segunda-feira, 20 de abril de 2015

Adolescência e Criminalidade: espelho da sociedade



O Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais, órgãos de representação de classe dos psicólogos, bem como diversas entidades e associações de defesa dos direitos das crianças e adolescentes, tais como Unicef, Fundação Abrinq, Aliança pela Infância, Anistia Internacional, CNBB, ANDI, Rede Não Bata Eduque, Instituto Alana e OAB Nacional, manifestaram-se publicamente contra a redução da maioridade penal e a favor do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, iniciando diversas campanhas de esclarecimento e debates com a sociedade.
Do ponto de vista da psicologia, esta é uma discussão que precisa ser realizada pela perspectiva da educação. Em primeiro lugar compreende-se que nós, seres humanos, somos constituídos nas relações que criamos e reproduzimos em um dado tempo histórico. Nossa subjetividade, nossas ações e valores fazem parte da sociedade em que vivemos. Então se temos um determinado número de adolescentes que cometem crimes, em todas as classes sociais - importante lembrar -, isso revela problemas da ordem dos adultos também.
As questões que deveríamos nos colocar, enquanto sociedade que se responsabiliza por seus infantes é: em que estamos errando tanto a ponto de produzir condições para a violência se alastrar continuamente? Qual o nosso papel, como cidadãos educadores, frente aos jovens? Como cada um de nós, muitas vezes sem perceber, contribui para o aumento da violência? Será que os adolescentes são violentos ou é a sociedade que é violenta? Para nos colocarmos frente a frente com essas perguntas, no entanto, é imprescindível revermos o paradigma corrente de que “o mal está no outro”: infelizmente tendemos a perpetuar essa máxima e assim não nos olhamos no espelho.
Tendo em vista que crianças e adolescentes são pessoas em desenvolvimento, vulneráveis a todo tipo de situação e experiências perigosas, entende-se que é necessário a criação de um número ainda maior de redes de proteção, apoio e educação, não de encarceramento. O desafio da sociedade é educar seus jovens, garantindo um desenvolvimento adequado do ponto de vista afetivo, social e físico.
Sabemos que nossas crianças e adolescentes sofrem violência de todos os tipos e em todas as classes sociais: violência doméstica, sexual, abandono, bulling, assassinatos. Se formos pesquisar as estatísticas, inclusive, vamos encontrar dados apontando que os adolescentes, na verdade, são muito mais vítimas do que vilões da violência: menos de 1% do total de homicídios são cometidos por adolescentes e mais de 36% das vítimas de homicídios são adolescentes, sendo que 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros. Por que não avançamos nesse debate, ao invés de reduzirmos o problema e apontarmos nossas armas para os “menores”, buscando soluções que, de antemão, sabemos que não resolverão o problema? Alguém acredita que nossos presídios “recuperam” algum ser humano?
Muitos especialistas que atuam com a problemática da adolescência vêm alertando que a redução da maioridade penal não é solução para a criminalidade e que pode, ao contrário, aumentar a violência. Os adolescentes encarcerados junto com os adultos, mesmo que tenham cometido um roubo, terão poucas chances de voltar dignamente à sociedade. É mais provável que sejam treinados para praticar atos criminosos de maior calibre. Afirmar, como muitas pessoas afirmam, que o jovem “não tem jeito”, que se cometeu um ato ilícito se tornará criminoso pelo resto da vida, então melhor que “já vá para a cadeia mesmo”, é um equívoco muito grande, um desconhecimento absoluto das potencialidades do ser humano e do papel das relações sociais na vida de todos nós.
É claro que é necessário haver punição. As instituições que cumprem medidas sócio educativas de privação de liberdade, como a Fundação Casa no Estado de SP, têm essa função. A visão de que não há punição é também equivocada. Sendo assim, por que não investir nestas instituições que já estão equipadas para atendimento dos adolescentes? E em escolas, centros de arte e cultura, ampliando os canais de abordagem a essa população? Será que a violência realmente vai se resolver com o processo de judicialização das relações sociais e de criminalização dos adolescentes? E quais seriam os adolescentes aprisionados, apenas os pobres?
Os jovens de classe média e alta também cometem crimes: uso de drogas, tráfico, roubo, invasão de residência, estupro, direção sem habilitação. Mas é muito difícil que cumpram medidas sócio educativas. A grande maioria da população dos presídios, sejam os de adultos ou os de adolescentes, são formados por pessoas pobres e em geral negras. Isso aponta para uma situação de injustiça social, que ficará ainda maior caso a maioridade penal passe a ser de 16 anos.
Ao contrário dessa proposta, nós precisamos contribuir com nossa juventude no sentido de criar caminhos preventivos ao crime, pela orientação escolar, profissional e familiar desses jovens, não pela segregação. Precisamos também desconstruir a imagem que a mídia nos impõe diariamente, principalmente a televisão com seus programas sensacionalistas de violência, apresentando jovens psicopatas cometendo crimes absurdos. Esses crimes representam uma quantidade muitíssimo pequena da realidade, mas quando abordados de maneira espetacular criam a ilusão de representarem o todo, ou seja, fica parecendo ao cidadão que a maioria dos crimes da juventude são bárbaros, mas não são! A maioria das infrações referem-se ao patrimônio.
A adolescência é um momento de construção de identidade e de papéis sociais importantes, por isso necessita do acompanhamento dos adultos. E aqui cabe novamente a questão: estamos cumprindo nosso papel de educadores responsáveis? O Estado cumpre seu papel na educação? Propostas tão somente de culpabilização individual e punição, sem preocupação com as causas e mecanismos de produção e manutenção da violência vão resolver o problema ou irão aumentá-lo? 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Criança - Prioridade Absoluta



