quarta-feira, 28 de julho de 2010

A polêmica das "palmadas educativas"

Dividindo opiniões entre especialistas, educadores e pais, a modificação no Estatuto da Criança e do Adolescente, proposta pelo governo federal, visa proteger as crianças daquilo que se convencionou chamar de “palmadas educativas”, incluindo beliscões e tapas leves.

Em função da tradição secular do sistema educacional, que impera na maior parte dos países e das culturas, é considerada natural a conduta de bater nos filhos com a finalidade de educá-los. Tal forma de educação só vem sendo questionada nas últimas décadas, com muita resistência. Mesmo países europeus, mais avançados do que o Brasil, permitem o castigo físico.

Obviamente, é fato constatado que torturas psicológicas, como humilhações, ofensas e xingamentos, diários ou ocasionais, podem ser tão destrutivos quanto a violência física de determinados lares. Mas não se trata, neste momento, de discutir o que é mais ou menos nocivo para o desenvolvimento de uma criança, se é o castigo físico ou emocional. Talvez seja importante tentar compreender como e porque esta questão mobiliza tanta polêmica.

Seria pela intervenção excessiva do Estado nas relações pais e filhos, como afirmam alguns profissionais? Precisamos realmente de novas leis para isso?
Seria pela falta de limites que percebemos nas crianças atualmente, o que leva muitos pais a concluírem que umas “boas palmadas” pode resolver, já que “antigamente resolvia”?
Ou também seria pela dificuldade que temos em criar novas alternativas de educação, mais fundamentadas no diálogo e no exemplo do que na força e na violência do adulto, preservando, porém, o lugar de autoridade que nos é designado?

A realidade do mundo contemporâneo não é a mesma que se configurava há algumas décadas, propondo-nos desafios cada vez maiores, dentre eles o de criar novas maneiras, mais saudáveis e dignas, para educar nossos filhos.
Particularmente, percebo e constato ser possível não utilizar castigos físicos nem chantagens na negociação diária que fazemos com nossos filhos, buscando uma disciplina adequada para a convivência. Muitos pais poderiam testemunhar esse feito, embora as recentes pesquisas feitas pelo Datafolha apontem que a maioria deles seja contra a nova lei. É que as dificuldades para se educar, com ou sem palmadas, permanecem iguais: tarefa complicada, a exigir tempo, paciência, disponibilidade, firmeza e reflexão.

domingo, 18 de julho de 2010

Espaço público: um novo olhar

Basta um pequeno passeio a pé ou de bicicleta, aos arredores do próprio bairro, para quebrar a rotina das janelinhas e descobrir a cidade na qual habitamos. Cidade que não conhecemos, que não sentimos, que pouco vemos.

Habituados que estamos a andar de carro ou ônibus, não desfrutamos da liberdade que existe em, por exemplo, pedalar uma bicicleta, como as crianças naturalmente desejam fazer.

É certo que nos arriscamos quando vamos às ruas, tão pequenos e insignificantes humanos, frente às enormes máquinas de velocidade, fábricas ambulantes de mortes estúpidas e horrorosas.

Mas as ruas precisam de nós, as calçadas precisam de nós, as praças e os pátios, os jardins, as pontes e os rios solicitam o nosso olhar e nossa presença, inteira. São todos personagens de nossas vidas, mesmo que não prestemos atenção.

Quem sabe se nos dispusermos um pouquinho mais, começarmos devagar, experimentando, buscando algum prazer em uma forma diferente de estar, tão somente, no que um dia designamos como espaço público. Ele ainda existe, aguarda nosso reconhecimento para que não morra, não seja violento, sujo, abandonado.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Reflexões sobre o bullying

Um dos temas mais discutidos em nossa sociedade, atualmente, diz respeito à prática de intimidação e perseguição realizada por um grupo de pessoas, contra uma outra pessoa, em geral sozinha e indefesa. Há uma série de estudos desenvolvidos pelo mundo todo acerca do que tem sido denominado o "fenômeno bullying".

Muito interessante perceber que o tal "fenômeno" vem ganhando repercussão na medida em que envolve diretamente a convivência escolar das crianças e adolescentes. Afirma-se que sua maior freqüência ocorre entre os meninos de 11 a 15 anos, não desprezando uma alta incidência entre as meninas também. São situações típicas e comuns, nas quais as humilhações, sutis, são encaradas como brincadeiras e não como agressões.

Apelidos, fofocas, e-mails, fotos em celulares e até violência física são formas de praticar o bullying, gerando constrangimento, vergonha, culpa e medo na vítima, uma pessoa como outra qualquer, que é considerada diferente pelos seus agressores. Seja pelo tom da voz, seja por uma característica física, seja pelas roupas usadas, por um alto ou baixo rendimento escolar, determinados adolescentes são de fato perseguidos por grupos de colegas na convivência diária.

No entanto, esta situação vem sendo apresentada equivocadamente como uma questão da infância e da juventude, quando na realidade é somente um espelho do mundo adulto, da intolerância que temos uns com os outros, da ausência de compreensão e respeito entre nós, da feroz competitividade com a qual nos armamos nos dias de hoje. Basta observarmos, por exemplo, uma festa em que se reúnem grupos de homens e mulheres: sobre o que eles falam e de que maneira? Como os homens, especialmente, costumam se comunicar? Será que nossas crianças não estão testemunhando e apreendendo as "brincadeiras" entre os adultos, por vezes carregadas de preconceitos?

É evidente que chamar a atenção para o bullying tem diversos méritos, dentre eles a possibilidade de começar a entender alguns dos motivos que podem levar uma criança a não querer ir à escola. Muitos meninos adolescentes, rotulados de homossexuais, da rede pública e privada de ensino, abandonam os estudos porque são perseguidos e sofrem, desenvolvendo fobias e outras síndromes. Pois bem, uma nova concepção se anuncia, de que todos são responsáveis pela evasão destes estudantes, não apenas eles mesmos ou seus próprios pais, como é de praxe avaliar.