sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Um novo olhar para a infância


Um dos livros mais belos que já li em toda a minha vida foi A Desumanização (2014), escrito por Valter Hugo Mãe, grande autor português reconhecido internacionalmente. É a história de uma menina de 11 anos que vive na Islândia e perdeu a irmã gêmea. Toda sua família sofre com a morte desta criança, chamada Sigridur, “a criança plantada” que “não podia voltar”. A narrativa do livro é tão épica quanto trágica e lírica, encantando os leitores que amam poesia.

Halla, a irmã sobrevivente que conta a história (o romance foi escrito em primeira pessoa), é a heroína deste mundo desumano em que vivemos. Sua redenção, se é que existe, são as palavras, os poemas do pai, os livros e a possibilidade de fugir do lugar onde vive.

O sofrimento e a solidão de Halla nos toca profundamente, a menos que não sejamos mais humanos. Halla representa ao mesmo tempo a dor da humanidade e a busca pela vida. Impossível não nos identificarmos com essa magnífica personagem, impossível não pensarmos na infância como um período trágico e no ser humano como um ser cruel.

Há décadas trabalhando e acompanhado crianças, como terapeuta e educadora, de várias classes sociais, sinto-me privilegiada por estar com elas. Infelizmente, o sofrimento que as oprime, em geral não é considerado nem valorizado, a não ser sob a ótica da medicalização, que visa rotulá-las para poupar os adultos de suas responsabilidades, além de inflar os lucros da indústria farmacêutica.

Apesar disso, as crianças resistem, rebelam-se, as vezes gritam e esperneiam, outrora se calam para dizer o que precisam, como o menino Tochtli, personagem principal do livro de Juan Pablo Villalobos, Festa no Covil (2010). Lembro-me da frase de uma menina de 9 anos, pronunciando-se em segredo e em prantos: “os adultos pensam que ser criança é fácil, mas eles não sabem como a gente sofre.”

Não sabemos, não queremos saber, não lembramos de nossa própria infância? O que fizemos dela? É certo que cada um de nós fez da infância e faz da vida adulta o que é possível, mas como seria bom se fôssemos mais sensíveis à visão das crianças, às suas necessidades afetivas e às suas ações! Seria ainda melhor se parássemos de idealizar essa fase da vida e agíssemos de maneira mais adequada, permitindo que nossas crianças sejam apenas crianças.

Penso que assim seríamos adultos muito mais humanos e teríamos crianças muito mais felizes.

Um comentário:

  1. Muito bom. A tentativa de criar crianças ideais será sempre frustrada na minha opinião.

    ResponderExcluir