quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Reflexão - memória e terapia: uma pequena homenagem

A educação é um processo contínuo e inacabado, quase sempre provisório, jamais concluído. Participando de cursos e grupos de estudos na Faculdade de Educação da Unicamp, tive o enorme prazer de conhecer e ser aluna da querida professora Carol (Maria Carolina Bovério Galzerani), também diretora do Centro de Memória da FE. 

Importante pesquisadora da Universidade de Campinas, autora de diversos artigos científicos e livros, como o recente Memória, Cidade e Educação das Sensibilidades (2014), Carol foi uma daquelas pessoas raras que cruzam os nossos caminhos, com humanidade tamanha e inigualável. Com ela todos podiam aprender a questionar o mundo de uma maneira doce e delicada.

Para homenageá-la, reescrevo e publico algumas reflexões pessoais que realizei como terapeuta, estudando o filósofo Walter Benjamin junto à professora Carolina.

Benjamin legou-nos uma obra magnífica na qual argumenta a concepção de memória como construção social e subjetiva. Para ele, nós nos tornamos sujeitos na medida em que damos um sentido às nossas vidas, ressignificando os acontecimentos que dela fazem parte através de um processo chamado rememoração. Rememorar implica em articular os diversos tempos, passado, presente e futuro para, quem sabe, alterar o rumo que a história aparentemente nos impõe.

Em um processo terapêutico, acompanhamos o outro em seu percurso de escolhas individuais e grupais, de questionamentos existenciais diários que pedem respostas rápidas, mas nem sempre possíveis. Buscamos, junto com este outro, tecer a palavra, a imaginação e a memória para tentar construir novos sentidos de vida, quem sabe mais humanos e felizes. Focalizamos os vazios, as dores mais inconscientes do que conscientes, para assim abrir brechas que possam ampliar o repertório criativo das relações. Por isso tudo podemos pensar a terapia a partir dos conceitos de compreensão, relação, vínculo e criação, ao contrário do modismo que incita as ideias de cura, solução definitiva e individualismo. 

A criatividade e a rememoração estão permanentemente em diálogo dentro de nós mesmos e em nossas relações, tendo em vista que as lembranças do passado podem contribuir para redimensionar o presente, inspirando novos olhares e posicionamentos. Enquanto lugar de afetividade, a memória participa da relação terapêutica e cria novas conexões tempo-espaço, ampliando, desta forma, as perspectivas de ações transformadoras, individual e coletivamente, no presente e no futuro.

Esta condição humana de rememoração, não esqueçamos, é o que nos garante a redenção. É por ela que nos movemos e nos relacionamos, que nos acolhemos e nos transformamos. É com ela que estou, neste momento, escrevendo um texto para uma pessoa querida que já morreu e que permanecerá em mim e em todos que a amam.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Leituras



"Considera-se tanto mais civilizado um país, quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem ao miserável ser miserável demais, e ao poderoso ser poderoso demais." Primo Levi, em É isto um homem?

Livro que relata as atrocidades dos campos de concentração nazista e nos faz refletir sobre o que Thomas Piketty, economista que escreveu O Capital no século XXI, vem nos alertando: o excesso de concentração de renda no mundo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carnaval e reflexão



Informações sobre prevenção:
http://www.brasil.gov.br/saude/2015/01/ministerio-lanca-campanha-de-prevencao-as-dst-e-aids-para-carnaval-2015

E algumas palavras da Kit Menezes, uma grande amiga, educadora e artista piracicabana, para que possamos refletir nesse momento tão tumultuado do Brasil:

"Nas mesas de bar, na sala dos professores, em espaços culturais as discussões se repetem, as narrativas se multiplicam e a gente se agarra às que mais nos contemplam. Por isso as vezes acho que devemos nos recolher. Refletir, antes de falar - ou decidir pelo silêncio. Tentar entender, antes de contradizer. Digo isso a mim mesma primeiramente, que me exalto amparada nas minhas certezas antes de ser traída. Difícil é saber pra onde ir. Na dúvida, seguimos observando: algum sinal deve indicar um caminho."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Das árvores que choram o desespero da humanidade

Ouvimos notícias sobre a destruição do planeta Terra o tempo todo, pelo menos há cerca de 40 anos. Não só ouvimos como também somos participantes dessa destruição. Poderíamos ter aprendido a usar os recursos de nosso habitat de outro modo, mas temos escolhido a ambição desmedida aliada ao consumo excessivo. As consequências disso estão em curso, não é preciso muita explicação.

