quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Terapia, Afetividade e "Las Acacias"

Entre quatro paredes que buscam resguardar a intimidade de relatos pessoais acerca de sofrimentos muitas vezes impronunciáveis, de sentimentos inomináveis e relacionamentos fracassados, alguém pergunta “o que é afetividade”. É algo que tem que ser mostrado para o outro? Precisa tocar na pele, comunicar verbalmente ou basta só o olhar? 

Pelas duras lidas da vida, independente da classe social e do nível intelectual, quantas pessoas foram privadas desta indefinível experiência de vida e contato humano: a afetividade, aqui referida como a condição humana de expressar e compartilhar amor, doçura e carinho.

No filme argentino Las Acacias ( Pablo Giorgelli, 2010 ), é justamente a afetividade que move os personagens principais, a mãe com sua filha de 5 meses e um caminhoneiro solitário, enrijecido pela vida. Quase toda comunicação de afetos ocorre pelo olhar, que cativa, por fim, outras manifestações.

O bebê, amado e acariciado de maneira singela pela mãe, tem o poder de encantar o mais severo de todos os homens, propiciando a nós, espectadores, uma experiência de afetividade também. Nos apaixonamos incondicionalmente por este bebê, que em última instância, pode ser o nosso próprio afeto, aquele que tivemos ou o que nos faltou.

O filme responde, portanto, à pergunta da sessão: o que é afetividade. Assisti-lo nos revela o quanto podemos ser apenas nós mesmos, espontâneos e sem artifícios, para expressar o amor que sentimos uns pelos outros. Ademais, creio que o diretor nos convide a ter "fé na humanidade", pois enquanto o sorriso e o olhar de uma criança tocar um adulto, quem sabe estejamos salvos!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Pelo resgate das palavras



É muito triste constatar, nas redes sociais da net, o quanto as palavras estão perdendo significados, reduzidas a “lugares comuns” esvaziados de sentidos. Discursos são frequentemente proferidos, sem articulação que respalde algum nível de conhecimento ou compreensão do assunto que está sendo tratado. Em muitos casos, frases que expressam a opinião de leitores indignados são apenas xingamentos macabros, gritos de ódio que chocam aqueles que, como eu, apreciam e acreditam na força das palavras.

A civilização da qual fazemos parte há séculos, tem na linguagem verbal e escrita seu fundamento principal, sua base “por excelência” no tocante à comunicação, ao diálogo, à tecnologia, à cultura, pensamento, sentimento e subjetividade. Não é possível imaginar um ser humano, em nossa sociedade, privado de linguagem. No entanto, é absolutamente perceptível o empobrecimento geral do repertório das palavras no uso da língua.

Em Reprodução, livro de ficção de Bernardo Carvalho, o autor discute essas questões com propriedade. Seus personagens produzem monólogos durante todo o texto, atestando o fracasso da comunicação pautada pelo diálogo. São frases e frases que se repetem, desconsiderando a presença do outro e tornando as relações impossíveis. Nem o leitor entende o que está acontecendo.

Será isso que estamos vivendo hoje? Com tantos meios de comunicação à nossa disposição, não mais nos comunicamos? Será que estamos perdendo algo precioso - palavras, língua, linguagem - que nos ensina a pensar, a dialogar, a construir uma visão de mundo? E o que restará então, imagens e balbucios, urros e gritos? No livro mencionado, restará apenas uma língua que irá dominar o mundo, segundo o personagem principal: o mandarim.

De minha parte espero, sinceramente, que ainda haja tempo. Acredito que ler um livro e conversar com alguém de forma a argumentar reflexões - seja pessoalmente ou virtualmente -, é um ato de resistência criativa, necessário à sobrevivência da civilização e da humanidade.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Descanso e poesia


Para descansar com saúde e poesia, nada melhor do que recordar um poeta que soube amar a natureza: Fernando Pessoa, por Alberto Caeiro, em trecho de Poemas Inconjuntos.