quinta-feira, 30 de julho de 2009

A cultura do medo

Um dos teóricos mais conceituados da atualidade é Zygmunt Bauman, sociólogo de grande prestígio e intensa produção intelectual. Livros como Medo líquido, dentre outros ( Modernidade líquida, O mal-estar da pós-modernidade ), investigam os males que atormentam nossa cultura, a ponto de nos tornar reféns de nosso próprio tempo, de nossa própria época.
Como entender o adiamento do retorno às aulas no estado de SP ( e em outros ), com amplo apoio popular ao que parece, visando o controle do vírus da gripe suína?
Para Bauman, a contemporaneidade é regida pelo medo. Vivemos sob o medo, a partir do medo, controlados pelo medo e também alimentados por ele. Apesar de tanta tecnologia, de tantos recursos criados pela humanidade para gerenciar o mundo, sentimos muito medo, somos demasiadamente vulneráveis.
Talvez sejamos ainda mais inseguros do que nossos antepassados, posto que não somos capazes de conviver com a natureza, respeitando-a e aceitando-a. Ao mesmo tempo, fabricamos incessantemente artifícios que imitam as árvores, as plantas, os rios e os animais. Basta observar que dentro de um shopping, hoje, existem pequenas florestas artificiais, voltadas para o lazer das crianças.
Ao nos desconectar do que chamamos natureza, nos desconectamos também das estações do ano, da terra no parque que suja as mãos, das flores que nascem sozinhas no mato, dos olhos que falam uns aos outros.
Na cultura do medo, as pessoas não se olham mais, não falam “bom dia” ou “boa tarde”. Cumprimentar é ameaçador, conhecer o outro pode ser perigoso. Aliás, é esse o paradigma: o outro como uma ameaça constante, um perigo mortal.
Em nome de nossa própria segurança, vamos aprendendo que precisamos nos precaver, nos prevenir, principalmente se o outro carregar a possibilidade de nos transmitir um vírus que ainda não conhecemos. Vale lembrar, também em nossa cultura, do medo e do controle, tudo aquilo que desconhecemos é aterrorizante: quanto menos conhecido, mais apavorante.
É neste “caldo cultural”, neste contexto histórico, que podemos então situar a espetacularização da malfadada gripe suína. Poderia ser outra coisa, ontem foi o terrorismo, amanhã, o que será?
A mídia expõe, apela, repete sem cessar os números e as imagens. Autoridades se manifestam publicamente; nós recebemos informações contraditórias, internalizamos e reagimos conforme o esperado, ou seja, conforme os valores da cultura do medo.
Sem perceber, nos encontramos em pânico, alimentando um sistema que se nutre do próprio produto que cria: o medo.
Vale a pena?

Andrea R. Martins Corrêa

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O educador facilitador

No nosso mundo contemporâneo, repleto de informações e estratégias de controle a todo momento, é difícil ser um educador facilitador, seja no papel de pai, mãe ou professor.
Somos estimulados, pela própria cultura na qual vivemos e participamos, a dar respostas para todas as perguntas, de preferência respostas que não exijam muita reflexão.
Somos incentivados a explicar racionalmente os fenômenos que nos interessam, sem uma investigação mais sensível e profunda. Dessa maneira, muitas vezes sem perceber, não permitimos que nossas crianças e adolescentes desenvolvam a própria inteligência e criatividade.
Para compreender o mundo e descobri-lo, é preciso ficar angustiado, ter ânsia de pesquisa, num ambiente que acolhe a curiosidade e a busca constante pelo conhecimento. Não me refiro ao conhecimento pronto, mas aquele que se constrói na experiência, na interação.
Normalmente somos nós que ficamos ansiosos com as questões que nos são colocadas, pois entendemos que somos obrigados a responder prontamente a todas as situações. Temos muita pressa e com certeza acabamos por matar nossa própria espontaneidade.
Seria muito mais interessante se pudéssemos possibilitar, a nós e aos outros, momentos mais significativos de dúvidas, dispondo-nos apenas a sentir ou refletir sobre algo que nos inquieta, como faziam os filósofos antigos.
Nossos filhos agradeceriam, nossos alunos aprenderiam que deles depende o conhecimento e nós estaríamos mais próximos daquilo que se considera um educador facilitador.
Alguém que sabe que não sabe tudo e, até por isso, está sempre aberto ao outro, mesmo que este outro seja uma criança correndo atrás de uma pequena formiga...