Obviamente que ficar procurando culpados não é nada produtivo, pelo contrário, tende a aumentar nossa impotência e gerar um clima de ódio. Discursos que colocam todas as responsabilidades apenas no indivíduo não são lúcidos, são empobrecedores na medida em que não consideram a sociedade em suas relações de poder. Por outro lado, responsabilizar apenas as instituições políticas e governamentais ou os sistemas privados capitalistas que constituem o tal mercado financeiro, incluindo a mídia, contribui com um posicionamento de fuga e omissão. Ainda ouço: “não adianta fazer nada, é perder tempo querer mudar alguma coisa nesse mundo.” Ou: “aqui em Piracicaba a crise da água não vai chegar porque o abastecimento não vem do sistema Cantareira.” Estranhas considerações, me parece.

Felizmente encontrei na internet uma psicóloga que vem ampliando seu trabalho como cidadã e profissional, articulando inclusive sua pesquisa em psicanálise com o universo da política. Camila Pavanelli de Lorenzi produz o Boletim da Falta D’Água em SP - http://boletimdafaltadagua.tumblr.com/ -, tendo sido entrevistada por Eliane Brum, uma das jornalistas mais admiráveis que acompanho pela rede. Seu texto chama-se Vamos Precisar de Um Balde Maior e foi publicado no El País:  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/02/opinion/1422883484_909975.html.

Como provavelmente a maioria das pessoas, eu também me sinto aflita com diversas questões que compõem o cenário da vida contemporânea, até porque sei que a árvore que não temos afeta nossas vidas, a praça que não ocupamos afeta nosso pensamento e o vizinho que não conhecemos também afeta nossa amorosidade. Sofremos psiquicamente ao sermos afetados por tudo o que está ao nosso redor, até porque constituímos esses afetos, somos coparticipantes nesta jornada diária que constrói e destrói a vida ao mesmo tempo.

Uma das cenas que mais me afetou/abalou nestes últimos dias, dentre inúmeras tão chocantes, foi a de extermínio e assassinato das árvores centenárias de Piracicaba. Um projeto de desumanidade tamanha vem sendo desenvolvido há anos pelos gestores públicos que deveriam ser responsáveis por preservar o meio ambiente da cidade. Ao invés de cuidar do patrimônio histórico ambiental que são essas maravilhosas árvores do nosso espaço público, as autoridades, alegando motivações técnicas totalmente questionáveis, matam sem piedade. Uma grande parte da população continua a se perguntar, pelo facebook: por que?

Eduardo Viveiros de Castro, um importante antropólogo brasileiro, junto a outros pesquisadores de comunidades indígenas, vem afirmando a necessidade de aprendermos com os índios a olhar e cuidar da vida na Terra. Precisamos entender, individual e coletivamente, que nós somos os estrangeiros (segundo Camus), não a natureza (embora façamos parte dela também). Portanto “nós passaremos”, as árvores não, mesmo que sejam incessantemente assassinadas. O problema é que o fato de matá-las acelera nossa passagem, por isso imagino poeticamente que elas chorem por nós, por nosso desespero com a falta de água e de ar saudável, como choraremos pela ausência delas.

E como somos muitos os indignados e afetados, deixo registrado um dos links de ativistas incansáveis: https://www.facebook.com/institutoaimara.interessesdifusos. Há muitos outros, é só começar a procurar e participar!