Criança - Prioridade Absoluta - Instituto Alana
Emoção e Conhecimento em 6 minutos, a nos lembrar que as crianças são seres humanos com direitos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Existe Vida além do Câncer



Uma doença tão terrível como o câncer merece nossa consideração. Por isso, registro o poema desta poetisa amiga, que compartilha sua própria experiência.

A ela dedico todo carinho, bem como às outras pessoas que vivem a mesma dor. 
Ao meu pai, que já morreu após tanta luta.




Por Ana Marly de Oliveira Jacobino

Celebração da Ressurreição de Cristo veio com um profundo refletir sobre este companheiro do mal que carrego há mais de 30 anos junto ao meu corpo. O Câncer é uma doença silenciosa! O trauma provocado pela doença na vida avoluma com o tempo, se não quisermos reverter essa situação!

Alegria, fé, garra devem ser companheiras de quem pretende continuar vivendo, assim, o faço, depois de descobrir um câncer no meu corpo.
A experiência vivificadora de completar o tratamento traumático da quimioterapia no pico mais alto de uma montanha russa espacial na Disney Word pode ajudar você, como me ajudou! Assustador mergulhar na escuridão ouvindo os gritos dos desconhecidos ao seu lado. Sair da escuridão para entrar em túneis iluminados em alta velocidade é realmente uma dose maciça de “quimioterapia” de aventura e emoção.
O que pensar de alguém diagnosticada com três meses de vida nesta louca aventura?

Viver um dia por vez com disposição para vencer é a chave para ir burlando a doença... Sem que ela perceba, é claro!
Uma querida amiga sugeriu-me escrever sobre as minhas vivências nestes 34 anos empenhados em não esmorecer a cada diagnóstico do retorno do Câncer, estendendo as cirurgias e tratamentos doloridos, então, hoje neste dia 8 de abril, “Dia Mundial de Combate ao Câncer” resolvi fazê-lo, após, saber da perda de uma Amiga, que conheci, curti por uma rede virtual.

Pelo Facebook comentei as postagens dos seus belos passeios por terras lusitanas, também, enviei palavras de conforto na hora de uma dor traumática na perda do seu filho amado...
Amigas Virtuais! Amigas na extensão plena da palavra “Amor e dor”. Tristeza muita tristeza carrego enquanto escrevo. Não tenho palavras, pois, passo pelo processo do retorno da doença e estou numa luta aguerrida para continuar sem esmorecer.

Perdi várias “Amigas” para o Câncer, todas acompanhei bem de pertinho, e, com cada uma delas, se foi uma porção da minha alegria! Vou continuar aqui, lutando minhas “Amigas”, por vocês: Marisa, Marlene, Raquel e Veras..., como, tantas outras pessoas em tratamentos, partilham força e determinação neste caminho tão espinhoso de uma luta contra um Câncer!

Vai em paz, Amiga, curtindo o brilho das estrelas. Vai fazer castelos com o pó iluminado de uma explosão solar. Vai fazer tranças na calda de um cometa. Vai jogar sorrisos para a Lua para ela aspergir a Terra com sua alegria, querida Vera!
Vou continuar sorrindo como você, também, o fazia tão bem! Sorrir de tudo, com tudo e para tudo, desta maneira, heroicamente, carregamos a vida tendo a convicção da sua plenitude, aqui mesmo, neste solo fértil de vivências, marcado por experiências únicas, sabendo que: existe vida além do Câncer!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A humanidade dos Satyros: sobre o “outro diferente”


Quantos de nós já parou para pensar em como vivem os moradores de rua, como sobrevivem as prostitutas e os travestis, as crianças nos faróis da cidade, os chamados “doentes mentais” e todos os não autorizados à cidadania, que se encontram “à margem” daquilo que se convencionou chamar civilização moderna?

