia dos drones faz vítimas jamais noticiadas pelas mídias. Crianças, mulheres e homens pobres, de comunidades islâmicas distantes são assassinadas diariamente pelos drones americanos em nome do combate ao terrorismo. Através do livro A Teoria do Drone, do filósofo francês Gregoire Chamayou, acompanhamos impotentes mais um extermínio de povos.

E é justamente por tudo isso que um filme como Filho de Saul merece ser criado e apreciado pelo público, para que nos lembremos, para que não esqueçamos e para que tenhamos a dignidade de nos pronunciar contra a barbárie.  A arte também tem essa função, quem sabe possa nos provocar alguma comoção. Se estivermos abertos, se quisermos saber.