quinta-feira, 14 de maio de 2009

Artigo: A Patologização da Infância

O Conselho Regional de Psicologia (www.crpsp.org.br) vem organizando diversas palestras e discussões para o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, ambos comemorados em 18 de Maio.
Balada dos Direitos: Juntos em Defesa da Vida, é o título do evento, realizado em várias cidades do interior de SP.
Chama a atenção, tanto nas pesquisas apresentadas pelos profissionais quanto no atendimento diário a crianças e adolescentes, a tendência, cada vez mais crescente, de “patologizar” os problemas infanto-juvenis.
Isto significa que dificuldades de aprendizagem, problemas de comportamento, consumismo ou isolamento social vêm sendo tratados exclusivamente como doenças, impondo a prescrição de medicamentos controlados, como os psicotrópicos.
Em nome da proteção e do cuidado, constatamos, dessa maneira, um grande número de crianças, já pequenas - 3 ou 4 anos -, tomando remédios para dormir, ficar calma, estudar, ser mais atenciosa e menos agressiva.
Em relação aos adolescentes, especialmente os que tiveram algum conflito com a lei - uso de drogas, roubo, fuga do lar -, há notícias de que estão sendo internados em hospitais psiquiátricos, através de mandados judiciais, na contramão dos movimentos de luta pelos direitos humanos. Vale destacar a denominação deste processo, algo como a “judicialização” da vida.
Muitos pais e educadores poderiam questionar qual é o problema em medicalizar e patologizar a infância e a adolescência, se de fato os resultados desejados são obtidos rapidamente.
Ou seja, os pequenos ficam mais calmos e os maiores são contidos. A escola não se revê enquanto instituição de ensino e a família se mantém em “harmonia”, livre dos comportamentos transgressores dos filhos. Enfim, toda a sociedade agradece, os jovens “doentes” são excluídos e nós, adultos, não precisamos mais nos preocupar com eles.
Ironias à parte, talvez seja para isso que “camisas de força químico-sociais” estejam sendo administradas com tão pouco critério, tornando-se valores positivos e inquestionáveis.
É óbvio que há situações em que os medicamentos são necessários para proteger os indivíduos, mas numa outra perspectiva, diferente desta. Na lógica patologizante, o doente é tão somente a criança e o adolescente, nunca o adulto/educador, que costuma se omitir das responsabilidades que lhes são devidas.
Nossas crianças e adolescentes precisam da nossa disponibilidade, nossa criatividade e nosso compartilhar. É deste modo que estaremos possibilitando a eles condições saudáveis de desenvolvimento.


Andrea Raquel Martins Corrêa

5 comentários:

  1. Olá Andrea: tenho duas grandes amigas que são irmãs e educadoras na rede infantil - Rachel e Andréia (coincidências à parte) - que vivem constantemente este dilema: pais que querem cada vez mais levar os filhos para os médicos, preocupados principalmente com a famosa DDA (ou TDHA). Mas elas, bem esclarecidas, ainda lutam para que estas crianças não sofram com este mal da medicação. Nem sempre conseguem, porque muitas vezes pais e especialistas vencem primeiro.
    Mas de fato isto acontece muito. Fiz certa vez uma série sobre saúde mental e entrevistei a doutora Ana Betriz (do livro Mentes Inquietas) e ela falou deste sério problema. Lamentável pensarmos sempre em delegar responsabilidades e não depositarmos nossas forças na recuperação/superação de um problema de alguém tão próximo.
    Minha irmã, aos 7 anos, foi diagnosticada como DDA. Resistimos até o fim. Hoje ela está no primeiro ano do ensino médio sem repetir sequer uma série... e com o DDA, como disse a doutora, repetiria todos. Sim, ela é hiperativa, impulsiva, irritada... e sabe disso! Mas busca o controle. E nós a apoiamos!
    No fundo sinto que minha familia toda tem os sintomas de hiperatividade, mas todos estão bem, obrigado! (por acreditar um no outro).

    PS: Obrigado pelo esforço em postar nossos "brogues" aí do ladinho!

    Estou acompanhando tudo! Está ótimo!

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  2. Caríssima Andréia: assunto mais que pertinente e que vivenciei por muito tempo nas escolas que trabalhei. Senti que o mundo infanto-juvenil está se "drogalizando", não...não..., não estou falando somente das drogas ilícitas, mas as lícitas...Parabéns! Escrever é uma meneira de postar a conscientização!
    Ah! Tentei muito colocar o meu blog nos seguidores, como o meu "Mestre " (seria eletronizado ou eletrizante) Rodrigo Alves,postou aí do ladinho, mas..., não consegui.

    Abraços Poéticos

    Ana Marly de Oliveira Jacobino

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  3. Cara Andréa,

    Esse assunto é de extrema pertinência e atualidade. Parabéns pela discussão! Um abraço,

    Érico Campos

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  4. Meu filho de 13 anos quando pequeno

    não parava para ver tv,não parava

    sentado,não ficava cinco minutos

    fazendo uma mesma 'coisa'.

    Quando foi para a escola aos

    5 anos,soube pelas professoras que

    era muito falante e inquieto.

    Pensei em DDA.

    Mas anos depois e muita conversa tb.

    ele foi melhorandoe hoje é considerado

    "normal",dentro dos padrões esperado.

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  5. Fui a uma palestra de início de ano,há uns anos passados.

    E fiquei 'passada' ao ouvir,o palestrante,um professor,dizer 'an passant' o nome de um medicamento que é usado para 'acalmar' as cças.

    Tenho sómente o quarto ano primário ,concluído
    em 1960,porém leio muito,e por conta disso ou por acaso,conhecia o tal indicado,que por ironia
    tem no começo do nome,o nome de uma mulher e no final tb.

    Fiquei com vontade de expressar minha indignação,perguntando se ele era médico.

    Mas pensei:E se for?

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