domingo, 15 de novembro de 2015

Despedida



 




Para alguém que hoje se foi, alguém tão importante neste mundo estranho.
Um dos mais criativos psicodramatistas do Brasil e da América Latina, Moysés Aguiar.
Nossa despedida com lágrimas e poesia!

Hilda Hilst, Da Morte, Odes Mínimas:

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos,cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho.

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O papel da psicoterapia










Francis Bacon: 1909 - 1992
Auto retrato










Muitas são as formas de conceber o papel da psicoterapia na vida de uma pessoa, um casal ou uma família, sendo que o sofrimento é a questão principal na condução tanto daquele que busca ajuda quanto do próprio terapeuta.

Em geral as pessoas procuram psicoterapia na perspectiva de obter um alívio imediato para a dor, o que só é possível através de medicamentos, dependendo do quadro clínico. Numa sociedade pragmática e imediatista como a nossa, não poderíamos esperar outra coisa: um tratamento psicológico deveria “curar” rapidamente o sujeito que sofre. Ah, quem me dera ter esse poder!

Apesar da mídia divulgar cotidianamente feitos maravilhosos no campo da saúde mental, não é esta a realidade que vivemos. Infelizmente as frases de autoajuda, tão em voga no momento, não têm a capacidade de produzir um ser humano feliz (“pense positivamente todos os dias que seus problemas serão resolvidos”, “ame-se mais do que tudo na vida”, “não ligue para o que os outros pensam de você”, etc); infelizmente a cultura da máxima performance, que dissemina a ideia de que “nós podemos superar todos os obstáculos, podemos alçar voos sem limites, tudo depende apenas de nós mesmos”, só vem promovendo mais sofrimento, na medida em que desconsidera as relações e culpabiliza o indivíduo, sozinho, pelos erros e fracassos. Infelizmente, mesmo a indústria farmacêutica, tão empenhada na pílula da felicidade, por enquanto só consegue fabricar uma espécie de euforia, um sentimento que vem mas vai embora quase instantaneamente, deixando enormes vazios.

É fato, portanto, que somos seres muito mais complexos do que pode parecer em um primeiro olhar, seja este do senso comum ou da ciência. Não há nenhuma filosofia, psicologia, medicina, prática ou processo que dê conta em absoluto dos problemas humanos, sejam eles emocionais, econômicos, políticos ou sociais. A psicoterapia é um dos recursos indicados para tratar a saúde mental e pode efetivamente contribuir com o crescimento das pessoas, a médio e longo prazo. Mas não pode salvar ninguém da dor que a vida traz, não pode se propor a oferecer respostas prontas e rápidas para questões existenciais, não pode garantir a felicidade nem o sucesso.

O papel da psicoterapia (individual ou grupal), como entendo depois de muitos anos de profissão e estudo, é auxiliar o sujeito em um novo posicionamento de vida, considerando as condições sociais, históricas e familiares. Isto quer dizer que não é possível supor o sofrimento mental isoladamente, mas ao contrário, para ajudar uma pessoa a compreender a própria dor, é preciso ajudá-la a compreender também o contexto em que vive e viveu, as relações das quais participou e participa. É preciso ainda ajudá-la a reformular as perguntas, pois quando isso ocorre, cria-se uma outra maneira de estar no mundo. 
Por exemplo, se alguém se condena tristemente por não ter ficado rico, um contraponto importante a ser instigado, cultivando novos olhares, seria: “por que, pra que e pra quem você teria que ser rico?” Esta é uma postura crítica e não subserviente, que fortalece o sujeito para pensar sobre sua própria existência em perspectivas nunca antes pensadas. Pode parecer pouco, mas com certeza não é.