Será que alguns de nós sequer consegue perceber que “estas pessoas”, visíveis apenas quando nos incomodam com sua aparência, seus pedidos ou mesmo roubos, são seres humanos? Aprendemos a olhá-las como não humanos, o que contradiz absolutamente a concepção de vivermos em uma suposta civilização igualitária, solidária e evoluída. A evolução da qual participamos no mundo todo é a da tecnologia, não das relações humanas.

Podemos argumentar, inclusive, que há muitos grupos considerados “não humanos” nesse nosso planeta, ou seja, pessoas que podem ou devem morrer, seres que “atrapalham” o sistema capitalista e que, portanto, não têm o mesmo direito à vida que nós, mais abastados e organizados financeiramente. Através da mídia dominante, que cria diariamente imagens violentas acerca destes grupos, seguimos internalizando preconceitos que nos levam à total indiferença, senão ao ódio. Eis o nosso fascismo cotidiano, tão antigo quanto pós moderno!

Em cada época histórica, elege-se determinados grupos a serem desumanizados: quando os europeus chegaram às Américas, os índios não eram humanos, nem para a Igreja Católica. Foram dizimados e até hoje ainda não são tratados como cidadãos. Os povos negros, idem, inumanos. Na Segunda Guerra Mundial, os judeus foram cruelmente assassinados em nome da superioridade ariana, com apoio dissimulado de diversos países europeus, como a França e a Inglaterra. Atualmente, são os próprios judeus de Israel que desumanizam os árabes, matando-os indiscriminadamente na região da Faixa de Gaza. Há ainda os refugiados, expulsos de seus países pelas guerras em curso. E outros, muitos “outros diferentes” espalhados pelos seis continentes terrestres.

Mas se é verdade que esta desumanização prossegue em escala mundial, também é fato que muitos cidadãos, pessoas comuns e artistas se sentem incomodados diante de valores tão sórdidos. Por isso eu gostaria de compartilhar minha experiência com a peça Pessoas Perfeitas, do grupo de teatro Os Satyros que, através da arte, propõe a humanização da vida.

Com mais de 20 anos de trabalho, a Companhia de Teatro Os Satyros atualmente fixa residência na Praça Roosevelt de São Paulo e cada vez mais se notabiliza na criação de uma dramaturgia própria, inovadora e questionadora dos padrões sociais. Reconhecido internacionalmente, diversas peças do grupo foram premiadas, dentre elas Pessoas Perfeitas – Prêmio APCA de Melhor Espetáculo em 2014.

Pessoas Perfeitas nasceu a partir de pesquisas com moradores de rua do próprio centro de SP. Assistindo a peça, acompanhamos as peripécias de personagens que pouco nos sensibilizariam, não fosse a tamanha criatividade e ternura do grupo ao representá-los. Sei que posso estar enganada, mas acredito que até o mais duro e preconceituoso dos corações humanos se fragilizaria ao partilhar a dor dos “diferentes” quando encarnados humanamente. E aqui está justamente a possibilidade de humanização: olhar o outro “suposto ninguém”, por um instante que seja, como igual, próximo, com dores semelhantes, vivendo situações não tão distantes da nossa. Estranho, surpreendente, assustador?

Nunca me esqueço de uma pessoa que me perguntou, certa vez, quando eu trabalhava com crianças em situação de vulnerabilidade social, se estas crianças sofrem. Uma triste e lamentável pergunta, que revela o distanciamento e a insensibilidade para com todos aqueles que estão ao nosso lado, que vemos diariamente nas ruas mas fingimos não ver, que desconsideramos como seres humanos. E o pior, algo que não nos damos conta é que quando desumanizamos alguém, quando retiramos simbolicamente a possibilidade de vida do outro, nós é que perdemos a humanidade, nós é que nos tornamos desumanos.

Reinventar nossa própria humanidade é tão urgente quanto resolver os problemas corriqueiros do dia-a-dia, a crise financeira, as dores físicas ou emocionais. Nossa redenção enquanto espécie humana depende disso e a arte é nossa parceira. Sigamos os Satyros!