Andrea R. Martins Corrêa

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Obra aborda Psicodrama e Educação

O texto abaixo foi escrito pelo colega e jornalista Rodrigo Alves, publicado em 5/07/2009 no Jornal de Piracicaba, por ocasião do lançamento de um livro sobre Psicodrama e Educação, do qual participo. Pela pertinência do tema e qualidade da matéria, resolvi publicá-lo aqui também.

Em de junho de 1989, um restrito grupo de alunos e professores se reuniam em Tietê para a formação da Escola de Psicodrama. Ali, estudavam as possibilidades de aplicação da educação emancipadora, método que propunha a mudança na relação professor e aluno e que hoje possui muitos adeptos. As vivências daquele momento e as análises dos resultados se transformaram no livro Psicodrama e Emancipação — A Escola de Tietê, organizado por Moysés Aguiar e com participação da psicóloga e psicodramatista piracicabana Andréa Raquel Martins Corrêa.
Dividida em 31 capítulos, a obra possui a colaboração de 30 autores, todos envolvidos com a pesquisa e aplicação do psicodrama — conhecido também como teatro espontâneo —, na tentativa de estabelecer uma relação de aprendizagem em que o aluno não precisava se submeter à autoridade e ao controle do professor e da instituição escolar.
Por ter estudado na Escola de Tietê entre os anos de 1995 e 1997, Andréa é a responsável pelo sétimo capítulo do livro, intitulado Teatro Espontâneo, Vida e Integração, em que ela discute a possibilidade de aplicação do que era transmitido na escola com a atuação profissional. "No capítulo, trato da prática da escola, da importância do trabalho pedagógico que ela propunha para quem fazia a formação na área. Discuto que muitas vezes era difícil sair de lá e encontrar formas de integrar o teatro espontâneo na prática", cita Andréa, que é também psicóloga e completou seus estudos no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas.
Para Andréa, a escola se configurava como um espaço de criação e liberdade, justamente porque o conhecimento era produzido de forma coletiva, seja por seminários, vivências, debates ou oficinas. "Novos horizontes e novas perspectivas foram criadas pelo teatro espontâneo: era necessário aprender a experimentá-los na vida", diz o texto escrito por ela, que mais à frente cita uma das dificuldades: "Clientes nos procuram, no consultório, para se tratar; alunos vão à escola para aprender, não para brincar, infelizmente", ao lembrar que o teatro espontâneo buscava romper com determinados padrões de conhecimento.

ACEITAÇÃO: Em entrevista por e-mail ao Jornal de Piracicaba, Aguiar cita que o livro mostra que na ocasião da criação da Escola de Tietê já havia a aplicação das técnicas psicodramáticas que hoje são consideradas as mais avançadas. "A principal delas é a mudança na relação professor/aluno. O professor contemporâneo é um facilitador do processo de aprendizagem, considerando o aluno como um sujeito que não precisa de tutela, que já é emancipado desde o começo e que tem no mestre um apoio para fazer bom uso de sua liberdade", garante.
"Participei do movimento psicodramático exatamente na época em que alcançou o ponto mais alto de expansão, do ponto de vista da quantidade de adeptos. Mas muitos se entusiasmaram como ‘fogo de palha’. Com o tempo houve uma diminuição numérica e um aumento da qualidade. Hoje parece que as duas vertentes se encontram. A aceitação social depende muito da seriedade com que se faz o trabalho, que vence resistências quando consegue provar a que veio", explica Aguiar.

SERVIÇO — Psicodrama e Emancipação — A Escola de Tietê, com organização de Moysés Aguiar. Editora Ágora, 440 páginas. R$ 76,90.
Mais informações: (11) 3865-9890 ou pelo site www.editoraagora.com.br. Dados enviados pela assessoria de imprensa da editora.